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Prefeito aposta em vocações de Bauru

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 11 min

Com 47 anos de vida pública, Nilson Costa quer saber como está sua imagem e a de seu governo perante a população; por isso fará pesquisa para conhecer a opinião da cidade.

Para Nilson Costa, 71 anos, ser prefeito é a concretização de uma vocação iniciada na juventude: a de servir à comunidade. Mas com 47 anos de vida pública, o chefe do Executivo bauruense está curioso a respeito da opinião pública sobre sua administração e sobre sua pessoa. A pesquisa deve ser realizada em breve e será custeada pelo próprio Nilson Costa, que também irá consultar a população a respeito das eleições de 2002. Sobre Bauru, o prefeito é otimista e acredita que a cidade tem condições de assumir papel crescente na economia e na política estadual. O trabalho nesse sentido, afirma, está sendo realizado pela Prefeitura. Os passos são curtos, mas firmes, como os da tartaruga, imagem que a oposição lhe impingiu e que ele assumiu. Adotei a tartaruga como símbolo porque é um animal dócil, determinado, que vive muito tempo - espero também ter uma longa vida, afirma Nilson Costa, que gostaria de ser lembrado pela população por causa dos programas sociais implantados em sua gestão.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida por Nilson Costa ao Jornal da Cidade, em razão do aniversário de 105 anos de emancipação de Bauru.

Jornal da Cidade - Ser prefeito era um sonho que o senhor acalentava desde o início da vida política?Nilson Costa - Penso que qualquer pessoa que tenha vocação para a vida pública tem como objetivo final poder exercer um cargo executivo, porque é uma maneira de colocar seus planos, seus anseios, em termos concretos.

JC - Dentro desse projeto de vida, o exercício do cargo está sendo além ou aquém das expectativas?Nilson - É um grande desafio e a melhor receita de vida que a pessoa pode ter é enfrentar os desafios, porque é isto que nos retempera, nos dá condições de batalhar e até enfrentar as dificuldades da vida. Dentro desse princípio, acredito que a gente está conseguindo vencer os desafios iniciais, avançando, embora hoje as dificuldades para se governar sejam infinitamente maiores que alguns anos atrás. Hoje os órgãos fiscalizadores e as cobranças são muito maiores que num passado distante.

JC - Mas o senhor não vê isso como positivo?Nilson - Vejo como positivo em termos de desafio, como já lhe falei, mas é um aspecto que, às vezes, até desanima a gente, pelo tempo que se gasta justificando coisas, defendendo-se de falsas acusações. Isto toma muito tempo do governante.

JC - Qual a visão que o senhor acredita que a população tenha do prefeito?Nilson - Nós vamos fazer uma pesquisa de opinião, agora, nas próximas semanas, para sentir. Quando saio, freqüento praças esportivas, feiras livres, ando nas ruas, eu tenho impressão que a população compreende o nosso trabalho e intimamente apoia, embora a gente não esteja livre de críticas, pois há coisas que gostaria de fazer e não posso pelas dificuldades orçamentárias.

JC - Por que realizar essa pesquisa?Nilson - Nós vamos pesquisar não apenas qual é a posição da administração municipal, do prefeito especificamente, mas também qual a tendência da população em relação às próximas eleições para presidente da República, governador e deputados federal e estadual.

JC - Quem irá custear a pesquisa, o PPS ou a Prefeitura?Nilson - Não, não é o órgão oficial Prefeitura, é o cidadão Nilson Costa quem vai encomendar essa pesquisa.

JC - O senhor está preocupado com a sua imagem?Nilson - Eu estou curioso.

JC - A imagem que a população tem do senhor corresponde à realidade?Nilson - Às vezes a população é levada a interpretar alguns fatos de forma errônea, ou por receber informações equivocadas ou por receber versões que não correspondem à realidade, e a gente não tem oportunidade de fazer chagar a toda população, a todo momento, o lado concreto, a versão correta das coisas.JC - E a imagem da tartaruga utilizada pela oposição em referência ao senhor, o incomoda?Nilson - Eu até adotei a tartaruga como símbolo, porque é um animal dócil, determinado, que vive muito tempo - espero também ter uma longa vida, da maneira como a gente vê a própria vida, pelo lado positivo, então, acho que colocar rótulos nas pessoas é uma maneira desonesta de fazer oposição. Me parece que, nas eleições, a tartaruga chegou na frente das lebres - e o próprio Jornal da Cidade retratou isso numa charge - e eu acho que nós estamos nessa marcha firme, perseguindo os objetivos de Bauru. Houve quem no passado corresse além da velocidade permitida pelas pernas da Prefeitura e levou o município a uma situação de insolvência. Os efeitos das coisas que as lebres construíram de maneira equivocada ou tentaram construir nós, na condição de tartaruga, temos tentado corrigir. Isso se reflete numa dívida bancária que nós federalizamos, há um ano e meio, de R$ 43 milhões. Dívida que nos custou, só neste último ano e 4 meses, cerca de R$ 7 milhões em juros e correção.

