Pesquisadora lança hoje o livro Mulheres, Trens e Trilhos, que descreve o impacto da ferrovia na vida das mulheres de Bauru e do interior do Estado; noite de autógrafos será no Centro Cultural
Baixada a fumaça densa da locomotiva da modernidade em Bauru, quase um século mais tarde torna-se inevitável brotarem aos olhos histórias, impressões e, mais que isso, vidas inteiras modificadas - ou moldadas - em razão das ferrovias, símbolos do avanço do capitalismo no Interior.
E se o entroncamento da Noroeste do Brasil (NOB), Sorocabana e Paulista trouxe, no início do século passado, a perspectiva de novos horizontes para trabalhadores vindos de muitas partes do País, não foi diferente com os anseios e aspirações femininas da época.
Assim, mulheres da cidade começavam a buscar novos rumos, deixando os tradicionais afazeres domésticos para lançarem-se ao, até então, sonho de fazerem parte do mercado de trabalho.
Claro que isso não ocorreu sem estranheza em meio à sociedade machista dos anos mil novecentos e tanto. Resumidamente, é esse o objeto de estudo da pesquisadora Lidia Maria Vianna Possas, que lança hoje em Bauru, às 20 horas, no Centro Cultural, o livro Mulheres, Trens e Trilhos (Edusc, 432 páginas).
Lidia, carioca, é professora de Ciências Políticas e Econômicas da Unesp de Marília e coordena o curso de Ciências Sociais daquele câmpus. Sendo assim, Mulheres..., rico em depoimentos, ilustrações, fotos da época, cópias de documentos e citações teóricas, é um trabalho acadêmico, sem, no entanto, perder o olhar sensível às transformações culturais: é história sob uma perspectiva antropológica, define.
Boca do sertão
Bauru, a boca do sertão paulista, virava a entrada do Brasil novo, com o nascimento da NOB, em 1905, e a chegada das ferrovias Sorocabana (1906) e Paulista (1910). A modernidade estava à flor da pele, com a disseminação de valores pelo rádio, cinema, teatro e romances.
Tudo isso acalentava nas mulheres o sonho de ser moderna, de trabalhar fora de casa. Mais que independência financeira, isso significava um forte rompimento de valores, o que não era bem visto pelos homens e pela tradição familiar. A companheira se tornava uma ameaça, lembra Lidia. A mulher que trabalhava fora não era considerada mulher de família. O assédio sexual no trabalho era grande e as mulheres tinham que ser muito austeras para controlar sua sexualidade, acrescenta.
Na ferrovia, as funções exercidas pelas mulheres eram divididas basicamente em duas áreas: as escriturárias e as braçais.
As primeiras vinham de famílias de classe média, com certa formação escolar, e trabalhavam como telefonistas, datilógrafas e serviços burocráticos em geral. As outras, de famílias menos favorecidas, iam para a cozinha, lavanderia, faxina, atendimento e outros.
O primeiro edital que anunciou concurso para a NOB, aberto a homens e mulheres acima de 18 anos, data de 1938, divulgado no rádio. Era uma estratégia Getúlio Vargas para se aproximar do eleitorado feminino, que ganhou seu direito ao voto em 1934. Por isso as mulheres daquela época adoravam Getúlio, afirma Lidia.
Vasculhando a documentação desses concursos, Lidia descobriu, ainda, que os primeiros lugares nos concursos eram em grande parte conquistados pelas mulheres.
Disciplina e namoro
O esquema disciplinar das ferrovias acabou afetando as mulheres também dentro de casa. Em alguns depoimentos de familiares, Lidia constata que as ferroviárias transferiam para o lar, com os filhos, a disciplina da empresa. Daí conclui-se também que a ferrovia forma caráter, diz a pesquisadora.
Outro aspecto curioso registrado pela professora foram as formas de romance estabelecidos entre ferroviários. São bilhetes, recados, cardernos de recordações, tudo era muito secreto, pois se descoberto, um romance dentro da empresa poderia causar problemas aos funcionários, lembra.
Embora o livro tenha como cenário a Bauru do início do século 20, Lidia não deixa de constatar que alguns valores da época sobrevivem até hoje, descritos pela autora como práticas culturais arraigadas. Só para citar algumas delas: a força política predominantemente masculina e o sonho do casamento tradicional pelas mulheres. Quando esse trem vai passar?
Serviço
Mulheres, Trens e Trilhos, de Lidia Maria Vianna Possas, lançamento hoje, 20h, no Centro Cultural. Av. Nações Unidas, 8-9. Informações: 235-1072. Apoio: Edusc, Restaurante Fratello e Licorolla.