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Folclore nosso de cada dia

David Cintra
| Tempo de leitura: 5 min

Em agosto é comemorado o mês do folclore, porém, o significado dessa palavra vai além do que a maioria das pessoas imagina.

Agosto é o mês do folclore, certo? Errado. O folclore acontece diariamente, o ano todo. Aliás, o folclore está presente nas nossas vidas o tempo todo. Quando batemos na madeira três vezes, quando escolhemos uma determinada cor de roupa que dá sorte, quando nos utilizamos de expressões locais (como o uai dos mineiros, o tchê dos gaúchos e o ó xente dos nordestinos) e em muitos outros pequenos atos de nossa vida cotidiana, estamos colocando em prática coisas que aprendemos na escola da vida, perpetuadas e difundidas pelo saber popular. São atos e costumes pelo qual as pessoas criam uma identidade social.

O termo Folclore foi concebido pelo inglês William John Thoms em uma carta dirigida à revista londrina The Atheneum, em agosto de 1856. A tradução do trecho da carta de Thoms em que a palavra Folclore surge pela primeira vez é a seguinte: As suas páginas mostraram amiúde o interesse que toma por tudo quanto chamamos na Inglaterra antigüidades populares, literatura popular... - embora seja mais precisamente um saber popular que uma literatura, e que poderia ser com mais propriedade designado com uma boa palavra anglo-saxônica, Folk-Lore, o saber tradicional do povo - ... e que não perdi a esperança de conseguir a sua colaboração na tarefa de recolher as poucas espigas que ainda restam espalhadas no campo no qual os nossos antepassados poderiam ter obtido uma boa colheita....

A data da carta de Thoms acabou determinando agosto como o mês do folclore, o que absolutamente não quer dizer que o mesmo ocorra apenas nesta época do ano, como muitos imaginam. Como se vê pelo trecho da carta de Thoms, o termo foi criado para denominar os estudos sobre o saber tradicional do povo, ou seja, aquela parcela da cultura que não se aprende em academias ou instituições formais de ensino, mas que é passada de geração a geração através dos costumes e da maneira de ser de cada povo, grupo social ou família.

Thoms se referia particularmente à poesia popular inglesa e às cantigas do homem do campo. Mais tarde foram sendo incorporados aos estudos folclóricos as práticas cotidianas, danças, lendas, festas populares religiosas, artesanato e tudo o mais que representasse as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservadas pela tradição popular e pela imitação.

Ou seja, o folclore está estreitamente ligado à identidade social dos povos. O filósofo mali Hampaté Bâ proferiu uma célebre frase que pode ser considerada como resumo do significado de folclore: quando morre um velho na África, é uma biblioteca inteira que se queima. O folclore é também a memória viva dos povos, não escrita em livros.

Carlos Rodrigues Brandão, em seu livro O que é Folclore, conta um caso que facilita a compreensão do termo. Assistindo à Festa do Divino Espírito Santo, em Pirenópolis-GO, Brandão encontrou-se com um búlgaro que, maravilhado com os acontecimentos da festança, começou a contar as coisas da Bulgária, país que já foi invadido várias vezes. Durante a última destas invasões (pela ex-URSS), os búlgaros foram proibidos de hastear sua bandeira, cantar seu hino e até mesmo falar sua própria língua, ou seja, tentou-se excluir de suas vidas os símbolos de uma afirmação ancestral e identificação com a pátria. E que fez o povo da Bulgária? Aprendeu a ler sua memória nos costumes, objetos e símbolos populares.

O senhor búlgaro fez então as seguintes afirmações. Eu acho que durante muitos anos as nossas bandeiras eram as saias das mulheres do campo e os nossos hinos eram canções de ninar. A festa daquela pequena cidade goiana lhe tocava fundo porque as pessoas parecem que estão se divertindo, mas elas fazem isso para não esquecer quem são.

Desvalorização

Infelizmente hoje o termo folclore tem um uso empobrecido, tornou-se designador de coisas fantasiosas e até mentirosas. Para muitos folclore é apenas um conjunto de lendas - curupira, saci-pererê, etc. Sim, estas coisas fazem parte do folclore, mas não são o folclore. No entanto, esta não é a pior parte, para muita gente, inclusive formadores de opinião, folclore é um termo pejorativo que designa atos engraçados.

Assim, o folclore político não é o saber popular da política, como deveria ser, mas um conjunto de gafes cometidas por figuras do mundo político. No mundo do futebol é comum associar as besteiras ditas pelos jogadores ao termo folclore, bem como na própria imprensa fala-se em um folclore, que compilaria os erros mais absurdos cometidos por profissionais da escrita.

Alguns estudiosos associam a pejoração do termo à desvalorização da cultura popular promovida pelas elites culturais brasileiras. Esta deturpação da palavra folclore levou muitos estudiosos a optarem por sua substituição pela expressão cultura popular, justamente para não serem confundidos como pesquisadores de lendas e mitos ou de coisas fantasiosas.

O folclore, ou a cultura popular, do Brasil, é um dos mais ricos do mundo, por isso, extremamente difícil de ser estudado. De Mário de Andrade a Carlos Rodrigues Brandão, passando pelo grande Luís da Câmara Cascudo, muitos foram os pesquisadores que trabalharam nesta área e construíram um conjunto vigoroso de obras a respeito das coisas que as pessoas do povo brasileiro pensam e fazem para não esquecer quem são. Entretanto, há muito ainda a ser estudado, pois em cada pequena cidade ou em cada bairro dos grandes centros populacionais é possível encontrar uma cultura não-erudita rica o bastante para ser objeto de estudos profundos a respeito de seus praticantes.

Além da riqueza cultural que pode ser encontrada na medicina popular, na língua falada e na maneira de se vestir do povo brasileiro, ou dos povos brasileiros, nosso folclore está presente em muitas manifestações artísticas e festas populares como a folia de reis, a congada, o cururu, o boi-bumbá, a catira, o maracatu, o ticumbi, a marujada e outras tantas que, juntas, formam a verdadeira identidade do povo brasileiro.

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