Geral

O cachorro que ri

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Confesso que sofro do pânico da primeira frase. Iniciar um texto diante da tela em branco me dá arrepios. Ainda mais hoje que prometi a mim mesmo não tocar no assunto apagão e muito menos falar mal de Fernando Henrique. Chega. Há os que penam para escolher o título. Querem-no como se fosse uma isca, a cenoura na frente do leitor ou os olhos azuis do texto, aquilo que seduz e convida à aproximação: vem bem, vem...

Hemingway, esse sim, sabia escolher os títulos dos seus livros: Do outro lado do rio entre as árvores. Não é lindo? E aqueles dos romances que viraram filmes: O sol também se levanta; Adeus às armas; Por quem os sinos dobram. Mas campeão mesmo é Proust com seu Em busca do tempo perdido. Lido em francês é ainda mais bonito.

Títulos têm uma influência terrível. Tive um amigo que comprou apartamento num edifício seduzido pelo nome - Cap dAntibes. A riviera francesa povoava o seu imaginário. Perdeu a vontade de uma excursão por lá de tanto passar raiva com os vícios ocultos do seu apartamentos. A cada descarga do vizinho do andar superior ele tinha a sensação de morar debaixo de uma cachoeira.

Há quem encontre dificuldades para achar a última frase. Escreve, escreve e não encontra a frase conclusiva. Desse mal não morro. Coloco um ponto final e... está acabado. Mas a primeira frase, amigo, é um parto doloroso. Depois que Franz Kafka escreveu A Metamorfose ninguém jamais conseguirá começar texto algum melhor do que ele. Quando certa manhã Gregório Samsa despertou de um sono intranqüilo, achou-se em sua cama convertido em um monstruoso inseto. O clímax e o epílogo, tudo na primeira linha. Dezenas de livros foram escritos para discutir se o personagem de Kafka havia se transformado numa barata ou num besouro.

Bem que Garcia Márquez advertia para as dificuldades de iniciar a narrativa curta ou o texto do qual se espera alguma agilidade. No primeiro parágrafo é preciso definir tudo: estrutura, tom, estilo, ritmo, extensão e, às vezes, até o caráter do personagem. Quem lê o início de Ulisses, de James Joyce, fica com a ilusão de que o resto das 700 páginas vai ser moleza. A ação de Ulisses transcorre em Dublin num único dia, 16 de junho de 1904. Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan desce do alto da escada com um vaso de barbear. Seu roupão amarelo, desatado, se enfunava por trás à doce brisa da manhã.

Morreu o cachorro lá de casa, um poodle que não largava do meu pé. Senti um nó no peito. Quando me sentava ele deitava. Se eu me levantasse o cão fazia o mesmo. Na hora de ir ao banheiro o bicho vinha atrás. Educado. Sua mãe humana, severíssima, adestrou-o a fazer suas necessidades no jardim. Tinha mais diplomas que nós todos lá de casa. As visitas sempre perguntavam quem era Peter Sir Hund, de tantas titulações. Boli, como as crianças preferiam chamá-lo, morreu de enfarte o coitado. Agora me arrumaram um substituto, o Juquinha. Faz cocô e xixi pela casa, come as minhas meias e rói o pano do sofá. Quem sabe ele sobreviva a mim, como o cão da Maria dos Prazeres do conto do velho Gabo. Por sinal ela era uma brasileira amiga de anarquistas, com reputada carreira de prostituta na Catalunha. Quando menina, aos 14 anos, Maria foi vendida pela mãe no porto de Manaus para um marinheiro turco. É desta época o seu maior trauma, a visão de caixões com defuntos dentro, boiando no quintal após uma inundação. Já septuagenária, ela se prepara para a morte comprando o túmulo a prestações, num cemitério que nunca será atingido pelas águas. Mas o amor ainda pulsa, por ironia, em dia de chuva forte. A prostituta solitária ensina o cachorro a velar seu futuro túmulo. O cão já sabe chorar: Acontece que os donos passam a vida educando os cachorros com hábitos que os fazem sofrer, como comer em pratos ou fazer suas porcarias na hora certa e no mesmo lugar. E em compensação não ensinam as coisas naturais das quais eles gostam, como rir e chorar.

Comentários

Comentários