A captação de recursos financeiros para entidades assistenciais através do serviço especializado de telemarketing é uma tendência que vem se mostrando crescente. Empresas que prestam assessoria e treinam funcionários para atuar nessa área conquistam cada vez mais clientes. De um lado, a entidade, que precisa encontrar meios eficientes de aumentar a arrecadação para cumprir com todos os seus compromissos e necessidades. De outro, as empresas especializadas em telemarketing, que divulgam a excelência dos serviços e a necessidade, para as entidades, de investir na profissionalização para conseguir alcançar as metas.
Em Bauru, a Vila Vicentina e o Instituto São Cristóvão contrataram, há cerca de três e dois meses, respectivamente, uma empresa de telemarketing, com matriz em Araçoiaba da Serra (SP), com o objetivo de treinar funcionários para realizar esse serviço. Os motivos que levaram-nas a optar pela contratação de uma empresa são distintos, mas, as coordenadoras de ambas entidades afirmam estar satisfeitas com os primeiros resultados.
Na Vila Vicentina, que atualmente abriga 93 idosos, a assistente social Lucila Manso Bacci explica que a empresa treinou uma equipe de funcionários da própria entidade para exercer a função. Nós optamos por contratar uma empresa especializada para treinar o pessoal porque o telemarketing é um serviço muito delicado e importante para a instituição. Um trabalho amador, malfeito, pode ser desastroso e acabar manchando a imagem da entidade. Nós nunca fizemos esse trabalho aqui, portanto, decidimos procurar orientação profissional, porque esse serviço exige cuidados especiais, observa Lucila.
De acordo com ela, o objetivo inicial é contratar um médico geriatra com os recursos advindos do telemarketing. Nós temos médicos que prestam atendimento aos idosos, mas são voluntários, não têm horário fixo para passar por aqui. Queremos contratar um profissional para que possamos ampliar o atendimento aos idosos da Vila. Com os recursos que conseguiremos captar através do telemarketing, será possível fazer isso, planeja Lucila.
De acordo com ela, os primeiros resultados foram tão satisfatórios que, com o retorno do telemarketing, foi possível cobrir os custos relacionados à aquisição de seis linhas telefônicas e contratar um enfermeiro. A assistente social destaca que, além dos benefícios que estão sendo conseguidos para a entidade, o novo serviço está gerando empregos. Somente no setor de telemarketing da Vila Vicentina trabalham 13 pessoas e Lucila já fala da necessidade de contratar, em breve, mais dois mensageiros. Essas pessoas são contratadas pela Vila e recebem salário como funcionários. Então, também estamos gerando empregos, além de melhorar a qualidade de vida dos idosos, que é o nosso principal objetivo, ressalta.
Lucila conta que, durante os primeiros dois meses e meio de telemarketing na Vila Vicentina, foi alcançado um lucro líquido de R$ 1,2 mil. Dessa forma, além de pagar as linhas telefônicas adquiridas, também teria sido possível pagar a assessoria prestada pela empresa especializada, segundo a assistente social.
De acordo com Lucila, a empresa que está assessorando a equipe de telemarketing da Vila Vicentina estipula metas mensais para o nível de arrecadação, sempre com perspectivas crescentes. Até o momento, os resultados do trabalho estariam sendo muito animadores, segundo relata a assistente social da entidade.
Necessidade
A coordenadora do Instituto São Cristóvão, Cássia Cerigato Usó, diz que a idéia de investir no telemarketing surgiu da necessidade de aumentar o volume de captação de recursos para conseguir comprar um terreno. No momento, a entidade funciona no mesmo prédio que abriga a Igreja São Cristóvão e presta atendimento a crianças de 7 a 14 anos de idade. Segundo Cássia, a entidade está inscrita no projeto de uma instituição sediada na Alemanha, para poder receber auxílio financeiro. Mas, para isso, exige-se que a entidade possua um terreno próprio.
Nós damos reforço escolar, atividades artísticas, educação física e auxiliamos nas tarefas de escola a crianças de 7 a 14 anos de idade. O objetivo é que elas fiquem meio período na escola e, a outra parte do dia, na entidade, participando dessas atividades. Para isso, enviamos o nosso projeto à essa instituição alemã, que faz parte de um pool europeu ligado à Igreja Católica, para receber auxílio financeiro para alcançar o objetivo de ampliar esse atendimento que já oferecemos às crianças, há sete anos. Mas, eles exigem que a entidade possua um terreno próprio. Nós já tentamos conseguir um local com a Prefeitura, em comodato, mas não conseguimos. Então, decidimos investir num serviço profissional de telemarketing com o objetivo de aumantar a arrecadação financeira do Instituto para podermos comprar um terreno, aqui nessa região, para manter o atendimento à população do Jardim Europa, América e Nicéia, diz Cássia.
