Inúmeros grupos empresariais paulistanos estão tentando, obstinadamente, imunizar-se contra os avanços da recessão, que vai mostrando os dentes a muitos de seus segmentos, enfraquecendo-lhes naturalmente as reservas. É uma luta, uma batalha até! Dir-se-ia uma fuga como a do diabo à cruz. Na quinzena passada, algumas de suas lideranças estiveram se reunindo para análise da conjuntura. Durante horas, os líderes se debruçaram sobre o problema, desvendando caminhos que possam cobrir o setor, escondendo-o do monstro que o persegue e, ao mesmo tempo, o coloque a salvo de suas garras. No final, a luz apontou, como única forma de nocautear ou ao menos ganhar por pontos do poderoso animal: uma majoração imediata dos salários de todas as categorias, complementando os recentemente concedidos, a fim de fazer crescer algo mais o poder aquisitivo do povão e favorecer o aumento do consumo, vale dizer das vendas.
Pode dizer-se que foi uma boa saída, mas não se pode ver nela nada de inusitado, pois técnicos em economia já a vinham defendendo, advertindo toda a sociedade civil para o que a espera, falando de dias sombrios e retração monetária. Disseram, também, da necessidade da classe política colaborar para a solução dos problemas que poderão surgir. Mencionaram ainda, enfaticamente, repetimos, o achatamento nos salários, que está trazendo forte aperto das cinturas e dos cintos, determinativo inquestionável da diminuição da aquisição de bens em geral, inclusive, sem sombra de dúvida, alimentos de forma alguma indispensáveis. Não tendo, por isso, nada de novidade no front, considera-se até que os empresários estão consumindo tempo demais para alcançar o consenso de que o remédio mesmo, que não é droga, para debelação dos ataques da recessão, será reduzir suas margens de lucro e inapeter-se quanto à compra de mais apartamentos, construção de arranha-céus e troca anual de automóveis importados para, num estágio final, terem sobra suficiente para repartir com a miséria de seus empregados, melhorando-lhes, assim, seus parcos rendimentos mensais.
A vida é uma insuperável mestra e as aperturas financeiras, assim como as doenças incuráveis, são uma extraordinária fonte de reflexão. Isto que acontece aqui e ali, acontece, também, no âmago do empresariado, despertando-o para os riscos da recessão e para outras dificuldades que ele ainda não tenha experimentado. Como se costuma proclamar, todos têm de entrar com alguma coisa para reconstrução da estrutura do País. E os patrões não podem inscrever-se como exceção, permanecendo como ilha em torno da qual todos procuram salvar-se. É a nossa opinião.
(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.