JC - Já que estamos falando em construção, qual a grande obra que o senhor pretende deixar ao término de seu mandato?Nilson - Nós estamos procurando atender a cidade no que é essencial. O Brasil, hoje, não permite grandes empreendimentos porque a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e legislações atinentes a essa lei só permitem que gastemos aquilo que arrecadamos. Considerando que os prefeitos recentes herdaram uma dívida brutal e têm que se adaptar à LRF, isso impede que a gente se atire a grandes obras, quer dizer: começar viadutos sem ter condições de terminá-los, dentro da receita orçamentária, seria jogar para os administradores futuros uma herança maldita. E hoje, repito, a legislação não permite. Com esses R$ 7 milhões que paguei de juros da dívida bancária, poderia proporcionar 500 quarteirões de asfalto de graça. Teria resolvido o problema de asfaltamento das principais vias da nossa periferia. As grandes obras são programas de grande alcance social, que não aparecem como um viaduto ou uma grande avenida, mas que minimizam os problemas de milhares de famílias. Dentro desses programas cito o Bolsa-Escola, em convênio com o governo federal, o Nutribebê, o Sorria Bauru, apoiamos entidade filantrópica que vai acolher meninos de rua e, agora, vamos firmar convênio com o Cevac para atendimento das meninas, e o Geração de Renda. Além disso há convênios com a USC e a ITE para atendimento de famílias de baixa renda. Isto é algo que não parece muito, mas que reduz, e muito, as dificuldades das famílias carentes.

JC - Já que o senhor falou sobre o viaduto, a Prefeitura pretende terminar a obra?Nilson - Olha, gostaria de dar números para que a população entenda que esse assunto do viaduto é um desafio intransponível neste momento. Quando rolamos a dívida do viaduto, em dezembro de 1999, ela estava em R$ 23 milhões; pagávamos 42% em cima disso de juros anuais. Se não tivéssemos feito a rolagem de 30 anos a juros de 9%, essa dívida estaria transformada hoje em quase R$ 40 milhões. De modo que, não é só essa dívida, nós devemos ainda, pela parte construída, mais R$ 7 milhões para a empreiteira, que naturalmente só dará seqüência à obra quando tiver garantia de recebimento do atrasado com parcelamento a curto prazo. Para terminarmos a primeira alça do viaduto, teremos que gastar de R$ 4 milhões a R$ 5 milhões, ainda. Aí, nós chegaríamos à Vila Falcão num beco sem saída, ou seja, teríamos que desapropriar uma área relativamente grande para fazer uma rotatória. Acho que é um custo muito alto se tivermos que continuar esse viaduto com recursos próprios. Teríamos que sacrificar, praticamente, toda a verba de investimento municipal num obra que, afinal, não considero tão primordial a ponto de sacrificar as receitas que destinamos à educação, saúde, ao meio ambiente, etc. Mas nós temos o propósito, dentro dessa administração ainda, de conseguir apoio na área federal para podermos dar seqüência à obra, sem prejudicar o setor social básico.

JC - Já que há os impedimentos em relação a recursos e à LRF, como o senhor gostaria de ser lembrado ao final do mandato?Nilson - Não, veja bem, não quero dizer que não deva ser lembrado pelas obras, apenas pelas obras de efetivo conteúdo social. Quando estou, este ano, inaugurando seis escolas - já inaugurei duas, e Bauru há muito tempo não construía escolas, penso ser uma obra considerável. Espero esse ano inaugurar três creches, eliminando, progressivamente, o déficit que nós temos e ajudando a mulher bauruense que trabalha, principalmente. Nós esperamos, a partir de agora, partir com um grande plano de asfaltamento comunitário, como, por exemplo, fez a Zona Sul, que já se adiantou com a iniciativa de seus moradores e proprietários. Esperamos tratar o esgoto, que será a grande obra desta Administração, e me alegra saber que, no campo da cultura e do esporte, nós demos a Bauru uma nova dimensão nesses últimos três anos. O que Bauru cresceu em matéria de atividades artísticas e culturais, especialmente após a inauguração do Teatro Municipal, é um fato altamente positivo. E agora terminamos os Jogos Regionais, que foram vistos com descrença - achavam que Bauru não teria recursos, capacidade e até potencial esportivo para ser bem sucedida - e a cidade terminou os jogos com aplausos gerais dos visitantes. Cerca de 4 mil atletas e dirigentes ficaram entre nós por quase 10 dias, proporcionando um acréscimo importante na renda de diversos estabelecimentos comerciais. Então, tivemos um resultado espetacular, porque ganhamos os jogos com uma folga considerável, o que mostra que Bauru está plenamente capacitada para sediar os Jogos Abertos do Interior. Vamos nos candidatar à sede do evento.

