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Arte: um instrumento de individuação

(*) Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Em um dos episódios do filme Sonhos, de Akira Kurosawa (Akira Kurosawa, Dreams, 1990) um jovem contempla um quadro de Vincent Van Gogh em uma galeria de artes. Como que em um passe de mágica, ele é, então, transportado para dentro do quadro e inicia um passeio pelo mundo do artista plástico.

Depois de caminhar por paisagens de cores vivas, o jovem acaba encontrando o próprio Van Gogh. Na conversa com o pintor ele é indagado sobre porque não estar pintando pois o mundo é simplesmente fantástico. Encerrando o rápido encontro, Van Gogh chama a atenção para o lado efêmero da vida acrescentando que o ser humano deve apressar-se pois ele não possui muito tempo. O jovem continua seu passeio sendo, em um determinado momento, transportado novamente para a galeria de artes.

Neste curto episódio do filme Sonhos, Kurosawa define a arte como uma viagem. Esta desperta-nos para a beleza da vida, questiona a nossa passividade e alerta-nos para o transitório e passageiro. Para Kurosawa a arte é um instrumento de conversão, de transformação de vida e de retorno à essência de nossa existência.

Vida humana e arte são inseparáveis. Já nos primórdios de sua existência o ser humano sentia a necessidade de registrar e interpretar, através de pinturas nas cavernas, as experiências que vivia em seu cotidiano. A arte nasce com o ser humano e constitui-se uma de suas expressões mais profundas.

Através de seu corpo, da escrita, de objetos, da pintura, da fotografia ou de imagens em movimento, o ser humano expressa de forma livre e sensual suas emoções e pensamentos. A arte é uma forma de relação com o mundo e está aberta para qualquer pessoa pois todo ser humano é, na verdade, um artista em potencial.

O filósofo americano Arthur Danto define a arte como tudo aquilo que exige interpretação. Um objeto feito pelas mãos humanas torna-se arte quando oferece a possibilidade de ser refletido. Na verdade, a expressão artística movimenta o ser humano em todas as suas dimensões.

Ao contemplarmos uma obra de arte, os nossos sentidos são imediatamente ativados. Ao sermos tocados pela expressão artística, diferentes emoções são despertadas. Na relação com a obra de arte é inevitável o surgimento de lembranças, questionamentos, associações ou pensamentos.

Desta forma, através da arte, vivemos um processo intenso de reflexão sobre a vida e de interpretação da realidade. Uma pedra no jardim, um prato na estante e uma mesa na sala de jantar não são obras de arte, pois ao observá-los recebemos informações sobre o mundo, mas não somos levados à reflexão e à interpretação. Mas, se observamos uma mesa com um prato em cima e dentro deste uma pedra, estamos diante de uma expressão artística, uma obra de arte que exige de nós um processo reflexivo. Através da arte reinterpretamos o mundo para podermos compreendê-lo melhor. Como afirma Bertolt Brecht, a finalidade da arte é o domínio da realidade.

A arte, porém, não só nos leva à uma interpretação sobre a vida, mas também busca transformá-la. Para Adorno a arte possui essencialmente uma função subversiva. Em cada obra de arte aparece algo que não existe, afirma o filósofo alemão. Qualquer expressão artística deve trazer-nos uma consciência da negatividade, ou seja, a denúncia de que a realidade ainda não condiz com o ideal. A arte ativa nossos sonhos e utopias e oferece-nos impulsos para a transformação de nosso meio ambiente. Enquanto a vida continua sendo diferente do que ela deveria ser, a expressão artística faz-se necessária. Assim, uma obra de arte deve ser sempre algo incompreensível, provocando um movimento de vida no contexto em que é exposta. Sendo uma expressão banal e harmoniosa com a realidade, a obra de arte pode até ser facilmente consumida, mas nunca alcançará seu objetivo de transformação da vida.

Além de ser um processo reflexivo e transformador, a arte possui um caráter profundamente religioso. Toda a expressão artística é, na verdade, a exteriorização da força divina, do impulso religioso que possuímos. Através do ato de criação aproximamo-nos daquele que é constante e crescente criatividade, ou seja, de Deus. No processo criativo, permitimos que esta fonte de vida que habita em nós possa fluir livremente.

Assim, a expressão artística constitui-se em uma celebração religiosa e o artista é uma espécie de monge, sacerdote ou místico. Levando à interpretação da realidade, sendo um impulso para sua transformação e colocando o ser humano em contato com seu centro e sua origem, a arte constitui-se em um instrumento de individuação e de integração do ser humano em sua vida. Todo ser humano deve aventurar-se em um processo criativo e desenvolver-se em uma das diversas expressões artísticas: teatro, dança, desenho, música, pintura, literatura ou poesia. Tenho certeza que muitos encontrarão na arte os milagres que esperam dos céus.

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com(*) Especial para o JC Cultura

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