Com 30 anos de idade, Marcelo Faria tem 17 anos de carreira. Parece muito, mas para alguém que vem de uma família na qual a maioria dos homens está envolvida com o cinema ou televisão há décadas, é quase nada. Um mérito, porém, ele possui: já conseguiu provar que não é apenas o filho do Reginaldo e que tem talento para encarar qualquer projeto. Nos últimos dez anos, Marcelo tem se dedicado bastante ao teatro como produtor e ator, revezando seu tempo com participações em novelas da Rede Globo, da qual é contratado. Na última semana, o ator esteve em Bauru, onde veio apresentar as peças Romeo e Julieta e Dartagnan e os Três Mosqueteiros, da sua companhia. Em visita ao JC, ele falou sobre sua carreira, seus projetos e seu pai.
Jornal da Cidade - Como você se tornou ator?Marcelo Faria - Comecei brincando, porque tenho toda a família ligada com a televisão ou ao cinema, meu pai, meu tio, primos, meu irmão... Comecei em 1984, quando tinha 13 anos. Meu pai estava fazendo uma minissérie chamada A Máfia no Brasil. Meu tio, Roberto, e meu primo, Maurício, dirigiam. Havia um personagem que era filho do personagem do meu pai na história. Fiz o teste, passei e fiz o papel. Daí para frente passei a vislumbrar a possibilidade de ser ator, de fazer aquilo pelo resto da vida.
JC - Você estudou atuação?Marcelo - Depois da minissérie, fiz o curso da CAL, Casa de Artes de Laranjeiras, no Rio, que é profissionalizante, quase uma faculdade (na verdade, é até melhor que muitas faculdades). Estudei dois anos lá e nesse meio fiz teatro com o Carlos Wilson Damião. Com ele fiz Os doze trabalhos de Hércules, baseado na obra do Monteiro Lobato. Depois fiz uma peça chamada Martini Seco, do Fernando Sabino, com Roberto Talma, Jorge Fernando, Emiliano Queiróz, Leina Crespi, Roberto Bottino, Paulo César Grande, enfim, só cobras. Foi minha estréia real no teatro, no Villa Lobos, numa peça adulta. Eram só feras e eu lá no meio. Curiosamente, a única pessoa elogiada pela crítica fui eu. Estava com 17 anos, meu personagem falava pouco, mas tinha um trabalho de corpo maravilhoso.
JC - Você saiu dai para as novelas? Marcelo - Dali eu fiz o teste para Top Model, passei e comecei a fazer novelas. Na seqüência, fiz Lua Cheia de Amor e voltei a viajar um tempo fazendo teatro. Em 89, conheci o Pedro Vasconcelos e nós começamos a produzir espetáculos teatrais e não paramos mais. Mas continuei fazendo novelas. Fiz De Corpo e Alma, Quatro Por Quatro, que foi a novela que me consagrou na empresa, onde eu fazia o Ralado, foi maravilhoso. Ainda fiz O Fim do Mundo, O Amor está no Ar, Corpo Dourado, Vila Madalena e Uga Uga. Além disso fiz Noivas de Copacabana. Agora teatro, se eu for falar tudo o que eu já fiz a gente vai ficar aqui muito tempo.
JC - Você tem uma preferência por teatro ou televisão?Marcelo - Eu sou produtor de teatro, é diferente. Eu já tenho essa história de produzir teatro desde 90, então, todo ano eu produzo com o Pedro desde essa época. Estamos diminuindo cada vez mais o espaço de tempo de uma produção para outra. Antigamente, a gente produzia de quatro em quatro meses. Agora, montamos de dois em dois. A nossa idéia é montar uma peça seguida da outra e não parar mais. Mas a televisão é minha vida. Eu sou contratado da Globo, adoro fazer novelas, adoro trabalhar lá dentro. Aquilo já virou família para mim, é como uma companhia.
JC - E o cinema?Marcelo - O meu sonho é fazer cinema. Até hoje não fiz nenhum filme, apesar da minha família inteira ser de cinema. Já participei quando era criança, mas nunca profissionalmente.
JC - E o projeto sobre o Leonardo Pareja?Marcelo - Esse é um projeto para qual nós não conseguimos incentivo porque fala da vida de um bandido, mas que denuncia muitas coisas que acontecem no sistema carcerário, policial, político e de seguradoras. Ou seja, mexe com muita gente, então ninguém quis apoiar. Então, estamos com outro projeto que também é relativo a Goiás, mas é uma obra de época, se passa no tempo da Lei Áurea. Eu também vou produzir o filme, além de atuar. Vamos filmar em Goiás Velho, que é uma cidade antiga linda, tombada pelo patrimônio histórico mundial. O filme deve ser rodado no primeiro semestre do ano que vem.
JC - Você sofreu algum tipo de preconceito no começo da sua carreira? Alguém já disse: Ele só está aí porque é filho do Reginaldo?Marcelo - Preconceito não, mas esse tipo de comentário era comum. E a gente vai provando com trabalho ao longo do tempo. Existe, sim, uma cobrança para eu ser tão bom quanto o meu pai, mas eu nunca vou ser, porque ele é mais velho que eu e sempre vai estar na frente. Não adianta. A não ser que seja um dia quando ele já estiver em outra dimensão. Até isso acontecer, não vou chegar próximo dele nunca porque a experiência conta muito. Ele é meu mestre, não dá para falar outra coisa.
JC - Vocês já trabalharam muito juntos? Marcelo - Não foram muitas vezes. Fizemos uma produção juntos, com o Régis, meu irmão, como diretor, que foi o Em Nome do Filho, que foi um texto que ele escreveu para mim, que tinha muitas passagens nossas. Quando ele esteve aqui em Bauru com essa peça, já não era eu quem estava no papel porque tinha me envolvido com a produção de Os Três Mosqueteiros, que era um projeto gigantesco. No teatro só fiz isso com ele. Em televisão, ele fez uma participação em Lua Cheia de Amor, em 1991, na qual eu trabalhava. Eu era meio que um bandidinho e ele fazia o personagem que me desmascarava na trama. Ele descobria através do seu conhecimento de psicologia que eu estava mentindo só para namorar uma menina rica.
JC- Seu pai já lhe deu dicas?Marcelo Nossa! Sempre! Eu também pergunto sempre, mas ele, quando me vê no ar, às vezes me dá alguns toques sobre dicção, um olhar, um tempo, essas coisas que só cobra sabe e a gente que é minhoquinha tem que aprender. Até por uma questão de amor de pai para filho, ele nunca vai deixar de falar para mim. Nunca vou deixar de perguntar também, porque ele sempre é a pessoa na qual eu me apoiei, é um ator consagrado, um cara que eu admiro e sempre que eu puder vou estar do lado dele para pedir conselhos.
JC Quais são seus projetos futuros?Marcelo Além do filme que vou fazer, sei que vou fazer uma novela no ano que vem, mas ainda não sei qual é e tem também alguns projetos em teatro que alguns a gente (eu e o Pedro Vasconcelos) vai produzir e atuar e outros que a gente vai só produzir. Mas ainda é segredo.