É de se reconhecer que o motivo único que tem levado as categorias inferiores das polícias civis e militares, de vários Estados, a recorrerem a greves e tumultos, obedece a uma só definição: plena insatisfação salarial. Inexiste outra razão, pois é público e notório que os integrantes das mencionadas corporações não recebem de seus ilustres patrões - governos estaduais - o estímulo, imprescindível, de vencimentos realmente compatíveis com suas necessidades pessoais e familiares, de um lado, e, do mesmo tamanho, com a periculosidade de suas arriscadas e penosas funções, de outro. Auferem os pelotões, ao que se noticia e critica merecidamente, salários iniciais de pouco mais de dois mínimos, se tanto. E, na verdade, o que isso representaria para esses subalternos, submetidos a responsabilidades e perigos de vida muito maiores que os prefixados para os seus bem remunerados superiores hierárquicos? Nada, absolutamente quase nada, em decorrência do que até que se justificariam, de certa forma, os pesados revides que aquela gente pratica, através de longas paralisações coletivas, como as que vêm ocorrendo em Capitais e grandes centros estaduais, ainda que sejam condenáveis os atos de violência que lhe são característicos. Diante disso, então, está sendo considerada inteligente e até conseqüente a idéia manifestada pela Presidência da República de não criar a guarda nacional, que vinha bolando para atuar nos Estados nos casos de perturbação da ordem executados pelos homens da segurança.
Pergunta a opinião pública: Como partir para uma decisão daquela estirpe, inegavelmente onerosa para os governos estaduais, se o ideal de alguma melhoria salarial para os homens fardados é que apareceria como única tábua capaz de impedir ou descartar os descontentamentos genéricos? Por que criarem-se outros pelotões se o problema poderia chegar à solução desejada remunerando-se com mais justiça os já existentes? Nota-se que em se fazendo um cálculo correto poder-se-ia chegar à conclusão de que os dispêndios com a guarda nacional superariam os das melhores remuneratórias que se concedessem aos que protestam a seu talante. Então, salvo melhor juízo, tudo parece apoiar o alvitre presidencial, de maneira que sua opção inicial não deveria mesmo continuar pousando nas cabeças do chefe da Nação e seus ministros, preocupados com as conseqüências individuais e sociais das tais rebeldias. Se os Tesouros estaduais não permitem maiores vencimentos para o pessoal da segurança, que a União vá em seu auxílio, subsidiando-os com as verbas que ela teria de alocar na implantação da sua guarda. É possível que dessa forma o Planalto levasse bom lucro, o que seria interessante para um Governo que, sabidamente, gosta de levar vantagem em tudo. Será que ele ainda não pensou em que atirar federais contra estaduais é o mesmo que jogar irmãos contra irmãos? É a nossa opinião.
(*) O autor, N. Serra, é o Jornalista Responsável do JC e Delegado Regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.