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Faturamento das MPEs fica estável

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 7 min

O faturamento das micro e pequenas empresas (MPEs) do Estado de São Paulo, no primeiro semestre deste ano, foi estável em relação ao mesmo período de 2000, com um crescimento de apenas 0,1%, apesar do País passar por fortes crises este ano, como reflexo da crise que atinge a Argentina, com conseqüente alta do dólar e dos juros, e o racionamento de energia elétrica, cujo impacto já pode ser medido. A constatação é da Pesquisa de Conjuntura das Micro e Pequenas Empresas do Estado de São Paulo (Pecompe), de junho, realizada em parceria do Sebrae-SP e Fundação Seade.

Porém, o mês de junho, o primeiro do racionamento de energia elétrica, apresentou uma queda de faturamento nominal de 10,8% em relação a maio e de 7,2% em relação a junho do ano passado. Por setores, a indústria, no primeiro semestre, teve um aumento de 4% no faturamento, enquanto a área de serviços apresentou alta de 7,4%. No semestre, o comércio teve uma redução de faturamento de 4%. Mas, na comparação de junho com maio deste ano, a indústria teve queda registrada de 15,4%, enquanto o comércio e serviços apresentaram desempenho melhor, mas não menos alarmantes, ficando negativos em 9% e 8,2% respectivamente. Na comparação de junho de 2001 com o mesmo mês do ano passado, indústria (-8,7%) e comércio (-9,1%) apresentaram resultados negativos, contra uma variação positiva de 2,9% para a área de serviços.

Vale destacar que o Interior teve pior desempenho que a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). No semestre, o faturamento da Região Metropolitana teve crescimento de 1,3%, enquanto o Interior apresentou queda de 0,3%. Na comparação de junho com maio deste ano, RMSP teve queda de 10,6% no faturamento, enquanto no Interior a diminuição foi 11,2%. No mês de junho, em relação ao mesmo mês de 2000, a situação se inverte, com -6% para o Interior contra -7,4% para a Região Metropolitana.

De acordo com a equipe técnica do Sebrae-SP, são três as principais razões para a queda no faturamento. Efeitos sazonais, já que o mês costuma ter normalmente desempenho inferior a maio em conseqüência da ausência de datas comemorativas como o Dia das Mães. Junho também foi prejudicado por causa do aumento das taxas de juros (a Selic passou de 16,75% para 18,25% ao ano) e forte alta do dólar, que chegou a R$ 2,50, apesar do recuo no final do mês. Os dois fatores geram impactos na inflação e redução real de renda.

É necessário destacar, ainda, que junho foi o primeiro mês oficial do racionamento de energia e parte das empresas, principalmente na indústria, já diminuiu o ritmo da produção.

Pessoal ocupado

No acumulado do ano, o índice de pessoal ocupado de 2001 é 5,4% maior do que o registrado nos seis primeiros meses de 2000. Em junho, a pequena variação registrada, em relação a maio, de 0,6%, indica estabilidade. As maiores reduções de pessoal verificada em junho nas MPEs ocorreram nas empresas de serviços, com uma queda de 2,7%, seguidas pelas industriais, com 0,8%. Por outro lado, as empresas comerciais ocuparam 0,8% mais pessoas.

No primeiro semestre, em relação ao mesmo período do ano passado, o acumulado é positivo em todos setores, sendo 7,6% na indústria, 4% no comércio e 5,9% na área de serviços. A situação se repete na comparação de junho com o mesmo mês do ano passado, com índices de 4,9%, 1,4% e 1,5%, respectivamente.

Salários

Os gastos com salários seguem a mesma tendência. Apresentam, no acumulado do ano, variação positiva de 13,5% em relação a 2000. Na comparação com maio, houve queda de 2,4%. Na comparação de junho com o mesmo mês do ano passado, houve um aumento de 7,5%.

Porém, mais uma vez a Região Metropolitana de São Paulo mostrou um desempenho muito melhor, com aumento acumulado no semestre de 11,3% nos gastos com salários, contra 7,7% positivos acumulados no Interior.

