Geral

A globalização e seus cinco mandamentos

(*) Riccardo Petrella
| Tempo de leitura: 3 min

Henry Kissinger disse que a globalização é como a chuva, mas engana-se. A globalização atual não é um fenômeno natural nem é irreversível. Ao contrário, é um desses processos que podem e devem ser mudados, porque não é um bom modo de organizar a economia nem de se viver juntos. O mundo desenvolvido representa 12% da população e de 87% a 88%, respectivamente, do bem-estar e do consumo planetário. Esse tipo de globalização baseia-se em princípios fundadores específicos que geram mandamentos e produzem efeitos negativos em nosso modo de viver.

Em primeiro lugar, afirma-se que a sociedade está constituída por indivíduos, que funciona com base em um sistema de transações individuais e que cada um deve conseguir os melhores resultados. Privilegia-se o indivíduo, com o qual triunfam o individualismo e o corporativismo. O segundo princípio diz que o mercado é o mecanismo idôneo para melhorar as transações individuais e que, quanto mais mundial for, maior será sua capacidade para otimizar os resultados. O poder do mercado emerge da afirmação das classes dirigentes dos países mais desenvolvidos de que o mercado deveria ser o principal mecanismo para regular a distribuição de recursos e redistribuir o lucro. Também afirma-se que é o capital financeiro que estabelece os parâmetros de definição do valor no mercado. Tudo o que produz mais-valia do capital tem valor; o que não, não o tem. Por esta razão, os recursos humanos que não rendem são considerados como um chinelo velho.

Esses princípios geram alguns mandamentos e sua própria santíssima trindade: liberalizar as transações de todo o tipo - abolindo políticas nacionais ou locais que ponham limites à liberdade de comércio -, desregulamentar a economia e privatizar. Segundo esta lógica, o Estado deve deixar que a economia seja regulada pelas forças do mercado e que o capital organizado circule livremente em nível mundial. Àqueles três mandamentos somam outros dois. Por um lado, a necessidade de inovar, exclusivamente no campo tecnológico; por outro, competir, ser o melhor, vencer. Se és o melhor, tens poder, logo, tens legitimidade. Por isso, a Microsoft é competitiva e pode determinar as regras do jogo.

Os princípios e seus mandamentos provocam conseqüências evidentes. Em primeiro lugar, a mercantilização de tudo: o solo, a natureza, nossos genes, a vida, as sementes, o sêmen. Convertemo-nos em recursos humanos, não mais em seres humanos, e, por isso, o direito à vida não está corretamente assegurado. Que tipo de civilização somos se aceitamos que 3,5 bilhões de pessoas não tenham água potável? Estamos numa guerra, da qual emerge outra conseqüência: vivemos na cultura da sobrevivência. Mas sobreviver não é o mesmo que viver. A conquista do mercado baseia-se em uma lógica competitiva sem piedade, segundo a qual se deve eliminar o competidor. Deve-se fazer mais, com melhor qualidade e em menor tempo, já que também se impôs o imperialismo da velocidade. Perdemos a lentidão de viver juntos; nosso tempo é determinado pelo capital financeiro.

É coerente com esses princípios e mandamentos a destruição do estado assistencial (welfare), a eliminação da solidariedade e, definitivamente, da democracia. No timão desta ordem econômica está o financeiro, não mais o político, que deveria ser reinventado junto com a noção de bem comum. Que tipo de crentes somos - cristãos ou de outra fé, socialistas ou liberais - se aceitamos com naturalidade o abismo tecnológico e a divisão entre os que sabem e os que não sabem, entre os que podem educar-se e os que não podem, entre os bem-alimentados e os desnutridos, entre os sãos e os enfermos?

(*) O autor, Riccardo Petrella, é catedrático da Universidade de Lovaina e conselheiro da Comissão Européia de Ciência e Política Tecnológica.

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