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É tempo de pinga em Paraty

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 6 min

Tome uma cachaça e delicie-se com a cidade que poderá se tornar Patrimônio Histórico da Humanidade.

No próximo final de semana - 17 a 19 de agosto - a cidade histórica de Paraty será a capital da aguardente artesanal. O casario centenário servirá de fundo a milhares de apreciadores do produto mais famoso da região. É a 19ª edição do Festival da Pinga, que é a data mais esperada do calendário oficial do município. Na programação, para esquentar ainda mais as noites frias de inverno sul fluminense, shows de Mestre Ambrósio, Neguinho da Beija-Flor e Os Morenos, sem contar com a trilha sonora da banda Baião de Corda.

Cachaça é a aguardente destilada a partir da borra ou do melaço, isto é, das sobras da fabricação do açúcar; a pinga, por lei, é aquela fabricada a partir da garapa, do caldo de cana fermentado e destilado, depois da fervura e da evaporação, que pinga na bica do alambique. Em Paraty, é sabido, nunca se fabricou cachaça, mas pinga - nome que veio bem depois daquele outro, surgido provavelmente no Rio, Minas ou São Paulo ao longo do XIX. O nome cachaça se popularizou lá pelo final do XVIII.

Por mais de 200 anos o Brasil foi a terra do açúcar: - O Brasil é o açúcar - escreveu Padre Antonio Vieira. A aguardente nasceu dele, foi moeda de troca por negros escravos africanos, embriagou brasileiros e estrangeiros, tornou-se bebida nacional e originou uma literatura oral e sobretudo escrita como poucos lugares no mundo descreveram suas principais bebidas alcoólicas. As primeiras mudas de cana crioula, que reinou de 1526 a 1810, vieram da Ilha da Madeira. Presume-se que a fundação de Paraty tenha se iniciado no dia 31 de agosto de 1531, dia de São Roque, haja vista que a capela erguida no Morro do Forte (antigo Morro da Vila Velha) que era dedicada àquele santo. No mesmo local, em 1703, foi construído o Forte Defensor Perpétuo.

A primeira menção à aguardente brasileira foi feita pelo navegador francês Pyrard de Laval, 1610, falando da produção no Brasil de um vinho feito com suco de cana que é barato mas só para escravos e filhos da terra - sem mencionar o nome da dita cuja. Considerando-se inquestionável a influência da Capitania de São Vicente no processo de povoamento e desenvolvimento da região - inclusive de Paraty - presume-se que, entre a construção daqueles três primeiros engenhos e antes de o núcleo Paraty, já populoso, ter sido transferido do Morro da Vila Velha onde hoje está o Centro Histórico, 1636, a técnica da alambicagem tenha chegado por lá. A produção de pinga em Paraty beira, portanto, os 400 anos.

Chamada no início de jeribita, mel de canna ou agoa ardente, a partir do XVIII não havia na Corte quem se referisse à bebida que não fosse pelo nome da vila, famosa como entreposto comercial e pela produção dos seus vários alambiques: Paraty. Oferecer um cálice de paraty era o mesmo que se falar de aguardente de primeira linha.

Em 1778, os 70 engenhos locais produziram e exportaram 1.554 pipas de 470 litros cada; isto é, 3/4 de milhão de litros de pinga de qualidade inigualável e, por isso mesmo, mais cara do que as demais. É unânime, entre os cronistas da época, o comentário de que um litro de paraty custava 4 mil réis - ou seja, 7 mil réis mais caro de todas as outras.

Com o declínio da produção do açúcar, a mudança de canaviais e mão-de-obra servil por conta do esgotamento do solo, a construção de redes ferroviárias e rodoviárias pelo norte da Província, a concorrência e, sobretudo, à Abolição, Paraty entra no século XX com sua economia quase estagnada e pouquíssimos habitantes, sofrendo uma verdadeira ressaca de decadência, passando a sobreviver de banana, mandioca e aguardente - principalmente desta.

