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Que Seja em Paz!!!

(*) Fernando José Dias da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

Um morto e outros que não morrem. O morto foi Carlo Giuliani, aquele que tentou atacar um carro da polícia com um extintor de incêndio e recebeu dois balaços na cara durante as manifestações contra a globalização, em Gênova. Os que não morrem são todos aqueles que protestam na Argentina, aqueles que já não têm mais nada a perder, porque o emprego e a dignidade humana já foram deixados para trás faz algum tempo. São os que, como última reação, fecham as estradas para protestar.

Os que não podem morrer são aqueles que levam cartazes nas passeatas explicando a situação: Temos três problemas: não temos trabalho, não nos aposentamos e não morremos. Verdadeiramente, os chatos que estão atrapalhando a dinâmica da nova economia que não é feita para esse tipo de gente. Eles insistem em não morrer. E já começam a pedir desculpas pelo incomodo criado. Se pelo menos fossem fumantes inveterados ainda haveria uma esperança. Mas não, nem dinheiro para comprar cigarros eles têm. A Phillip Morris - que desenvolveu a teoria de que o cigarro faz bem para a economia porque adianta a morte e, assim, são evitadas todas aquelas chateações como pagamento de aposentadorias e de seguro saúde - bem que poderia prover esse pessoal que, ainda por cima, reclama.

O duro mesmo é estabelecer a relação. O morto de Gênova é conseqüência daqueles que não podem morrer na Argentina; ou, ao contrário, os que não tem onde cair mortos na Argentina é que provocaram o morte de Carlo Giuliani? Os filósofos matemáticos poderão responder a questão, o que importa é que o mal-estar é o mesmo. Talvez, melhor fosse dizer que os acontecimentos que vêm se produzindo desde Seattle, em 1999, e passaram com violência por várias outras cidades, até Gênova, sejam o alerta, ou então a reação ao que ocorre atualmente na Argentina. Um país onde as funções do Estado estão desaparecendo, estão ficando mínimas. Onde os serviços de saúde e de educação estão totalmente sucateados, onde não se tem mais nada para vender porque tudo já foi privatizado, onde acabaram com o emprego em três anos, acabaram com as aposentadorias e fizeram muitas outras maldades com a população. O exemplo de um país que já foi, não é mais.

Claro está que não se muda o mundo nas ruas. É preciso mais do que botar hordas ululantes desfilando e fazendo balbúrdia para que aconteça uma alteração do caminho. Não é possível também dividir a cidade, como aconteceu em Gênova, em áreas de cores diferentes. A zona vermelha, onde se encontravam escoltados os líderes, e a zona amarela dos arruaceiros, daqueles que já estão sendo chamados de anticapitalistas e não contrários à globalização. É claro que existe uma tremenda confusão entre os grupos que freqüentam essas reuniões mais agitadas. Mas, até prova em contrário, a maioria dos grupos que participam das manifestações prega a não violência. Eles têm como mote principal democratizar a globalização e não derrubar o sistema capitalista. Alguns especialistas, vendo a distância todo o movimento, acreditam que se está chegando a um ponto de exaustão - o limite da dualidade extrema entre os beneficiários e as vítimas do sistema. Mas não são só os senhores de terno que estão preocupados como rumo que tomaram os acontecimentos. Os manifestantes, depois de Gênova, também estão perguntando se a maneira de mobilização está correta. A maioria acha que a pressão sobre os governos e as instituições devem ser mantidas. As manifestações vão prosseguir. Mas o saldo de Gênova foi pesado- um morto e mais de 300 feridos.

De qualquer forma, antes de Seattle não se imaginava que pudesse haver discussão sobre a globalização. O assunto era posto de forma tão definitiva pelos bruxos que faziam suas bruxarias nos anos 90, que a contestação de hoje não deixa de ser um avanço - pequeno é verdade, mas que pode trazer esperanças. Esperanças de que em Gênova ninguém tenha necessidade de morrer. E que na Argentina a morte, se vier, que seja em paz.

(*) O autor, Fernando José Dias da Silva, é articulista da Agência Estado

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