Na próxima década deste recém-chegado milênio, o município de Bauru deverá estar experimentando, pela primeira vez, os resultados de um crescimento planejado. Não estamos prevendo aqui que a cidade estará livre de problemas urbanos, mesmo porque eles são inerentes ao progresso, mas que cresceu preocupada em não repetir erros e sem sobrepôr interesses políticos ou setorizados à qualidade de vida.
Bauru não figura entre as 10 menos organizadas urbanisticamente, mas também não está entre os melhores exemplos de cidades bem planejadas. Os problemas existem do Centro à periferia e poderiam ter menor impacto se os antigos projetos de expansão tivessem sido dimensionados com mais cautela. Exemplos existem aos montes.
A região sul, por exemplo, tornou-se o setor mais cobiçado da cidade, seja para fins domésticos ou de prestação de serviços, mas uma boa parte de Bauru paga caro por isso. A abertura e pavimentação de ruas e a impermeabilização desenfreada de terrenos resultam situações cada vez mais cruéis para a zona central, principalmente na região do pátio ferroviário. Se, de um lado, vemos moradores felizes, empreendedores imobiliários contentes e Prefeitura satisfeita com a expansão da zona sul, por outro, criticamos e lamentamos as enchentes que, quase todos os anos, causam grandes prejuízos e até perdas de vidas.
A solução continua vindo a cavalo, mas, pelo menos, não deve ser agravada. Hoje, o poder público possui mecanismos eficientes e, por que não dizer, boa vontade mais explícita de conter o problema. A participação ativa da sociedade, é claro, tem vínculo estreito com essa mudança de atitude, pois opina e atua efetivamente nos mais diversos setores da administração pública. No caso do planejamento urbano, Bauru conta com os conselhos municipais de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente (Comdurb e Comdema), organismos que deliberam democraticamente sobre como deve ser o crescimento da cidade.
É por conta dessa participação, por exemplo, que o poder público vem driblando as pressões de empreendedores imobiliários que querem, a todo o custo, a expansão da zona sul rumo ao residencial Lago Sul. A resistência mantém-se implacável e com razão. Qualquer novo empreendimento que implique em impermeabilização do solo naquela região vai se refletir nos velhos e conhecidos pontos nevrálgicos do Centro, como praça Chujiro Otake, avenida Alfredo Maia e parque ferroviário. Mais água vai descer até esses locais, permitindo conseqüências ainda mais desastrosas.
A avenida Nações Unidas, que, junto com o Vitória Régia, é o principal símbolo de Bauru, também fica devendo muito em termos de planejamento. Linda quando iluminada, moderna com suas famosas franquias e cravejada de bares e restaurantes, a Nações é sofrível por baixo da terra. Os que a planejaram foram imediatistas, ou seja, subdimensionaram sua estrutura para o futuro. Quando chove forte, ela guarda pouco de sua imagem glamourosa. Hoje, técnicos de engenharia e arquitetura quebram a cabeça para encontrar uma solução que seja viável em termos financeiros e arquitetônicos.
A falta de planejamento também atinge alguns núcleos habitacionais, como o Mary Dota e o Gasparini. O primeiro, por sua proporção comparável à de pequenas cidades, e o segundo, por sua localização afastada dentro do mapa da cidade. Se hoje ainda é distante, imagine o Gasparini na época de sua fundação - década de 80 -, quando o sistema viário urbano e rodoviário era deficiente? Houve quem resistiu à construção de ambos os núcleos, mas os interesses políticos prevaleceram. Afinal, como desaprovar projetos de moradia popular?
Hoje, sob a vigilância e crivo da sociedade, o poder público sente-se menos à vontade e até impedido de aventurar-se em projetos urbanísticos. Muito pelo contrário, busca remédios para os problemas decorrentes daqueles que foram mal-dimensionados. O estrangulamento da vazão de águas pluviais no parque ferroviário, o alagamento da Nações e a melhoria do acesso aos bairros do extremo norte da cidade são questões prioritárias da municipalidade, mas o custo das obras para tanto posterga soluções.
A expansão do município daqui para frente, porém, deve seguir um planejamento minucioso. Mesmo com as pressões dos empreendedores interessados em investir na zona sul, as diretrizes da administração estão, literalmente, em sentido oposto: de olho na zona norte. Essa, por sinal, é a região que mais promete prosperar nas próximas décadas, pois é a que oferece melhores condições de crescimento.
A região, onde há 20 anos se pretende construir um grande parque público - dez vezes maior do que o Vitória Régia -, só não foi loteada e tomada pela especulação imobiliária porque os técnicos em planejamento da Prefeitura conseguiram a aprovação de uma lei proibindo o parcelamento das glebas. O cuidado não foi em vão e garantiu a preservação da bacia de contribuição - para onde converge a vazão dos afluentes - do córrego Água do Castelo, hoje com mais de 50% de sua capacidade livre.
Quando os entraves para a expansão da região forem derrubados - no caso, a construção de acessos viários -, os empreendedores serão obrigados a realizar obras de drenagem nunca antes exigidas na cidade. É o primeiro passo que Bauru está dando rumo ao tão desejado crescimento ordenado.