Geral

O colapso da democracia

(*) Augusto Zamora
| Tempo de leitura: 3 min

A Argentina se debate numa prolongada crise política, econômica e social, que provocou um êxodo surpreendente devido à bancarrota do Estado. Há um século, era uma das 20 nações mais ricas do planeta, numa lista que deixava de fora muitos países europeus. Hoje, 30% de seus habitantes desejam abandonar a Argentina, sobretudo os jovens. O colapso argentino não é o único. Com exceção do Chile, Uruguai, Costa Rica e Panamá e a singularidade do Brasil, cuja imensidão territorial lhe permite disfarçar o impacto das desigualdades, a América Latina oferece um panorama desolador de desigualdade, pobreza, endividamento, emigração.

Não são apenas argentinos os expulsos de sua pátria. Não é o Equador, com seus 80 mil emigrantes, o país que ostenta o recorde do êxodo populacional. De El Salvador fugiram, nos últimos seis anos, 1,5 milhão de pessoas. Da Nicarágua, um milhão. O México, graças à sua proximidade com o império, beneficia-se da tolerância para a onda de deserdados (18 milhões de mexicanos emigraram).

A América Central converteu-se em zona de passagem de milhares de equatorianos e peruanos. Colombianos e venezuelanos tentam o acesso direto aos Estados Unidos. A região, com as exceções indicadas, expulsa milhões de filhos no maior drama humano de sua história, desde a independência. Sob a onda neoliberal e a pressão dos organismos financeiros multilaterais, das multinacionais e dos governos dos países ricos, as nações latino-americanas leiloaram suas riquezas. Em tempo recorde, desmantelaram os estados, privatizaram empresas públicas, recursos naturais e serviços sociais. As empresas estrangeiras realizaram negócios escandalosos comprando a preço de liquidação o patrimônio estatal e nacional.

O desmonte alfandegário provocou a quebra de milhares de pequenas e médias empresas nacionais, incapazes de enfrentar a competição de poderosas multinacionais. No Brasil e na Argentina, as cidades industriais alcançaram níveis desconhecidos de desemprego superiores a 20%. As relações entre a União Européia e a América Latina exemplificam o aumento da desigualdade em âmbito internacional. Desde 1993, o intercâmbio birregional passou do superávit (que em 1990 era de US$ 12,884 milhões apenas para o Mercosul) para o déficit (que chegou a US$ 16 bilhões, em 1998) com uma particularidade: a América Latina importa produtos de alto valor agregado e exporta matérias-primas (café em grão, banana, petróleo cru, minerais). Este modelo reproduz a clássica estrutura dos intercâmbios Norte-Sul.

A autodestruição da União Soviética, a paralisia da esquerda e a memória viva dos horrores sofridos sob as ditaduras fascistas são as razões para que o descontentamento majoritário e a ruína econômica não tenham desembocado - com exceção da Venezuela - em revoluções, quer democráticas, quer violentas. O descontentamento, que antes era canalizado para a militância política ou para a insurgência, hoje toma a forma de êxodo, que é a opção dos que perderam toda a esperança de que o país possa mudar ou melhorar o sistema.

Os países ricos poderão elogiar os sistemas políticos latino-americanos na medida em que permitiram o enriquecimento de suas empresas nacionais. No entanto, para os países latino-americanos esses sistemas significaram um acúmulo sem fim de fracassos, o que faz lembrar que continua valendo o desafio de inventar ou construir sistemas políticos próprios, que juntem democracia política e democracia econômica, desenvolvimento econômico e justiça social. A crise regional confirma o que já se sabia: se as imitações de pouco servem, os arremedos acabam em catástrofe. Os sistemas políticos funcionam quando resultam de cada realidade nacional. Para servir aos povos, não para destruí-los. Para promover o bem-estar geral, não para enriquecer minorias nacionais e estrangeiras. Por isso mesmo, vistos os resultados e atendendo às perspectivas imediatas, falar do êxito da democracia na América Latina é brincadeira.

(*) O autor, Augusto Zamora, é professor de Direito Internacional e Relações Internacionais da Universidade Autônoma de Madri.

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