O pastor da igreja Alfa Center de Bauru, Daniel Branda, americano de nascimento mas brasileiro por adoção, admite que os americanos não sabem muito sobre o que acontece fora das suas próprias fronteiras, nem são estimulados a isso. Acho que no geral o americano tem uma coisa que poderíamos chamar de cultura do ego, que faz com que a gente se preocupe muito com a gente e pouco com o resto do mundo, explica. Essa é uma grande diferença entre o Brasil e os Estados Unidos. Aqui as pessoas sabendo que éramos estrangeiros, se aproximavam, queriam nos conhecer. Lá, se aparece um estrangeiro, não importa de onde ele seja, a gente não se aproxima. Ao contrário, a gente até foge dele, conta Glenn Horrigan, que não sabe dizer porque os americanos reagem desta maneira. Acho que é uma questão de cultura. Mas é bom ir para um país onde nós somos bem recebidos mesmo que por estranhos, diz.
Sem aulas de história
Estudantes brasileiros que vão para os Estados Unidos em programas de intercâmbio sempre têm histórias para contar sobre o choque cultural entre os dois países. As diferenças começam na imagem que um povo faz do outro. Enquanto os americanos acham que aqui é só selva, por causa da televisão, nós achamos que lá todo mundo é muito atirado, meio louco, como nos filmes, compara o empresário João C. Araújo, que em 1989 foi estudar no estado americano de Maryland, numa cidade chamada Greenbelt, próxima à Washington. Ele conta que ouviu muitas perguntas engraçadas sobre o Brasil como: lá tem refrigerante? ou existem estradas no Brasil?. Na escola, onde cursou o equivalente ao último ano do colegial, Araújo diz que os livros falam muito pouco sobre o resto do mundo. O aprendizado é todo voltado para eles. Eles não aprendem o que cada país viveu durante a Segunda Guerra, por exemplo, eles aprendem o quanto a participação deles foi importante para a solução do conflito e estabelecimento da paz mundial, explica.
Quando foi para os Estados Unidos, o empresário conta que não tinha muitas expectativas. Não tinha muita idéia de como eles seriam, o que a gente sempre acha é que eles vão ser mais frios do que nós, mas isso é até normal. Nunca fui maltratado, pelo contrário, adorei a experiência, diz. Mas, segundo Araújo, os brasileiros não devem tentar ensinar história aos americanos. Acho que é uma questão de cultura que não vai ser vencida com nenhum argumento, a não ser que eles venham aqui e vejam, explica . Ele conta que uma vez, passando com sua família americana por uma estrada de onde podiam ver ao longe o tamanho da cidade de Denver, capital do Colorado, um dos irmãos perguntou se haviam cidades daquele jeito no Brasil. Ao responder que sim e que São Paulo era maior do que Los Angeles, ouviu um suspeito Hã hã. Sei que eles não acreditaram, mas pelo menos fingiram que sim, se diverte.
Influencia do cinema
Os Estados Unidos não são o país que mais produz filmes para cinema no mundo, mas, com certeza, é o país que melhor soube como se utilizar desse meio de expressão para difundir sua cultura. Basta lembrar, como o comportamento e o vestuário dos adolescentes brasileiros (e do resto do mundo) começou a mudar na década de 50, quando Marlon Brando e James Dean despontavam como lindos jovens rebeldes em seus jeans e t-shirts. O charme naquele tempo era ser rebelde também.
Mas mesmo antes dessa época (no período da Segunda Guerra II, por exemplo), copiar o que o cinema americano mostrava já era um sinal de avanço. O tempo foi passando, os filmes mudando e os brasileiros também, até mesmo nos hábitos pouco educados, como mostrar o dedo médio pedindo para a pessoa se danar (hábito ensinado pelo clássico Sem Destino, de 1969). O resultado geral dessa absorção cultural de décadas foi uma visão estereotipada da cultura americana. A gente acha que vai encontrar exatamente o que vê nos filmes e se surpreende, diz a estudante universitária Silaine Vendramin. A também universitária Jordana Chaves concorda: Pensava naquelas escolas grandes, no pessoal jogando hockey como nos filmes e acabei morando numa cidade de 700 habitantes numa região onde só havia fazendas, lembra.
Silaine morou durante 3 meses, entre 1997 e 1998, em dois lugares diferentes nos Estados Unidos, Melborne, na Flórida e Orange, na Califórnia. Ela revela que esperava encontrar um povo mais liberal e até louco, com nos filmes e se surpreendeu. Eles são muito mais rígidos do que nós e eu não podia fazer nada lá. Silaine conta que a curiosidade dos americanos sobre o Brasil era muito grande e que também não escapou de perguntas sobre a selva amazônica e o carnaval. Era a única coisa que eles sabiam sobre o Brasil, então ficavam espantados ao saber que aqui também tem Mc Donalds, lembra.
Pergunta mais surpreendente ouviu Jordana, que morou na cidade de Trenton, no Texas, entre 1996 e 1997 Um professor de matemática me perguntou se o Brasil não era um pequeno país que ficava na Europa, diverte-se. Eles não tinham idéia de que língua falávamos nem de qual era nossa capital, nada. Na verdade eles não fazem questão de aprender sobre outros países, acredita. Jordana também achou que os americanos são mais fechados do que nos filmes. Eles são cheios de regras e tentam controlar muito as pessoas, principalmente no que diz respeito a drogas e bebidas. Mas nem sempre conseguem. As diferenças culturais acabaram fazendo com a universitária voltasse antes do tempo para o Brasil, mas a experiência de ter morado fora foi boa na sua opinião. O mesmo dizem Silaine Vendramin e João Araújo. Eles são diferentes mas no fundo são seres humanos como nós, é preciso um pouco de paciência e boa vontade para transpor as diferenças culturais, mas os americanos são ótimas pessoas, define.
Receptividade brasileira pode estar no sangue
Não é de hoje que o Brasil é um país considerado dos mais acolhedores para os estrangeiros. Segundo a professora de história social da Universidade do Sagrado Coração, Drª Terezinha Zanlochi, até os primeiros portugueses que chegaram no país foram bem recebidos. Ela cita o livro Negros da Terra: Índios e Bandeirantes na Origem de São Paulo, do professor de história John Monteiro, onde o autor lembra que os contatos entre os índios e portugueses só ficaram violentos por volta de 1550, quando a comunidade indígena percebeu que os visitantes os fariam trabalhar mais do que estavam acostumados. A cultura indígena não via o trabalho como uma forma acumular riquezas, então os índios se tornaram hostis, diz. A professora lembra ainda que os negros, que vieram escravos para o Brasil e são uma das três raças que formaram o povo brasileiro, também são historicamente conhecidos por sua alegria natural. Até hoje na África eles são muito ligados à música, gostam de cantar, de dançar, explica. Para completar, a colonização promovida por um povo europeu de origem latina - mais calorosos do que os eslavos ou germânicos, por exemplo - também ajudou.
Na opinião de Terezinha Zanlochi, a receptividade, o despojamento e a franqueza quase ingênua com as quais os brasileiros recebem os estrangeiros ainda hoje são uma grande qualidade nacional. Já visitei muitos países do primeiro mundo e a diferença é muito grande em termos de formalidade, afirma, se o Brasil precisar perder essa característica de acolhimento para se tornar um país de primeiro mundo, prefiro que a gente continue atrasado, define.