De acordo com ela, o serviço de telemarketing foi implantado há um mês e meio e, apesar do pouco tempo, já estaria dando alguns resultados em termos de arrecadação financeira. Além disso, também está servindo, segundo Cássia, para divulgar a entidade, que não é muito conhecida na cidade. As pessoas estão acostumadas com as entidades maiores, como a Apae. Muitos dos que foram contatados pelas mensageiras do telemarketing nem conheciam a entidade. Muitas ligações não geram retornos financeiros, mas as pessoas acabam colaborando da forma que podem, como doando cestas básicas ou se oferecendo para ser voluntários. Como o Instituto São Cristóvão não é conhecido, esses primeiros meses servirão para divulgar a entidade. Com o tempo, acredito que nosso objetivo será alcançado, observa a coordenadora da entidade.
No caso do Instituto São Cristóvão, a empresa especializada terceirizou atendentes do Centro de Integração Empresa Escola (CIEE) para fazer o serviço de captação de recursos por telefone.
Trabalho profissional
O diretor da empresa especializada em telemarketing, Moacir de Oliveira Siqueira, diz que as instituições assistenciais têm investido na profissionalização desse serviço pelo fato de que uma abordagem incorreta pode ser desastrosa. É completamente diferente um trabalho profissional de um amador. Durante muito tempo, voluntários totalmente bem intencionados tentaram fazer captação de recursos por telefone, mas tiveram resultados negativos. Esse contato com o possível colaborador é muito delicado e leva a imagem da entidade. Uma abordagem incorreta pode ser desastrosa. Além disso, as empresas especializadas sabem como administrar e controlar a entrada e saída de dinheiro, de recibos e a elaboração dos relatórios. Sem esse controle, a entidade pode ter prejuízos em vez de lucros e, ainda, comprometer sua imagem. É preciso ter muito cuidado para expor à população os problemas pelos quais o terceiro setor passa, observa. Siqueira não revela quantos clientes possui, atualmente. Mas afirma que são muitos, espalhados por todo o Estado de São Paulo, além de outros Estados.
Os valores dos contratos firmados com as entidades não são revelados. Segundo Siqueira, isso depende de uma série de fatores como, por exemplo, as necessidades e objetivos de cada instituição. Tudo fica estipulado em um contrato de prestação de serviços. Eu sou um funcionário da instituição que contratou os meus serviços de assessoria. Tanto é assim que, a qualquer momento, meus serviços podem ser dispensados, se a entidade não ficar satisfeita, diz o diretor da empresa.
Na opinião de Siqueira, o telemarketing profissional é a forma mais honesta e leal de captar recursos para entidades que dependem de doações para sobreviver. Já que, infelizmente, o governo não assume isso, o telemarketing é a forma mais honesta e leal das entidades do terceiro setor captarem recursos para sobreviver. Os custos operacionais das instituições assistenciais são altíssimos; elas precisam captar recursos para se manter. Nós não queremos uma pessoa que doe R$ 1 mil, e sim, mil pessoas que doem R$ 10,00, porque o envolvimento da sociedade com essas instituições é importantíssimo para as pessoas atendidas. Você não imagina a alegria dos idosos da Vila Vicentina, por exemplo, quando algum colaborador vai até lá para conhecer e conversar com alguns deles. Isso é muito gratificante, destaca.
O presidente do Conselho Central de Bauru da Sociedade São Vicente de Paulo - à qual pertence a Vila Vicentina -, Mário Eduardo Roveda, revela que, através das várias pesquisas realizadas por ele para definir a contratação de uma empresa especializada em telemarketing para a Vila, constatou que o valor do contrato gira em torno de 7% a 20% do que é arrecadado mensalmente pela instituição. Porém, tudo dependeria do que está sendo contratado.
O valor de cada contrato vai depender do que está sendo contratado. Ou seja, depende do que é responsabilidade da entidade e o que é responsabilidade da empresa. O contrato da Vila Vicentina, por exemplo, está entre os mais baixos, porque a empresa foi contratada apenas para treinar os funcionários que são de responsabilidade da entidade. Nem mesmo as linhas telefônicas foram cedidas pela empresa. Toda a estrutura foi assumida pela Vila. Por isso, os valores têm muitas variações, explica Roveda. Ele acrescenta que o telemarketing é muito importante para as entidades assistenciais. Sem esse serviço, muitas entidades estariam capengando, sem condições de continuar em atividades, afirma.