Mas se, com o correr dos tempos, o nome paraty foi perdendo seu significado como sinonímia de aguardente, a cidade mantém a tradição de organizar, no terceiro fim de semana de agosto, o Festival da Pinga, criado pela Associação Comercial e Industrial de Paraty em 1983 com o objetivo de resgatar e divulgar o produto paratiense por excelência, fabricado até hoje de modo artesanal: dornas de carvalho, fogo à lenha e alambiques de cobre. Há cerca de 15 e anos o Festival foi incorporado à programação oficial de eventos da cidade, sob a responsabilidade da Secretaria Municipal de Turismo e Cultura.

Milhares de turistas vêm de todas as partes do país para provar as diversas qualidades da aguardente paratiense. Pelos seus sabores adocicados, as pingas caramelada e de banana fazem o maior sucesso entre as mulheres, que frequentam cada vez mais o Festival; mas as brancas e envelhecidas são as preferidas pelos pingófilos que participam do Festival com a melhor disposição. Ao contrário da centena de engenhocas da época colonial, funcionam hoje em Paraty apenas seis, todos produzindo pinga de qualidade nacionalmente reconhecida: Coqueiro, Corisco, Maré Alta, Murycana, Vamos Nessa e Itatinga.

Exemplo de verdadeira nobreza da pinga local é a Maré Alta, pertencente a um neto da Princesa Isabel e do Conde dEu, Dom João de Orleans e Bragança, hoje associado a um comerciante caiçara, Carlos José (Cazé) Gama Miranda. De nobre estirpe é a pinga Corisco, de Anibal Gama - um mágico da alambicagem - que consta de todas as listas de melhores aguardentes brasileiras elaboradas pelos maiores peritos no país, como os membros das cariocas Academia Brasileira da Cachaça e Confraria do Corpo Furado. Uma visita ao engenho Corisco deve ser guiada pelo próprio seu Aníbal que faz questão de mostrar todo o processo de alambicagem, sem falar na prova, ao final do passeio, de uma excepcional envelhecida em tonel de carvalho, que se bebe à moda, num cuité de côco.

A Coqueiro é outra marca que se faz presente desde o século passado, sendo hoje em dia produzida e engarrafada por Eduardinho Mello, filho de Antonio Mello, um dos grandes mestres da alambicagem em Paraty. A Coqueiro também faz parte da nobreza das aguardentes brasileiras desde os oitocentos, cheirando a bagaço de cana - como deve ser. Tocado pelo irmão de Eduardinho, Luiz, e seu filho Ricardo, neto e bisneto de Antonio Mello, a Vamos Nessa é outra marca que faz parte das melhores pingas brasileiras há mais de 100 anos. O engenho Vamos Nessa mantém restaurante e loja onde, além de aguardentes, diversos outros produtos são comercializados. No restaurante come-se frango ou pato ao molho pardo acompanhados de farinha de mandioca de fabricação própria. Sem falar naquela purinha para abrir o apetite - de lei.

Não menos nobre é a Murycana, que só comercializa seus produtos dentro da própria fazenda. A Fazenda Murycana, administrada pela cearense Angelita Mury, é um complexo turístico em torno do Caminho Velho do Ouro e cercado de bromélias, helicônias e samambaias de Mata Atlântica original, englobando museu em casarão do século XVIII, cachoeiras, piscinas naturais, bar, butique, venda de produtos da fazenda e restaurante para 300 pessoas onde são imperdíveis a feijoada e o leitão à pururuca. Além disso tudo, funciona a lojinha onde se prova quantas Murycanas quiser, pura, envelhecida, caramelada ou misturada com frutas como côco e pêssego - sabores premiados num dos primeiros festivais da pinga de Paraty.

A Itatinga é outra famosa marca paratiense que também vem do XIX. Após ter sido produzida e engarrafada pelo primeiro proprietário, Gabriel Lopes Alvarenga e pelo espólio que lhe sucedeu, foi comercializada por N. Bento Lima, Manuel José de Souza Gabriel Archanjo Alvarenga. De volta à família, para a continuidde da tradição.

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