As trilhas foram um espetáculo à parte no IV Bauru Off Road.
Um verdadeiro espetáculo à parte, emocionante e muito, mas muito, divertido. Os adjetivos se encaixam com perfeição quando o assunto em pauta é a realização das trilhas, uma das atrações do IV Bauru Off Road, evento promovido entre os dias 4 e 5 deste mês, no Sambódromo, pelo Jeep Clube de Bauru.
O início das trilhas deu-se logo após a abertura oficial realizada com a presença de autoridades locais, como o secretário municipal de Meio Ambiente, Luiz Pires, do padre Carlos Pessoa (paróquia de São Benedito) e de integrantes do Jeep Clube local.
Após a benção efetuada pelo pároco e o encerramento da solenidade, os jipes saíram em fila indiana do Sambódromo rumo ao centro da cidade. A procissão foi o pontapé inicial para o passeio de jipe e para as trilhas.
O objetivo para os mais de 100 jipes participantes das trilhas era um só: superar os 15 quilômetros, por terra, que separam Bauru de Santelmo (distrito de Arealva).
Logo nos primeiros quilômetros, próximo ao conjunto habitacional Mary Dota, o - único - lado triste da aventura. O cenário contrastava diretamente com a mentalidade reinante entre os jipeiros de respeito ao meio ambiente: lixo, dos mais diversos tipos, abandonado às margens da estrada. Em muitos locais, o que começou com um simples saquinho, virou um verdadeiro lixão, ressaltou, indignado, o jipeiro Nelson, espécie de co-piloto do Trovão Azul 1960 conduzido pelo também jipeiro Hércules Furigo.
A bordo do Trovão Azul, por onde a reportagem do Jornal da Cidade acompanhou a realização das trilhas, o rádioamador PX não párava quieto. As conversas entre os jipeiros, a maioria em tom de brincadeira, podiam ser ouvidas. Em uma delas, um alerta sobre boiada na pista, sinal claro do companheirismo existente entre os participantes, lema principal dos jipeiros.
Dentro do jipe, o mínimo de conforto, com almofadas servindo como bancos traseiros. Quem quer passear de jipe não deve ligar para conforto, pois nele não vai encontrar isso, afirmou Nélson.
Já na parte externa, uma decoração original e bem-humorada. Vários adesivos com piadas, adquiridos ao longo de vários encontros e passeios de veículos do gênero, eram a tônica de que, para os jipeiros, participar das trilhas é a forma encontrada para fugir da estressada e corrida rotina do dia-a-dia.
Espalhadas ao longo de vários trechos do percurso, placas davam uma idéia do que poderia vir pela frente para os corajosos jipeiros. Algumas, de cor verde, tinham a inscrição LEVE, indicando que ao optar pelas mesmas o trilheiro teria um trajeto um pouco mais soft. As outras, de coloração vermelha, sinalizavam que o caminho oferecido seria garantia de fortes emoções. Nelas lia-se RADICAL e, não raras vezes, ganhavam a preferência da maioria.
Ponto alto
Lombadas, saliências e pequenas poças de água foram os primeiros obstáculos naturais encarados pelos jipeiros. Fichinha perto do que lhes esperava alguns quilômetros à frente. O grande desafio era ao mesmo tempo o ponto alto da trilha. A chegada dos mais de 100 participantes ao primeiro atoleiro era o momento mais aguardado. O Trovão Azul foi o primeiro a encará-lo. Por duas vezes, mesmo com a água quase cobrindo totalmente o seu capô, o Willys 1960 atravessou o atoleiro tranquilamente.
Após a peripécia, uma pausa para aguardar os demais desafiantes, que se encontravam a certa distância, e para tirar a água infiltrada no distribuidor do motor. Temos de secá-lo, pois às vezes o motor afoga, mesmo este sendo preparado com cabos especiais para resistir a altas voltagens e blindado. Além disso, a bobina, o módulo e o filtro de ar são internos, não ficam junto ao motor, e sim próximos ao porta-luvas para evitar o contato com a água, explicou o jipeiro Hércules. Para mim, isso é uma paixão que vem desde criança, quando meu avô possuía um jipe. Praticar trilha já virou vício, acrescentou ele.
Depois de alguns minutos, os jipes restantes começaram a se aproximar do local. Alguns já encalhavam logo no chamado pinico, lugar bastante alagado pouco antes do atoleiro principal. O pinico é a primeira merda (sic) que a gente pega pela frente, explicou, rindo, o jipeiro Nélson.
As dificuldades aumentavam à medida que os jipes iam passando pelo obstáculo aquático e, muito, enlameado. Quanto mais os jipes vão passando, pior o atoleiro vai ficando, pois o peso dos veículos acaba aprofundando os buracos ali existentes, esclareceu Nélson.
A vibração era dupla, tanto para os que conseguiam passá-lo como para aqueles que fracassavam e, invariavelmente, encalhavam. Para estes, uma verdadeira operação de resgate era organizada pelos que já o tinham superado. Cabos de aço eram presos aos engates dos jipes atolados durante as tentativas, que muitas vezes tinham de contar com o auxílio de até cinco pessoas para conseguir içá-los da lama.
Mas o atoleiro registrou ainda três momentos marcantes. Nos dois primeiros, duas camionetes, uma Ranger e outra Toyota, resolveram atravessar o atoleiro, mesmo avisados de que a tarefa seria praticamente impossível. Resultado: ambas atolaram e o prejuízo, especialmente com o estofamento dos bancos encharcados de água, praticamente incalculável. Uma das ocupantes da Ranger chegou quase a desmaiar ao ver a água entrando no veículo.
No terceiro, uma pequena gaiola, conduzida por Mateus, um garoto de apenas 12 anos, surpreendeu a todos. O veículo, de pequeno porte, atravessou com facilidade o atoleiro, deixando na saudade jipes mais potentes e muitos marmanjos na direção.
Em certo momento, ficou praticamente impossível atravessá-lo. Diante disso, a única opção foi desviar o caminho pelo matagal que cercava o atoleiro. Mesmo assim alguns não escapavam, tal o péssimo estado do local.
A ajuda aos atolados também é um dos momentos de maior tensão das trilhas. Ela se cria quando os jipes estão sendo tirados da lama pelos cabos de aço. Na hipótese de um deles não suportar a pressão a que está sendo submetido e arrebentar, o chicote do cabo acontece com extrema violência e velocidade, podendo ferir gravemente e até matar uma pessoa com seu impacto. Os gritos de Olha o cabo! alertavam para o momento e faziam com que os presentes procurassem os locais possíveis para se proteger. Mas, felizmente, nenhum incidente foi registrado durante a trilha.
Após cumprirem o desgastante, mas prazeroso, percurso das trilhas, os jipeiros se reuniram em clima de confraternização, quando aproveitaram para matar a fome e repor as energias para enfrentar mais uma aventura semelhante no dia seguinte.