O Brasil está doente. Infelizmente, muito doente. Atacado por uma moléstia degenerativa, que vem minando seu organismo, combalindo suas forças, sua altivez e, conseqüentemente, todo trabalho construtivo em prol do progresso e engrandecimento da Nação. Pobre Brasil! Está sofrendo da síndrome da desonestidade, injustiça e opressão social. Em quase todos os patamares do sistema político-administrativo, deparamos com os mais torpes escândalos a eclodir, crescer e agigantar-se, numa tentativa de avassalamento sobre os princípios morais, que devem reger a vida da Nação, da sociedade brasileira. Difícil o Poder que não tenha sido maculado pelos respingos das imoralidades praticadas por algum dos seus membros. Felizmente, destes, alguns já encarcerados; outros, dando nó em pingo dágua, numa tentativa de livrar-se de um processo, de uma condenação. Contudo, as falcatruas e desonestidades continuam acontecendo despudoradamente. Para isso, alguns se fizeram milagreiros, transformando de um dia para outro pequenas economias pessoais em invejáveis fortunas.
Tais malabaristas são difíceis de serem apanhados de surpresa, uma vez que, como perfeitos conhecedores dos invioláveis segredos da comunidade em que atuam, põem-se sempre à salvo de qualquer empecilho que dificulte sua atuação. Quando pressionados, citam aquela famosa passagem bíblica: Quem não tem pecado, atire a primeira pedra! A multidão política, por cautela, se acalma e debanda. Com isto, o povo, incrédulo, assiste a tudo de forma patética, como se essa maré de lama e depravação não passasse de um aterrorizante pesadelo. Infelizmente, não é um pesadelo, é um fato real a ser solucionado. As leis, quando não são feitas de encomenda, sob medida para determinados casos, são distorcidas para favorecer pessoas ou grupos. Naturalmente, contrariando os mais justos interesses da sociedade.
Os cidadãos não se sentem seguros em seus direitos. Embora sejam estes alicerçados na Constituição, nem sempre são respeitados. Os Poderes Executivos chegam a impor normas inconstitucionais, desatendendo determinações judiciais, sobrepujando, assim, a própria Constituição, que juraram defender. Embora as classes dirigentes reservem para si inúmeras benesses e vantagens, além dos mais altos salários, nunca estão satisfeitos. Sempre exigem mais, mesmo que isto custe o sacrifício, a miséria, a fome e a própria vida da parcela mais humilde da sociedade. A raia miúda tem que se contentar com uns poucos salários mínimos.
Enquanto o trabalhador labuta 15 ou 20 anos para pagar um arremedo de residência, pessimamente construída através das Cohabs e financiadas a juros de agiota, a classe dirigente recebe, a título de ajuda moradia, valores que podem chegar até R$ 3.800,00. Há, nas várias esferas legislativas, parlamentares milionários, grandes industriais residindo em mansões próprias, que não dispensam e até exigem ajuda. Isto é uma afronta ao trabalhador que recebe salários irrisórios e, mesmo assim, precisa reservar uma parte para pagar a Cohab. Será que nossos dirigentes não possuem noção do que seja justiça? Será que o Estado existe para satisfazer apenas a si próprio? E o povo, onde deverá reclamar seus direitos? Na China, na Conchinchina ou na Birmânia? Depois ainda falam em conter a onda de criminalidade no País, esquecendo que o embrião da criminalidade está nas injustiças praticadas pelos próprios poderes.
Se os poderes não tiverem dignidade, a fim de reformular seus procedimentos dentro de normas justas, honestas e dignas, a sociedade precisa pôr-se de pé, levantar a cabeça, exigir seus direitos e impor radical mudança neste sistema que só beneficia o grupo dominante. O brasileiro, além de espoliado em seu direito de cidadão, está sendo aos poucos afastado do convívio social, tangido como um rebanho ao curral da indigência. Vejam o que está sucedendo com o assalariado da classe média. Isto sem falar na juventude que, desestimulada, vítima dos maus exemplos, está engrossando a fileira do tráfico e da marginalidade. Até a infância abandonada já enveredou para o caminho do vício.
Isto é revoltante, vergonhoso, indecente. Enquanto milhares de crianças dormem drogadas, ao relento, o digno parlamentar, dono de mansões, indústrias e fazendas, exige do Estado verba à título moradia. Merecia um bom apartamento em um desses conjuntos penitenciários construídos pelo Estado. A sociedade não pode continuar inerte. O Brasil precisa, o quanto antes, libertar-se desse mal, dessa síndrome da indignidade, da opressão, da injustiça social que, ambiciosa e egoisticamente, vem anulando os cidadãos, destruindo as forças laboriosas, elemento propulsor do engrandecimento da nossa Nação. (Áureo Corrêa de Souza - RG: 3.538.605)