Consultor recomenda cautela

O economista e consultor de empresas Carlos Roberto Sette afirma que as micro e pequenas empresas (MPEs) devem manter a cautela na atuação, para evitar problemas. Para Sette, analisando a Pesquisa de Conjuntura das Micro e Pequenas Empresas do Estado de São Paulo (Pecompe), de junho, é surpreendente que, apesar das receitas de vendas se manterem estáveis, o segmento das MPEs empregou mais.

O item pessoal ocupado foi 5,4% superior ao mesmo período do ano passado. Isso revela que as empresas produziram mais, ocuparam maior quantidade pessoal e tendo o mesmo faturamento no mesmo período, significa que as empresas venderam seus produtos e serviços a um preço médio inferior ao do ano passado. Isto, certamente, impactou nos resultados, forçando os índices de lucratividade para baixo.

De acordo com Sette, o índice de desemprego no primeiro semestre melhorou por conta da admissão de mais força de trabalho, mas o faturamento das empresas se mantendo constante, e provocou uma queda dos lucros.

O mês de junho deste ano, lembra Sette, foi o primeiro mês do racionamento de energia. O impacto deste fator na economia está se confirmando muito menor do que se previa inicialmente. Nas MPEs muito menos ainda, porque o grau de dependência do insumo energético é proporcionalmente bem menor do que nas médias e grandes empresas.

Mais do que o racionamento energético, o economista acredita que o aumento das taxas de juros e do câmbio poderão trazer maiores conseqüências. Com relação ao aumento das taxas de juros, ele impacta diretamente no custo financeiro das MPEs, principalmente para aquelas que têm elevadas quantias de empréstimos junto a bancos. Também para aqueles que operam com factorings (empresas que descontam cheques) ou descontam cheques com agiotas. Nessa esfera, a taxa de desconto tem girado em torno de 4,5% a 5% ao mês (a.m.), o que significa operar a uma taxa de 70% a 80% ao ano (a.a.). Não há lucro que resista a isto, afirmou.

Sette recomenda que as MPEs administrem melhor seu volume de capital de giro, gerenciando, principalmente, os estoques, que devem sempre ficar próximo do mínimo. Valores altos em estoques, significam dinheiro parado. E isso, hoje em dia, custa muito para as empresas. Administrando melhor os estoques, as empresas vão precisar de menor volume de capital de giro e, portanto, de menos empréstimos e menores juros, destacou.

A segunda recomendação do economista é para que busque redução do consumo de energia, além de diminuir outros focos de desperdícios que possam existir dentro da empresa, principalmente em relação aos gastos fixos como, por exemplo, telefone, materiais de escritório, materiais de limpeza, água, etc. É fundamental reduzir os custos fixos - porque o preço, hoje em dia, é determinado pelo mercado e para sobrar lucro é necessário que a empresa administre seus gastos fixos.

A terceira recomendação feita por Sette é que as MPEs evitem ao máximos consumir matérias-primas cujos preços estejam atrelados ao dólar, porque a moeda norte-americana terá uma tendência de alta no segundo semestre deste ano. As empresas já terão de pagar o preço das embalagem que forem derivadas do petróleo, como por exemplo as embalagens plásticas - o que aumentará seus custos operacionais. Para o economista, essa categoria de empresas deve, também, continuar monitorando custos de transportes, em função do aumento dos combustíveis e dos produtos derivados do petróleo, como pneus, óleo lubrificante, etc. Devem elaborar um planejamento de logística para racionalizarem entregas e distribuição de produtos.

Sette acredita que o segundo semestre será mais desaquecido que o primeiro. Por isso, as MPEs devem trabalhar com a hipótese de uma provável queda de vendas e dos lucros. Devem administrar a variável mão-de-obra, fazendo acordo de bolsa de horas, dando férias e evitando ao máximo as demissões para não desmontarem a equipe de trabalho, porque a situação poderá melhorar. No início do ano que vem, prevê o economista, quem tiver melhor nível de pessoal poderá sair na frente da concorrência.

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