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Eu estive lá: na ecológica Ilha de Marajó

(*) M.D. (**) M.L.C.D.
| Tempo de leitura: 6 min

Fugindo do frio do mês julho, decidimos montar uma viagem para conhecer a Ilha de Marajó. Junto a Agência de Viagens, elaboramos um roteiro objetivando conhecer, Belém, Marajó e Manaus. Preocupamo-nos em viajar em vôo regular partindo de Bauru e hotéis de nossa escolha, para evitar surpresas $$$$.

Nossa primeira parada foi Belém onde fizemos um belíssimo city tour, acompanhados pela guia Regina, conhecendo os principais pontos da cidade fundada no período áureo da exploração da borracha. Destacamos na cidade as docas, no antigo porto, restaurada e comportando restaurantes típicos, artesanato e uma excelente cervejaria (com vários tipos de cerveja e ótima nos 34º C) e a visita a Basílica do Círio de Nazaré uma igreja totalmente com aspectos fiorentinos, talvez a mais autêntica e bonita do país dentro do estilo. Ainda na cidade, fizemos dois bons passeios, o primeiro à ilha de Mosqueiro, aproveitando para comer uma pescada branca na telha com molho de tucupi, após um banho nas águas doces e quentes da baia de Guajará e outro passeio nos canais e igarapés (onde comemos ao natural, o cacau e a castanha do Pará, nativas da região). No último dia, em companhia do nosso primo Leandro Dias Joaquim, fomos conhecer Icoaraci, ainda nas margens da baia, onde a família da sua esposa, Andréia, tem uma casa que data de 1896 (idade de Bauru), ainda com mobiliário vitoriano, uma relíquia a ser preservada no tempo.

A ecológica Marajó

Acordamos às 5 horas, fomos transferidos para o porto e tomamos uma lancha para Marajó e, após 1h40 de viagem, chegamos ao porto da ilha e após mais 30 minutos de van chegamos a Pousada dos Guarás. Essa pousada está na margem das águas doces, contando com cabanas divididas em 4 apartamentos, com todo o conforto e denominações indígenas. Dentro, excelentes instalações com ar condicionado, frigobar, banho quente, tudo muito espaçoso, com direito a redes internamente ou nas varandas.

O restaurante é self-service com pratos regionais e as garçonetes com o traje típico da ilha: saia rodada e bustiê. Todas as noites o jantar se desenrola com música ao vivo. Numa das noites há um show de danças de carimbó, com conjunto musical típico e grande variedade de movimentos, como um balé regional.

Na ilha, fizemos dois passeios com o nosso guia Ezequias, conhecendo em Soure, um centro de artesanto marajoara, onde se adquire miniaturas de vasos, urnas funerárias, jarras e peças de couro. Vamos aproveitar a oportunidade para uma explicação arqueológica: No Museu interativo da Cachoeira do Arari (na própria ilha) e outros da região norte, encontramos peças de cerâmica de diferentes épocas, sejam marajoaras ou tapajônicas. O interessante é a dinâmica hidrográfica que liga as cabeceiras do rio Amazonas, nó de Vilcanota, na região de Machu Pichu, um dos mais importantes santuários da cultura quechua (mais conhecida por seus governantes incas) até a foz do Amazonas (Ilha de Marajó). A cerâmica que vimos no Museu de Cuzco, guarda as mesmas características encontradas em Marajó. Por quê não admitir que um povo de elevado nível cultural chegou a ilha via hidrográfica Urubamba, Ucayale, Solimões, Amazonas e deixou-nos a mais elevada cultura indígena do país? Ponto de contato encontramos nas urnas funerárias análogas entre os quechuas e os tapajônicos/marajoaras.

Fomos a uma fazenda de criação de búfalos da professora doutora Eva Abu Fayad (ex-Universidade Federal) onde, após uma palestra, houve passeio em búfalo de montaria, visita a uma capela típica rural e fomos recebidos com um lanche servido pela mãe da Dra. Eva, no qual constavam o queijo e coalhada derivados de búfalo. Além da criação, a fazenda é o local onde o Ibama coloca os animais silvestres feridos por caçadores para a recuperação, sob os cuidados da veterinária. Após o doutoramento, a professora decidiu dedicar-se a criação de búfalos e recuperação de animais e depois soltá-los na floresta de sua fazenda. Ela gosta, principalmente, da visita de crianças para participar da sua formação ecológica.

O outro passeio foi feito de barco para conhecer a Mansão do francês construída no final do século, com mais de 500 m2 e um sobrado para os serviçais, além de uma caixa dágua feita de madeira há mais de 100 anos.

Para entender a opulência do período áureo da exploração da borracha, basta saber que os filhos de famílias ricas iam estudar em Paris, de onde voltavam com os títulos universitários. Os teatros de Belém (Paz) e o de Manaus (Amazonas), recebiam companhias teatrais e de ópera que jamais chegaram ao Sul e Sudeste do Brasil.

Conversando como nosso guia marajoara, ficamos sabendo do modo de vida do povo que, segundo ele, vive feliz com o pouco que tem, não desejando mais. Perguntamos se havia hospital na ilha (são 250 mil habitantes), respondeu-nos que dificilmente ficam doentes e, quando necessitam de remédios, há muitas ervas na floresta... Aliás, só vimos tipos saudáveis. O caboclo marajoara resulta numa etnia especial: seu corpo tem a estrutura indígena-forte com cabelos lisos, a cor do negro e os traços faciais do branco, resultando num brasileiro(a) muito bonito(a).

Final, no encontro das águas

Após uma correria entre o barco de Marajó e o avião para Manaus, chegamos a terra que tem o mais belo teatro do País.

Saindo da Ponta Negra, fizemos o mais belo passeio fluvial do Brasil: o encontro das águas do rio Negro (escura devido ao leito sobre rochas cristalinas) e do rio Solimões (barrento pelo transporte de sedimentos das margens). É um fenômeno único, fazendo espuma quando as duas águas se encontram e caminham paralelas em direção ao Careiro. Ainda no passeio, visitamos um conjunto turístico com lojas e um restaurante onde comemos as famosas costelas de tambaqui (peixe amazônico), fizemos um passeio pelos igarapés e fomos conhecer as árvore sumauma no caa-igapó, que necessita de 16 homens de braços abertos para contorná-la. No retorno, no barco de dois andares, pegamos um típico temporal amazônico que impedia de ver as margens...

Um último tour pela cidade, visitamos o Teatro Amazonas - obra prima de arquitetura e bom gosto - que diga o professor doutor Antonio Brandão Ricci, responsável pela restauração de 1974 (certo?), o Palecete Rio Negro, hoje sediando a Casa da Cultura. Fomos, também, na outrora Zona Franca, alterada, tanto que hoje é denominada a Zona Fraca, pois perdeu aquelas características da década de 70.

Finalmente, esses 10 dias valem a pena. Aqueles que puderem, façam o retorno ao nosso passado do final do século XIX e conheçam a ecológica Marajó.

(*) Muricy Domingues, professor de Geografia no Turismo da USC.

(**) Maria Luiza Corrêa Domingues, professora e Psicóloga pela USC.

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