É praticamente certo que a gravidez em si contribua para a melhora da memória.
Filhos recém-nascidos mudam a vida da gente muito além de exigirem tempo e cuidados. Quem tem filhos conhece os malabarismos cognitivos impostos pela maternidade: lembrar de em que bolsa ficou a chupeta, em qual quarto ficou a mamadeira, onde largou a chave do carro, a hora do remédio, e se possível ainda aumentar a produtividade para que aquelas duas horinhas de sono do bebê possam render todo o trabalho por fazer.
Essas mudanças todas não são prerrogativa das mulheres; outras mamíferas e também mães-pássaros precisam localizar, explorar e lembrar de onde se encontram fontes de alimento, de água, e locais para dormir. E com cansaço e tudo, muitas mães dizem se sentir até mais eficientes do que antes. Será que elas estão apenas se virando com o que já tinham, ou alguma mudança fisiológica ajuda as mães em suas novas tarefas?
Um grupo de neurocientistas na Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos, resolveu investigar se as habilidades cognitivas das mães são de fato mais apuradas ou não. Segundo suas observações com um grupo de ratas, tanto a gravidez quanto o fato de ter uma ninhada para cuidar estimulam a memória, deixando-a até três vezes melhor. Os resultados apareceram numa edição da revista Nature.
De acordo com a revista, os cientistas compararam o desempenho de ratas mães de duas ninhadas com ratas virgens da mesma idade num labirinto em forma de estrela, com oito pontas. Todo dia, durante duas semanas, as ratas eram colocadas no centro do labirinto, observavam um pedaço de ração ser escondido em uma das pontas, e em seguida partiam à sua procura. Durante a primeira semana, as mães iam direto ao braço certo do labirinto três vezes mais freqüentemente do que as ratas sem filhos. Mas as solteiras iam aprendendo, e na segunda semana já acertavam sete de cada oito vezes, como as mães.
Para determinar se o simples fato de cuidar de uma ninhada influi na memória espacial, os pesquisadores compararam mães naturais com mães adotivas, que haviam cuidado de filhotinhos emprestados por duas semanas - tempo suficiente para elas começarem a mostrar comportamento materno, agrupando os filhotes e deitando-se sobre eles (e como elas não têm leite, os pesquisadores trocavam os filhotes a cada 24 horas por outros já devidamente empanturrados). O teste dessa vez era descobrir em qual dos muitos buraquinhos numa bandeja estava escondida a comida, e depois lembrar da posição do esconderijo. Mães naturais novamente deixaram as solteironas no chinelo: levavam apenas 43 segundos para encontrar o esconderijo uma segunda vez, enquanto as outras levavam em média dois minutos até achar. Mas as mães adotivas não ficaram para trás, chegando à comida escondida em apenas 55 segundos.
Com tudo o que já se conhece sobre os efeitos dos hormônios femininos sobre o cérebro, não é de se espantar que as mães tenham mais facilidade de encontrar os esconderijos de comida. Durante o ciclo menstrual, o aumento do nível de estrogênio antes da mestruação provoca um aumento no número de sinapses, os contatos entre neurônios, no hipocampo, ao mesmo tempo em que o aprendizado acontece com maior facilidade. Como o hipocampo é uma estrutura envolvida na memória espacial, necessária para reencontrar esconderijos e objetos escondidos, é natural que esse tipo de memória melhore todo mês logo antes da menstruação. A gravidez seria apenas um caso extremado, em que o nível de estrogênio circulante permanece elevado durante meses. Tanto estrogênio deve aumentar o número de sinapses no hipocampo, levando a uma facilitação duradoura da memória espacial após o parto e explicando os resultados com as ratas mães.
Na verdade, o estudo ainda não permite dizer que a gravidez por si causa melhor memória, já que as mães adotivas tiveram melhora semelhante. Segundo todos os estudos sobre os efeitos do estrogênio, é praticamente certo que a gravidez em si contribua para a melhora da memória. Mas fica faltando testar se ratas que engravidaram, tiveram seus filhotes, mas não cuidaram deles, também têm memória melhor. E fica faltando também determinar quão duradoura é essa melhora. No estudo, as ratas mães já tinham filhos adolescentes.
Mas outros fatores além dos hormônios femininos também devem contribuir para a melhor memória das mães. Senão, como explicar a vantagem de mães adotivas sobre as solteironas no teste de memória da bandeja? Um fator bastante provável é a riqueza de novos estímulos proporcionados às mães pelos filhotes.
Já se sabe que a vida em um ambiente rico em variedade de estímulos aumenta o número de sinapses no hipocampo. De fato, o cérebro de ratas mães criadas em ambientes monótonos, pobres em estímulos, é semelhante ao de ratas solteiras criadas em ambientes enriquecidos, cheios de objetos interessantes. Portanto, talvez a melhor memória das mães adotivas seja resultado de mudanças no hipocampo provocadas pelos estímulos fornecidos pelos filhotes.
Quando se fala da relação entre mães e bebês novos, normalmente se pensa apenas no ambiente que a mãe oferece à cria. Mas o contrário não deve ser ignorado: os bebês oferecem às mães uma multitude de novos estímulos. Jornais e revistas atuais já ensinam aos pais como é importante oferecer estímulos variados aos filhos, desde pequenos. Mas os filhos também dão sua contribuição, enriquecendo o ambiente materno e melhorando sua memória. E se as mães encontram casa e comida mais facilmente, os filhotes só têm a ganhar.
Ao contrário do que você pode ter pensado, aprender é algo que acontece em três fases: uma muito rápida, depois uma mais lenta, e por fim um patamar, quando você não melhora mais - se continuar fazendo do mesmo jeito. É como nos recordes de atletismo: para melhorar ainda mais, é preciso mudar a estratégia de aprendizado ou de treinamento. Curiosamente, a divisão em três fases se aplica tanto ao aprendizado perceptual, quando a gente aguça os sentidos, quanto ao aprendizado de novos movimentos e de relações espaciais, como nos mapas. Isso quer dizer que, qualquer que seja o aprendizado, a base deve ser a mesma.
E os cientistas acreditam que essa base é a modificação do cérebro. Ou, mais especificamente, a modificação das conexões entre as células do cérebro. Uma idéia bastante difundida é que a fase inicial, rápida, do aprendizado, corresponde a modificações que as células fazem usando o material de que dispõem naquele momento. A fase seguinte, mais lenta, acontece à medida em que as células conseguem fabricar novos elementos, para fortalecer ainda mais ou mesmo criar novas conexões, ou ao contrário, desativá-las e perdê-las, até que se chegue ao limite. Aprender, portanto, é remodelar o cérebro de acordo com o que a gente vive e faz.