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Erotismo: expressão do bem querer

(*)Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Semana passada, eu conversava com um amigo na cantina da Universidade, quando um estudante da mesa ao lado interrompeu nossa conversa e perguntou-me qual era minha nacionalidade. Querendo testá-lo, perguntei-lhe: Qual é o país mais erótico do mundo?

Para minha surpresa ele respondeu imediatamente: Você vem do Brasil? Quando o tema é Brasil três expressões surgem imediatamente na cabeça dos europeus: futebol, Amazônia e Carnaval. Graças à natureza exuberante e à sensualidade do Carnaval construiu-se no exterior um mito em torno de nossa terra tupiniquim: um paraíso tropical caracterizado por um forte erotismo.

Assim, os europeus imaginam os brasileiros como pessoas charmosas, possuidoras de uma alegria contagiante e sensual. Sem dúvida alguma, à imagem erótica do país estão associados não somente aspectos positivos; a vulgaridade, a prostituição e o turismo do sexo são componentes que pertencem à constelação do paraíso brasileiro.

O ser humano não é somente espírito, mas principalmente corpo. Através dos sentidos estamos em constante contato com as outras pessoas e com o mundo e sentimos a dor e o prazer de viver.

Assim, o ser humano possui a inclinação natural de relacionar-se consigo próprio e com o outro através de uma estética corporal. No nível de nossa corporalidade desenvolvem-se diversas formas de relacionamento, desde a simples simpatia, o aperto de mão ou o abraço, até o relacionamento sexual propriamente dito.

Graças a Deus, não somos fantasmas e muito menos assexuados. Queiramos ou não, todos nós possuímos uma força de atração e comunicação que se desenvolve através do corpo e que nos faz entrar em sintonia com nossos semelhantes. Tendo o corpo como o único meio de estar no mundo, o ser humano é por natureza um homo eroticus.

Para Platão, o erotismo corresponde à necessidade elementar do ser humano de ser aceito e reconhecido por seu grupo e com este viver em harmonia. Através da graça do corpo, o ser humano busca de forma inconsciente a realização do bem.

Aristóteles reconhece no ser humano o drama da separação: por ser um indivíduo, ele é confrontado com a realidade da solidão e o viver, na verdade, significa a busca da unidade, do completar-se. O erótico define-se, justamente, como a força cósmica que ajuda o ser humano a superar a realidade da separação, conduzindo-o à toda forma de comunicação.

Assim, Eros não está reduzido simplesmente ao Sexus, mas constitui-se nas diversas modalidades de prazer do corpo, em todo estímulo que leva o ser humano à unidade com o outro e à sua realização pessoal. O calor do corpo da mãe sentida pelo bebê, o abraço de um amigo, o beijo de quem nos ama, um sorriso ou um gesto de carinho são expressões eróticas que nos impulsionam a sermos mais sensíveis e humanos.

A tentativa de tornarmo-nos seres góticos, ou seja, de orientarmo-nos para a solidão do espírito e a repressão da dimensão erótica, além de ser uma ilusão, significa desumanização e desequilíbrio da harmonia criada por Deus.

Infelizmente, no transcorrer da história, o erótico (ars amandi) foi muito mau compreendido. O cristianismo contribuiu muito para uma concepção negativa do erótico, colocando-o em oposição ao Agape, ou seja, ao amor fraternal.

Agape seria a única forma sublime de amor, enquanto que o erótico uma dimensão animal a ser com o tempo superada.

O problema é que o ser humano é uma unidade e sua felicidade depende da integração entre Eros e Agape. O amor fraternal não existe sem o amor erótico, e este sem o primeiro torna-se violência.

Não existe expressão de fraternidade sem um contato corporal e sensual, e o verdadeiro erotismo é expressão do querer bem. Esta integração encontramos na própria revelação de Deus para os cristãos, ou seja, na Bíblia.

Basta lermos os livros Cântico dos Cânticos, Oséias ou os Evangelhos. Nestes, o próprio Deus faz-se humano assumindo, assim, toda a corporalidade e erotismo de nossa natureza. Os Textos Sagrados estão repletos de relatos e expressões que integram sensualidade e fraternidade: Maria aproxima-se de Jesus e unge seus pés com perfume, em seguida enxuga-os com seus próprios cabelos (Joh 12, 3); com o santo beijo do amor Pedro e Paulo saúdam os membros das comunidades cristãs (1 Ped. 5, 14; 1 Cor. 16,19s.; 2 Cor. 13, 12s.).

Se amor é um não querer mais que bem querer (Renato Russo), a dimensão erótica é a expressão visível e concreta deste amor. Assim, o oposto do erótico é toda forma de realidade de desprazer: prostituição, miséria, intolerância, violência, vulgaridade ou exploração. A nossa felicidade depende da perda de superficialidade na relação entre o fraterno e o erótico. A água corre tranqüila quando o rio é fundo. (William Shakespeare).

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

(*)Especial para o JC Cultura

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