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Reflexões sobre o aniversário da fotografia

(*) Olício Pelosi
| Tempo de leitura: 5 min

Comemora-se noe dia 18 de agosto o aniversário da invenção ou descoberta da fotografia. Historiadores reconheceram que ela surgiu em países diferentes por obra de cientistas com objetivos diferentes, entre eles, Hercules Florence, na vila de São Carlos, no Brasil, hoje Campinas, em torno de 1830.

Com aproximadamente 171 anos de existência, a Fotografia desencadeou uma nova forma de representação, inclui-se automaticamente no universo das demais representações tais como o teatro, a música, o desenho, a pintura, a escultura e a poderosa literatura, digo poderosa porque a fotografia conseguiu uma rival: a palavra.

Se no princípio era o Verbo, a partir daquela data a imagem fotográfica popularizada ao gosto das diferentes classes sociais cria um novo exercício para o ser humano carente de representação do seu entorno e de si mesmo. O homem passa a exercitar um novo olhar, o olhar que a câmera fotográfica lhe proporciona.

A fotografia assume a responsabilidade de transcrever o real para o imaginário, revela ao mundo o que ele próprio desconhece.

Do Renascimento Italiano, em 1500, até a descoberta da fotografia, os artistas interpretam o homem e a natureza sob filtros culturais e sociais característicos de espaços e épocas diferentes, constituindo, assim, uma representação baseada na visão muito pessoal do artista. Esta forma de expressão baseada na interpretação também foi admitida pelos primeiros fotógrafos comerciais, que de alguma forma tentavam fotografar como se estivessem pintando, ou tratavam suas fotografias como pinturas, obedecendo, assim, um padrão de representação que vinha das artes plásticas.

O Renascimento serve como referência para se pensar a fotografia porque foi nesta época que novos conceitos de representações gráficas foram admitidos por pensadores, matemáticos, engenheiros e artistas. Foi no Renascimento que se introduziu na cultura ocidental os parâmetros da perspectiva.

A fotografia encanta a sociedade e os artistas na sua descoberta, porque de alguma forma ela não altera as regras de representação da natureza já utilizadas pelos artistas da época, isto é: a fotografia traz na sua forma de representação todos os cânones que as leis da perspectiva sugerem. Trezentos e trinta anos se passaram do início do Renascimento até a chegada da fotografia e ela confirma a existência de uma linha do horizonte com os pontos de fuga, não importando o enquadramento, o ângulo ou o tema a ser fotografado.

Este deslumbramento tem uma razão, o que proporcionou aos pensadores e matemáticos no Renascimento a criação de um sistema perspéctico tão absoluto e real foi a existência de um aparato simples que vinha sendo usado a séculos por físicos e astrônomos chamado câmara escura, que na Itália, adaptada com espelhos, serviu para desenhar e se chamava câmara lúcida. Foi a partir da câmara escura e das leis da física que a rege e também dos elementos geométricos que ela demonstrava que foi possível propor ao mundo ocidental uma forma única de representação gráfica da natureza: a representação através da perspectiva.

A descoberta da fotografia foi possível na medida que novos elementos químicos passaram a ser utilizados. Elementos sensíveis à luz e seus fixadores sobre suportes como metal e vidro determinaram o aparecimento da fotografia, porém, tudo isto somente foi possível porque os mesmos princípios determinados pela antiga câmara lúcida dos italianos permaneciam intocados nas câmeras fotográficas, basta abrir qualquer câmera fotográfica ainda hoje e você pode notar entre a cortina e a lente a existência de um espaço escuro onde os raios de luz vindos de fora e invertidos pela lente produzem sobre o filme uma imagem latente.

É com a fotografia que a sociedade ocidental confirma e existência de uma fórmula de representar a natureza. Esta fórmula é a perspectiva.

É também a fotografia que impulsiona o aparecimento de outros meios de representação a exemplos do cinema e do vídeo. Ambos dependem de uma câmara escura para a constituição da imagem, portanto não poderiam negar os princípios físicos que determinam um fotograma ou diversas imagens sequenciadas.

A naturalidade com que aceitamos ainda hoje estas regras ou fórmulas de ver o mundo e representá-lo somente podem ser medidos se pensarmos como era esta representação antes do renascimento. Teríamos então que recorrer à história das artes e tentarmos aprender com Giotto e os artistas que o antecederam, pois com certeza eles não usavam a perspectiva em suas pinturas mesmo sendo sobre temas religiosos.

A imaginação é uma característica do ser humano, é ela a grande e primeira usina de imagens. Ao sonharmos, damos vida a imagens. Racionalizar um sonho é sempre um ato de traduzi-lo verbalmente e isto o enfraquece automaticamente, desqualificando-o.

Mesmo a fotografia como fonte geradora de imagens, levando em conta suas características físicas, trabalha, senão contra, pelo menos diferente, das imagens que o cérebro constitue e cria, muito mais próximas das imagens de Giotto.

Hoje qualquer pessoa fotografa. Automatizados os equipamentos de captação e de processamento das imagens, todas as imagens se parecem. As fotos que fazemos de nossos entes mais queridos, constituem um relato parcial do nosso universo afetivo. Não importa quem da família empunha a câmara e dispara. As regulagens da câmera automática se sobrepõe ao nosso desejo e arbítrio, perdemos a identidade ao fotografar. Enchemos albuns, caixas e gavetas com imagens sem autoria, numa representação parcial de nossos dias, sorrisos, poses, datas, locais e festejos. São imagens de nossas relações que devem perdurar. Digo parcial porque nelas não encontramos as pequenas e grandes tragédias que coexistem nessas relações. Porque será?

No meio profissional, com raras exceções vemos as imagens fotográficas se repetirem, padronizadas no relato da beleza na publicidade, e repetitivas na representação dos conflitos e relações sociais no jornalismo. Seria porque não aprendemos como construir e criar imagens fora do nosso cérebro, seria ainda porque a imagem não tem sintaxe, gramática ou vocabulário como na escrita, em que o aprendizado é organizado e cheio de regras? Estaríamos nós, esgotando nossas possibilidades de adquirirmos um novo olhar, ou ainda, estaria nosso cérebro a solicitar uma nova forma de representação que não fosse escrava dos cânones da perspectiva?

Enquanto isto não acontece continuamos a fotografar e a consumir fotografias como um produto industrializado qualquer, pagamos por centímetros quadrado as imagens ampliadas sobre um suporte que deixou de ser papel. Vez ou outra nos deslumbramos com o trabalho de algum fotógrafo que parece um ser privilegiado, mas que na verdade tem apenas um grande diferencial: entre o ver que é uma atividade física e o olhar que é cultural, ele com certeza se utiliza do segundo.

(*) Olicio Pelosi é fotógrafo e professor de fotografia do Departamento de Desenho Industrial da Faac/Unesp-Bauru.

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