Geral

Acordos salariais superam a inflação

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

Levantamento do Ministério do Trabalho de Bauru mostra que 16 categorias obtiveram reajustes acima da inflação.

A maioria dos acordos salariais fechados no Ministério do Trabalho (MT) de Bauru, nos primeiros sete meses deste ano, referentes às negociações que envolveram trabalhadores de 16 categorias diferentes, terminou com reajustes acima da inflação acumulada para o período (indicada pelo Índice de Preços ao Consumidor Ampliado - IPCA), de acordo com a data-base de cada categoria. Para os que ficaram com reajuste menor que o IPCA, a diferença foi pequena.

De acordo com o levantamento feito pelo coordenador do MT, Silvio Carlos de Lima Pereira, a situação dos primeiros sete meses do ano 2001 foi a seguinte: o setor de transportes fechou acordo de 7% de reajuste salarial (já garantido para os trabalhadores pertencentes ao Sindicato dos Condutores de Veículos Rodoviários - Sindtran) e de 6,45% (Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Bauru - Sindbru). O IPCA acumulado no período de um ano, conforme a data-base da categoria (maio) foi de 6,61%.

No setor de construção civil, o acordo feito entre os funcionários e a diretoria da Sat Engenharia garantiu 12% de reajuste. Funcionários das outras empresas tiveram 7% de reposição salarial. O IPCA do período também foi de 6,61% (maio).

Os metalúrgicos conseguiram 9% de reajuste, sendo que o IPCA ficou na casa de 6,65% (data-base em novembro); trabalhadores rurais tiveram 7,5% de reposição, contra o IPCA de 7,76% para o período (outubro); trabalhadores do comércio conseguiram 7,25% de reajuste e o IPCA foi de 7,76% (outubro); setor de Turismo e Hospitalidade fechou em 5,9%, com IPCA de 6,61% (maio); setor de refeições coletivas fechou acordo salarial com reposição de 6%, sendo o IPCA do período de 6,44% (abril); trabalhadores do setor de panificação tiveram 7,5% de reajuste, quando o IPCA ficou em 6,65% (novembro).

Trabalhadores da Saúde tiveram reajuste de 7,25%, com IPCA na casa de 6,44% (abril). Comércio hoteleiro fechou acordo com 6,2% de reajuste salarial, com IPCA do período em 5,97% (janeiro). Setor de vestuário fechou com 6% de reposição salarial, sendo o IPCA do período de 7,03% (junho). Trabalhadores do setor de fiação e têxtil, de calçados, do Sincohab e de indústrias químicas e farmacêuticas tiveram, respectivamente, 8%, 10%, 6,5% e 8%, sendo o IPCA do período de 6,61% (os quatro têm data-base em maio). Trabalhadores de postos de combustíveis (frentistas) conseguiram reajuste de 7% e o IPCA do período ficou em 6,27% (março).

Pereira faz uma avaliação positiva, dizendo que alguns resultados chegaram a surpreendê-lo. A maioria dos acordos fechados resultou em índices de reajuste salarial acima da inflação do período. Alguns setores tiveram uma pequena perda, porém, outros tiveram ganho real. De uma maneira geral, os resultados me surpreenderam. Os acordos fechados até abril foram mais fáceis e rápidos. Os que vieram para mesa-redonda no Ministério em maio e junho foram mais difíceis, em função da crise energética. Mas, no geral, a avaliação é bastante positiva, diz o coordenador do MT.

De acordo com o economista Reinaldo César Cafeo, ao longo do Plano Real houve uma forte intervenção do governo com o objetivo de estabilizar a inflação. Isso teria feito com que, num primeiro momento, houvesse uma distribuição natural de renda e uma melhoria do poder de compra por parte da população à medida em que eram pagos altos impostos pela inflação. Esse foi o primeiro efeito do Plano Real. Depois, foi priorizada a estabilidade, mas sem uma ação concreta do governo e com as crises externas, como a da Argentina, houve, do ponto de vista da massa de trabalhadores, uma preocupação muito maior com a preservação do emprego do que com a luta pela melhoria dos salários. Isso aconteceu porque a tônica passou a ser o desemprego. Então, entre perder o emprego e pleitear aumentos reais, os trabalhadores e sindicatos acabaram preferindo manter o emprego, relembra o economista.

Com a recuperação do crescimento econômico no ano passado, puxado principalmente pelo setor industrial, teria sido criada, do ponto de vista mercadológico, uma recomposição de parte das perdas que vinham sendo acumuladas durante o plano real. No ano passado, durante as negociações, as categorias conseguiram reajustes acima da inflação. Isso é uma demonstração de que aquele modelo inicial teria se esgotado e que a economia poderia estar passando por um período de recuperação. Essa era a projeção para este ano, mas, fomos surpreendidos pela crise energética e pelas crises externas. Ou seja, a realidade atual dos trabalhadores não é a mesma de dois ou três anos atrás. Diante do cenário atual, a projeção para os próximos dissídios não é tão otimista como o que ocorreu no início deste ano, analisa Cafeo.

Comentários

Comentários