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Entulho: o que fazer com ele?

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

Muita gente pode não ter se dado conta ainda, mas o entulho é um problema urbano tão ou mais grave que o lixo. Mais sério quando consideramos o fato de que para este último já existem alternativas e modelos bem evoluídos destinados à solução, como a coleta seletiva, aterros sanitários e reciclagem, sem falar que o lixo, ao contrário do entulho, permite a compactação. Poucos, porém, sabem o que fazer com o entulho ou dominam técnicas para seu reaproveitamento. Indiferente a esse despreparo, ele cresce sem cerimônias, estendendo impactos negativos à qualidade de vida e à saúde pública.

No Brasil, a problemática do entulho é bem séria e Bauru não figura como exceção. Ao contrário, é mais prejudicada que cidades menores em virtude do seu potencial de crescimento; quanto mais gente, mais necessidade de moradias e infra-estrutura e, conseqüentemente, mais volume de entulho.

De maneira geral, a massa de resíduos de construções gerada nas cidades é igual ou maior que a massa do lixo domiciliar, variando entre 40% a 70% do volume total dos resíduos sólidos urbanos nos municípios de médio e grande porte. Dependendo da localidade, a média per capita de entulho gerado anualmente pode ir dos 230 aos 760 quilos. Tomando-se por exemplo o valor menor, a produção anual de entulho em Bauru esbarraria na casa de 73 mil toneladas.

E para onde isso tudo vai? De forma pulverizada, para os terrenos baldios e, a grosso modo, para os chamados bolsões. Em Bauru são 53 bolsões de entulho clandestinos, mas utilizados pela própria municipalidade. Não há controle e nem fiscalização Os mais problemáticos estão da Pousada da Esperança, baixada do Jardim América e Otávio Rasi. Na época do governo Tidei de Lima, a Prefeitura chegou a lançar mão de um expediente para regularizar os bolsões. O método era falho, mas existia. Hoje, quase uma década depois, os despejos são feitos indiscriminadamente e estão - oficialmente - proibidos, pois a cidade não dispõe de uma regulamentação específica para controlar o problema.

A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) vem tentando, sejamos justos, encontrar uma solução, ainda que paliativa, para minimizar os impactos dos bolsões. O ideal seria adotar o sistema de reaproveitamento, possível com a instalação de uma usina de moagem, mas essa parece ser uma alternativa ainda distante. Por ora, o que se estuda é a possibilidade de jogar o entulho nas erosões que engolem vários pontos de Bauru. Aos olhos dos leigos, a solução nos parece milagrosa, mas pode ser desastrosa a longo prazo, especialmente se a administração pública eternizar o método como a única saída.

Em Bauru e no Brasil como um todo, as pesquisas em torno dos resíduos de construção são ainda bem incipientes, não havendo, por exemplo, nada referente ao assunto na Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Assim como em relação a vários outros setores, estamos começando a trilhar agora um caminho pelo qual os países desenvolvidos, notadamente os da Europa, já passaram há mais de 50 anos.

Para explicar a origem da preocupação com o entulho, por sinal, é preciso regredir no tempo e voltar à época da II Grande Guerra Mundial. Os seis longos anos de batalha colocaram, literalmente, a Europa por terra. A destruição foi tamanha que a Alemanha, principal país alvejado, pouco guardou de sua arquitetura pré-guerra, fato que o visual moderno de suas construções comprova. Foi para reerguer-se que esses países passaram a discutir métodos de reconstrução a partir dos seus escombros. E reerguer-se não era o desafio único e principal. Era preciso criar maneiras de reconstruir sem capital.

A Europa renasceu quase que do pó e continua gerando entulho através de construções e desperdício. Lá, no entanto, já existe o reaproveitamento do entulho em novas construções. Os resíduos moídos são usados nas estruturas mais simples ou nas bases asfálticas de vias menos carregadas - na pavimentação de bairros residenciais, por exemplo, onde o fluxo de veículos é menor.

Os refugos, entretanto, não são integralmente de qualidade inferior. Alguns guardam ótima qualidade, como é o caso dos resíduos originários da moagem de azulejos e cerâmica. Deles se extrai a microssílica, elemento utilizado nas fórmulas de concreto de alto desempenho, a exemplo do utilizado em pontes e viadutos rodoviários.

No Brasil, as experiências pipocam aqui e ali, mas já servem de estímulo. Belo Horizonte, por exemplo, possui duas usinas que fornecem base para a pavimentação asfáltica. Em Ribeirão Preto, a usina fica ao lado de uma fábrica de blocos de concreto, que substituiu as pedras pelos resíduos de entulho no processo produtivo. A experiência mais moderna, contudo, está na capital baiana, onde o tratamento do entulho envolve um complexo - vai desde a reciclagem até a fábrica de blocos, tudo com a parceria da Universidade Federal da Bahia.

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