Na rota do progresso, cidade estaria precisando de uma dose extra de ousadia e criatividade para recuperar a "auto-estima" urbana. Inerte como está, porém, corre o risco de postergar mais ainda seu crescimento
Bauru precisa ter mais criatividade e ousadia. Este é o recado do geógrafo e economista Said Yussuf para os técnicos da administração municipal responsáveis pelas ações urbanísticas. Na opinião dele, atitudes arrojadas de planejamento podem fazer a diferença neste atual momento, marcado por um período de transição entre o modelo paternalista das estatais e as estratégias capitalistas das empresas privadas. Inerte como está hoje, o município corre o risco de postergar ainda mais seu crescimento.
O sinal mais evidente de que está mais do que na hora de sacudir a poeira seria a presença de Bauru e região na rota desenvolvimentista traçada pela União e pelo Estado. Parece que ninguém se deu conta ainda disso, mas é fato que a tendência de investimentos está voltada para nós, uma vez que grandes regiões como Campinas, Sorocaba e Ribeirão Preto já estão saturadas. Somos a porta para o Mercosul e temos que explorar essa vantagem ao máximo. Perdemos indústrias e órgãos públicos? Sim, mas não dá para ficar lamentando, porque o potencial de investimentos em Bauru é real. A cidade precisa dar a volta por cima e parar de passar uma imagem pessimista para o resto do País. Mas também não é distribuindo books que a coisa vai melhorar. É preciso negociar, fazer contatos, mostrar o que temos de bom, salienta Yussuf.
O economista não vincula essas necessidades à retomada de obras paradas ou ao início de outras novas, mas à conservação daquilo que já existe. Na opinião dele, que tem uma visão crítica sobre urbanismo, a prioridade do momento é investir na recuperação da imagem da cidade, visivelmente abalada. Nos bastidores, comentou-se nesta última semana, por exemplo, que as obras de prolongamento da avenida Nuno de Assis serão reiniciadas em breve, bem com a conclusão da Jânio Quadros até a Nações Unidas.
Quem pode dizer que ambas as obras são dispensáveis? Ninguém. O que Yussuf prega é que, mais importante do que elas, é investir no recapeamento, sinalização, limpeza, arborização, iluminação, enfim, na cara da cidade. São esses pequenos detalhes, garante ele, que tornam um município atraente aos olhos de novos empreendedores. A existência de zonas degradadas e abandonadas, ao contrário, só fazem é espantar os potenciais investimentos. A Rodrigues Alves, por exemplo, está abandonada em toda sua extensão, assim como toda a região central, com prédios degradados e aparência pouco convidativa. Quem é que vai querer empatar dinheiro num lugar desses? O poder público tem partir para novas obras, mas não pode desprezar as referências antigas. E não vai ser a simples remodelação de fachadas no comércio central (projeto que está sendo implementado pela Prefeitura) que vai mudar o cenário, palpita.
A falta de dinheiro, na visão do economista, não pode continuar sendo citada para justificar a estagnação econômica e urbanística de Bauru. É possível fazer coisas boas sem muito dinheiro, mas isso depende de criatividade e ousadia, qualidades que faltam nos técnicos que administram a cidade, dispara. Bauru deveria se espelhar mais - e por que não dizer plagiar - em exemplos alternativos que fazem sucesso em outras cidades paulistas e também fora do Estado. Localidades que seguiram a política privatizante e enxugaram suas estruturas para dar condições ao desenvolvimento - aqui, Yussuf questiona a necessidade de o município continuar mantendo estruturas como Emdurb e Cohab. Infelizmente, Bauru vive uma cultura de atraso, ultrapassada, lamenta.
Yussuf insiste em evidenciar a importância de Bauru no planejamento dos governos Federal e Estadual. Como argumento, ele cita a retomada das obras do Hospital Regional e construção do novo aeroporto. Ele não despreza a interferência de políticos da cidade nessas conquistas (ex-deputado Roberto Purini, na vinda do aeroporto, e de Pedro Tobias, no episódio do hospital), mas ressalta que gestões políticas não seriam, por si só, suficientes para deslanchar obras tão vultosas. As articulações ajudam sim, sejamos justos, mas nenhum governo investiria tanto se não tivesse seus interesses também. E o que dizer das rodovias?, questionou, lembrando as obras de duplicação.
É fato que as rodovias que cortam a cidade estão sendo todas duplicadas, seguindo um planeamento que deve ser cumprido até 2003. Isso pronto, o Estado terá conseguido interligar as principais rodovias paulistas: Bauru-Jaú duplicada ligará a Washington Luís com a Marechal Rondon; a duplicação parcial da Bauru-Ipaussu vai interligar a Castelo Branco com a Raposo Tavares e, quando integral, fará o elo entre Washington Luís, Castelo, Rondon e Raposo.
Parques são pouco aproveitados
Não são apenas os imóveis ociosos que são subaproveitados em Bauru, mas também áreas ativas, notadamente as de lazer. Já é notório que o município oferece pouco espaço verde para seus habitantes, mas os pontos dotados de infra-estrutura são explorados timidamente.
O Parque Vitória Régia, principal cartão de visita da cidade, por exemplo, recebe bem menos visitantes do que merece. Vez ou outra, particularmente em datas comemorativas, é palco de eventos grandiosos, mas sua freqüência é pouco constante. No caso, o problema não é a falta de infra-estrutura, mas a ausência de projetos culturais para habituar a população a freqüentar o local.
Caso parecido é o do Horto Florestal, que tem um área lindíssima, mas pouco conhecida. A estrutura do lugar não comporta um número muito grande de visitantes, denotando a falta de investimentos. O pouco que existe veio de doações particulares, uma vez que o Estado, proprietário da área, alega não ter recursos para incrementar o recreio no horto. Já se cogitou a possibilidade de municipalização do parque, mas hoje essa proposta está fora de cogitação. O horto seria o local ideal para piqueniques, caminhadas e eventos de fins-de-semana, atividades restritas nos dias de hoje em razão do número reduzido de sanitários, trilhas, guias e seguranças.
Prédios ociosos e 3 mil desempregados
Mais grave que deixar prédios ociosos ou subaproveitados, foi o impacto que a privatização teve no mercado de trabalho bauruense, um dos mais atingidos com o fim das estatais. Um levantamento feito das entidades sindicais locais revela que, somente no município, 3.036 empregos diretos foram eliminados nos últimos quatro anos.
O reflexo deste índice para a economia local é muito significativo, sobretudo em função da característica da economia local, que tem na prestação de serviços um de seus principais alicerces. Para uma economia estruturada principalmente no comércio e na prestação de serviços, a privatização e fechamento de empresas gerou conseqüências amplamente negativas.
Os efeitos dessa realidade estão por todos os lados, num encadeamento de processos negativos para a vida da cidade. Do aumento da atividade informal ao empobrecimento da população, a perda de postos de trabalho atingiu todos os setores. Houve queda no faturamento e na circulação de capital, seguida de uma redução no recolhimento de impostos e, sobretudo, a perda ainda maior da qualidade de vida nas regiões mais pobres da cidade. A grande maioria daqueles que perderam o emprego estatal continua na inatividade, quando não na informalidade e até nas fichas policiais.