JC - O senhor entrou na vida pública aos 24 anos e hoje tem 71 anos. Com base nessa história, o senhor pretende continuar na política ou este é o último mandato?Nilson - Tudo vai depender de como transcorrer este mandato, mas creio que já dei uma contribuição bastante extensa a minha comunidade.

JC - Nesses anos todos, o senhor se decepcionou com a política?Nilson - Acho que a política é uma atividade, uma profissão, como outra qualquer. Nós temos os bons e os maus políticos, aqueles que fazem da política um ganho de vida, um trampolim para negociatas e aqueles que vêem no cargo público uma forma de dar vazão a uma vocação e uma forma de ser úteis a si próprios e à comunidade. Eu me enquadro nesse último hall. Nunca admiti meus parentes em cargos públicos, o meu patrimônio hoje é o mesmo que quando assumi e eu vejo na atividade política algo de muito sensacional, quando se consegue atingir os objetivos da comunidade. Agora, neste exato momento, como homem público, ser político está sendo muito difícil, porque a cobrança é muito forte, pelos maus exemplos e pela situação difícil que o País se encontra, com o aumento da desigualdade social e do desemprego, pela crise energética, pela falta de horizontes e, principalmente, por causa da perda daquilo que acho básico para o País: a disciplina, o respeito à autoridade. Hoje estamos vendo o crescimento absurdo e intolerável da criminalidade, em que os criminosos ditam as regras, e a própria autoridade policial está encontrando muitos problemas para se defender, digamos assim. Nós estamos caminhando, no meu modo de ver, para uma ingovernabilidade. Se as coisas continuarem nesse ritmo, vai ficar muito difícil para segurar as regras.

JC - Dentro desse quadro, qual é a expectativa do senhor para o segundo semestre?Nilson - Apesar de tudo, sou muito otimista em relação a minha cidade. Acho que Bauru tem um potencial imenso, um povo muito cônsul da sua força, da sua iniciativa. A gente vê a cidade se espraiando, as firmas estão vindo para Bauru. Então, vejo Bauru como uma cidade potencialmente forte, principalmente quando a gente recepciona pessoas de fora e ouve o entusiasmo com que elas se referem a Bauru. Quer dizer, muitos bauruenses não têm noção de como está a vida em outras cidades de igual porte e colocam muito defeito em Bauru. Falta essa oportunidade de conviver em cidades de igual porte para valorizar mais o que temos de bom.

JC - Como ficam os projetos de prevenção às enchentes, visto que o Ministério Público determinou até o final do ano para que a Prefeitura tome algumas iniciativas?Nilson - Nós firmamos um compromisso com o MP de superação daqueles problemas maiores das enchentes de fevereiro até o final do ano, sem dúvida alguma. Estamos aguardando, ainda, o aporte de recursos da Defesa Civil do Estado, mas estamos desanimando. Agora, vamos sacrificar os recursos próprios, mas vamos começar a tapar os três pontos principais: avenida Waldemar Ferreira, rua Cuba e rua Mara Lúcia. E estamos trabalhando bastante com galerias de águas pluviais, como nas regiões dos jardins Solange, Jussara e Ferradura Mirim. Na Zona Sul da cidade, uma ampla área vai receber galerias de águas pluviais - neste caso, sem ônus para o município. A secretária de Planejamento esteve no Sul do País para receber mais subsídios a respeito dos piscinões, com a primeira experiência a ser implantada nas proximidades do Vitória Régia. Agora, é um trabalho que vai levar tempo, pois há muitas áreas de terra ainda.

JC - Para encerrar: qual deve ser o perfil do seu sucessor?Nilson - Isso nós vamos ver ao longo do tempo. Precipitar uma discussão sobre sucessão municipal quando nós nem nos definimos ainda a respeito de candidatos a deputado estadual e federal, cujo pleito é em 2002, seria criar uma fonte de tumulto maior ainda. O perfil será desenhado ao longo do tempo, podendo ser de um integrante da Administração ou fora dela. Vamos dar tempo ao tempo.

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