Professor e crítico de artes Hélcio Pupo Ribeiro escreve sobre a trajetória artística do amigo e artista plástico na cidade.
Mortari, Walter, pintor ativo em Bauru, São Paulo. Participou do XIX e XX Salão de belas Artes de Piracicaba, São Paulo (1971 e 1972)
Com este singelo verbete inserido no Dicionário Brasileiro de Artistas Plásticos (4 vols.), editado em 1977 pelo Instituto Nacional do Livro (MEC), o bauruense Mortari tem seu nome mencionado numa publicação oficial de comprovada importância.
Walther Mortari, esta a grafia correta, é meu amigo há seguramente meio século e eu poderia, então, aumentar em muito o seu nome naquele glossário léxico. Foi por esta época, também, que comecei a ter contato com a incipiente pintura bauruense quase desde o seu surgimento.
Sob a orientação pioneira de João Ponce Paz, reunia-se o grupo de jovens pintores amadores, idealistas e sonhadores, organizado com outros mais, igualmente simpatizantes da bela arte de criar colorindo e dando vida para alegria da alma e privilégio do saber.
Esta a origem da única entidade verdadeiramente artístico-cultural que Bauru já teve.
Deram-lhe o nome de União Bauruense de Artístas Plásticos (Ubap). Fundada em 1 de maio de 1947, a Ubap congregava brasileiros e estrangeiros sem distinção de tendências estéticas, movimentos artísticos ou escolas de artes plásticas. Tal quesito tinha o objetivo de salvaguardar os irmãos Ponce, oriundos da Espanha, que adotaram o Brasil como segunda pátria.
Na ocasião, seus membros eram João Ponce Paz, Salvador e Antonio, também Ponza Paz. Completavam o bando desbravador, Gabriel Ruiz Pelegrina, José Gomes Fernandes, Caubi Delmont, José Consani e Walther Mortari que, eleito secretário, copiou e datilografou a ata de fundação para o devido registro em Cartório. No 1.º parágrafo, uma advertência: sem distinção de credos políticos ou religiosos, pois o escopo fundamental da Ubap era divulgar a educação artística do povo, despertando-lhe o interesse geral pelas Belas Artes, aliás, um programa de grande alcance educativo.
Patrocinar a arte é acreditar na vida, diz a sabedoria humana. Contudo, se tal intuito não vingou, foi deploravelmente pela falta de apoio oficial e político, como infelizmente aconteceu e acontece nesta pobre Cidade sem Limites.
Assim, com o passar dos anos e a continuidade negativa dos nossos homens públicos, mais o falecimento das figuras principais, a entidade definhou e extinguiu-se. Mortari é, com certeza, o último daqueles pioneiros. É justo ressaltar, no entanto, a figura singular de Perez Filho, autodidata modesto, que iniciou sua vida artística no tempo do cinema mudo, pintando tabuletas que anunciavam filmes do cinema local, espalhadas pelas esquinas da Cidade.
Eis que, na década de 50, chega à nossa comunidade, vinda de Campinas, mas natural de Capivary, (berço do poeta Rodrigues de Abreu, que aqui produziu suas melhores obras e está sepultado), a figura ímpar, marcante, da professora Angelina Valdemarin Messemberg, acompanhada do esposo Mário Messemberg, indicado para o cargo de gerente regional da Cia. Telefônica Brasileira, antecessora da posterior Telesp.
Provida de um currículo substancioso, respeitável, vencedora de inúmeros concursos e exposições de arte, Angelina encontrou em nossa cidade uma seara fértil, pela de artistas a serem lapidados.
Educadora nata, inteligente, hábil na arte de Almeida Júnior, o primeiro regionalista da pintura brasileira, Angelina começou seu magistério oferecendo curso de arte pictórica - história da arte, desenho, modelagem e pintura à óleo e aquarela. Na verdade, a participação da professora Angelina Messemberg marcou a história das artes em Bauru, estabelecendo dois períodos distintos: antes e depois de Angelina.
Mortari viu nesse fato uma oportunidade feliz para aprimorar seus anseios artísticos. Procurou a artista. Chegou, falou, expôs seus intentos. A professora, depois de ouvi-lo, disse: muito bem, comecemos! Faça um desenho, pinte aquela flor, um copo-de-leite. Mãos à obra, Walther cumpriu a tarefa, a seu ver, com êxito. Ficou tão bonita a flor que o desenho sumiu, isto é, alguém passou-lhe a mão. Até hoje, diz Mortari, não sei quem foi o autor da proeza!
Desde então o pintor bauruense afirmou seu estilo, ganhou confiança, ampliou sua técnica, cresceu seu entusiasmo. Captou aspectos insólitos de nossa cidade. Palmilhou arrabaldes, reproduziu favelas e residências senhoriais. Coloriu Bauru, reproduzindo ipês amarelos, quaresmeiras lilases e paineiras frondosas e floridas.
Pesquisando a história, reviveu fatos do passado: Fundação da Cidade, a Morte de Azarias Leite, Chegada a Bauru Vindos de Espírito Santo de Fortaleza. Memorável a série Carros de Bois.
Sonhou com a Bauru antiga, revivendo com as cores, os aspectos típicos, fazendo-nos sonhar, embevecidos, envolvidos nas brumas do passado.
Expôs em Rio Preto, Jaú, Piracicaba, São Paulo, recebendo, sempre, elogios. Quando em visita a Bauru, certa ocasião, o cônsul americano em São Paulo teve contato com a obra de Mortari. Encantado com a beleza, às vezes exótica, de suas obras, mister Arthur Paul Strelick adquiriu várias delas e encomendou-lhe outras, que foram enviadas, posteriormente, para a Alemanha, Suriname, Estados Unidos e Inglaterra.
Reconhecidos seus valores estético/artísticos, Mortari exultou, mas não se engrandeceu. A modéstia, nele, impede o crescimento da vaidade, sentimento que muitos não sabem, sequer, sopitar.
Walther Mortari é assim, sensível, de alma grande, acolhedora, cativante. Um exemplo de caráter e retidão. Um grande amigo. Assim é o artista, o esteta, verdadeiro padrão de homem.
Tinha razão o holandês Van Gogh: Arte é o homem somado à natureza.
(*) Especial para o JC Cultura