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Ação contra lotéricas gera críticas

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 6 min

Os donos de casas lotéricas e alguns clientes estão criticando a suspensão de serviços prestados pelas empresas.

Clientes e donos de casas lotéricas de Bauru estão criticando a decisão da juíza da 6.ª Vara Federal de Porto Alegre (RS), Ana Inês Algorta Latorre, que concedeu liminar ao Ministério Público Federal (MPF) e determinou que a Caixa Econômica Federal (CEF) suspenda, em todo o País, a prestação de serviços bancários pelas unidades lotéricas. A notícia foi divulgada pelo JC, ontem. A determinação será válida, na prática, a partir do momento em que a Caixa for notificada oficialmente pela Justiça. A informação da assessoria de imprensa da instituição é de que, até ontem à tarde, isso não havia ocorrido. A CEF já informou que vai recorrer.

A decisão afeta os serviços de depósito em conta corrente ou poupança, aplicações financeiras a qualquer título, saques de conta corrente, poupança ou benefícios previdenciários, entrega de talões de cheque e de propostas de abertura de conta ou poupança. O recebimento de contas de água, telefone e energia elétrica não foi suspenso. Para o empresário lotérico Flávio Carareto, a população será a principal prejudicada pela decisão judicial. Segundo ele, o objetivo de oferecer esses serviços nas casas lotéricas é facilitar a vida das pessoas.

Esses serviços são feitos nas lotéricas para facilitar a vida das pessoas, porque aqui não tem fila, ao contrário das agências da Caixa. Então, é muito mais rápido para os clientes fazerem essas operações nas lotéricas do que no banco. Além disso, atualmente, existem 22 unidades espalhadas por Bauru, nos mais diversos bairros. Então, até o acesso é mais fácil para os clientes, diz Carareto.

De acordo com ele, a decisão não afeta as lotéricas diretamente, já que o carro chefe dessas unidades é o recebimento de contas de água, luz e telefone. Na opinião do empresário, nem mesmo para os funcionários das lotéricas haverá mudanças substanciais no dia-a-dia, já que não seria grande o volume de operações referentes aos serviços que estão sendo proibidos pela liminar.

O empresário João Borges, dono de uma casa lotérica localizada no bairro Bela Vista, também acha que os principais prejudicados serão os clientes. As pessoas que costumam recorrer às lotéricas para esses serviços serão muito prejudicadas. No caso da minha loja, que fica em bairro afastado do centro, a situação para os clientes é ainda pior. Imagine que quando uma pessoa precisar fazer um pequeno saque, de última hora, terá que sair daqui e ir até uma agência da Caixa no Centro da cidade só para isso. É muito complicado. Os serviços que a Justiça está mandando suspender não são o nosso carro chefe, mas eu atendo muitas pessoas que procuram a lotérica para receber aposentadoria do INSS, fazer saques e depósitos. Para a lotérica, não atrapalha em nada, mas os clientes serão muito prejudicados, avalia.

Washington Luiz Ferrari, que é cliente da CEF e recorre à casa lotérica do bairro em que reside, para diversos serviços, também reclama da decisão judicial. Na lotérica, quando tem fila é pequena, o atendimento é bem mais rápido que no banco e, agora, o horário dos bancos está muito ruim devido ao racionamento. Além disso, eu que sou cliente de uma unidade que fica no bairro em que moro, vou ter dificuldades quando precisar de algum serviço que foi suspenso. Eu costumo fazer saques na lotérica e para mim vai ser muito ruim ter que pegar um ônibus para ir até uma agência da Caixa, observa.

Graziele Vasconcelos Gomes, que costuma utilizar as lotéricas para vários serviços, também critica a decisão judicial. Outro dia eu precisei ir ao banco e fiquei mais de uma hora na fila. Nas casas lotéricas não tem esse problema e é muito mais fácil pra gente. Não concordo com essa decisão da Justiça, diz.

Isaura Pifer dos Santos diz que sempre recorre às lotéricas porque é mais prático e rápido. O horário dos bancos está muito ruim por causa do racionamento. Além disso, nas lotéricas o atendimento é bem mais rápido. Na minha opinião, a população será muito prejudicada com essa decisão, diz.

O MPF diz que baseou a ação judicial nos argumentos de falta de segurança aos consumidores, ausência de condições físicas para o adequado atendimento ao público, precariedade das condições de trabalho dos empregados das lotéricas e exclusão contratual da responsabilidade da CEF pelos serviços prestados.

Negociação

De acordo com o presidente do Sindicato das Empresas Lotéricas do Estado de São Paulo (Sincoesp), Lourival Iervolino, após a paralisação de todas as casas lotéricas do Estado durante a última segunda-feira, a diretoria da Caixa Econômica Federal (CEF) teria decidido abrir negociações com a categoria. Segundo ele, a previsão é de que até o final deste mês sejam concluídas as discussões sobre a segurança das unidades lotéricas. O próximo passo será discutir a rentabilidade das unidades.

Como forma de pressionar a CEF, na terça-feira as casas lotéricas retomaram as atividades mas não estavam realizando as operações bancárias do Caixa Aqui, como saques, depósitos, conferência de saldo, pagamento de FGTS e do PIS, no período da manhã. No meio do dia, a instituição teria sinalizado ao Sincoesp que, se houvesse uma demonstração de boa-vontade por parte dos empresários lotéricos, seria possível abrir negociações. Diante disso, no período da tarde, as operações do Caixa Aqui voltaram ao normal (e, depois, suspensão pela Justiça Federal), segundo afirmou o empresário Flávio Carareto, dono de uma casa lotérica de Bauru.

O mais importante da conquista com a paralisação de segunda-feira, na opinião de Iervolino, foi que a Caixa teria concordado em analisar um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) que, segundo ele, mostra que a categoria está com baixa rentabilidade. Nós encomendamos esse estudo à FGV e apresentamos para a Caixa há bastante tempo. Mas, até o momento, a diretoria tinha se negado a analisá-lo, alegando que o estudo não refletia a realidade. Agora, reconheceu que é um documento com análises profundas e reais. Diante disso, segunda-feira recebemos a informação de que a diretoria abriria um canal de ligação conosco e que poderíamos discutir a questão rentabilidade com base no estudo da FGV, contanto que houvesse a colaboração da categoria. A partir disso, nós decidimos demonstrar nossa boa-fé voltando às atividades completas e normais, relata Iervolino.

De acordo com ele, ainda não foi marcada nenhuma data de reunião entre a categoria e a CEF. Mas, a previsão do Sincoesp é de que até o final de outubro as duas questões - segurança e rentabilidade - possam estar definidas.

Em contato com a assessoria de imprensa da CEF em Bauru, a reportagem foi informada de que ainda não havia sido enviada ao Escritório de Negócios local nenhuma informação oficial sobre o assunto por parte da superintendência da instituição, localizada em Brasília (DF).

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