Angola era um dos países mais ricos da África. Tinha - e tem - petróleo e diamantes em quantidade invejável. Possui - sem explorar - todo o tipo de minerais diversos. Era - embora já não seja - um dos maiores produtores mundiais de café, de soja, de cereais e de madeira. Hoje, é um país devastado por 26 anos de guerra civil, desde a independência (11 de novembro de 1975) até hoje.
Atualmente, Angola conta com milhões de mortos, deslocados, aleijados. As minas antipessoais impedem ou dificultam o transporte terrestre. Uma altíssima proporção de crianças perambula, sem família que as proteja, não vão à escola e passam fome.
Angola é a viva imagem de um país destruído, parte de um continente à deriva, mais explorado e inseguro do que na desprezível época do colonialismo. Um triste exemplo do que escreveu o grande humanista francês René Dumont no livro profético que deu a volta ao mundo: A África Começa Mal. O colonialismo português, a infeliz repercussão que tiveram em Angola, os conflitos da guerra fria e, depois, as equivocadas intervenções da comunidade internacional, da troika dos chamados mediadores e da própria ONU - nessa ordem - condicionaram muito negativamente a catastrófica evolução de Angola, que a cada dia vai de mal a pior. Sem ignorar, naturalmente, a obstinação criminosa dos senhores da guerra de um e outro lado: um, detentor do petróleo produzido no enclave de Cabinda e em Angola; o outro, controlador parcial dos diamantes. As duas forças que alimentam uma guerra interminável, sem solução à vista.
Na realidade, a guerra de Angola não tem solução militar. A teoria do governo de Luanda de uma vitória pelo aniquilamento do inimigo e um possível assassinato de Jonas Savimbi (o líder da opositora Unita), além de não ser realista, não tem nenhuma justificativa política ou moral. A conseqüência de tal teoria foi catastrófica: transformou uma guerra civil em uma guerra de guerrilhas generalizada, o que agravou o êxodo da população. As populações indefesas são as grandes vítimas, como se comprovou no massacre de Cachito, a 60 quilômetros de Luanda. Condenável, como todas as matanças, cometidas por qualquer dos lados.
O que fazer? Ajudar à jovem e florescente sociedade civil angolana; ajudar as igrejas, os partidos, as associações civis e as personalidades independentes, que protestaram contra a guerra, a fim de promover um movimento internacional em favor da paz e pelo diálogo entre as facções em guerra. Só pode fazer a paz quem faz a guerra... As partes em conflito deverão ser obrigadas pela comunidade internacional a sentarem-se novamente para negociar e aceitar o desarmamento bilateral.
Inclusive, aqueles que pensam - como os norte-americanos - que o comércio é a melhor arma de paz, terão de reconhecer que, sem paz, não pode haver estabilidade política, nem eleições, nem, evidentemente, comércio duradouro e lucrativo, de efeitos benéficos também. O conflito angolano tem causas internas e externas. Em situação de paz, entretanto, todos os interesses legítimos são conciliáveis, já que a guerra apenas beneficia os especuladores sem escrúpulos. Angola é um país importante para o mundo e um país importante para a estabilidade da África austral. Merece a paz, depois de tantos anos de guerra.
O Parlamento Europeu aprovou, recentemente, uma resolução em favor da paz em Angola na qual reconheceu que o conflito existente não tem solução militar. Foi um bom começo. Agora, é necessário passar das resoluções aos fatos, dando a palavra e ouvindo os representantes da sociedade civil e das igrejas de Angola. Elas sabem melhor do que ninguém qual é o caminho que se deve seguir ou o que mais lhes convém. A Europa - como os Estados Unidos - tem responsabilidades e interesses a longo prazo em Angola que são irrenunciáveis. E devem aprender a conjugá-los com os interesses das populações e a colocá-los a serviço de um desenvolvimento sustentável de Angola e de sua gente.
(*) O autor, Mário Soares, foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996.