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Quem não quer vencer o tempo?

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

A idéia de ficar velho apavora a grande maioria dos seres humanos e não é de hoje. Para vencer essa corrida com o tempo e retardar cada vez mais a chegada da terceira idade, homens e mulheres recorrem à medicina, aos exercícios, à religião, enfim, a todos os lugares, técnicas e práticas que possam servir como um elixir de longa vida. Mas, afinal, por que os humanos lutam pela longevidade?

A preocupação com o passar do tempo e a chegada da maturidade e, posteriormente, da velhice, aparentemente não nasce com o ser humano. Por isso é raro, ou quase impossível, encontrar um jovem de 15 anos preocupado com a sua velhice. A idéia de que vai envelhecer um dia é algo muito distante para uma pessoa dessa idade que tem, como prega o dito popular, a vida toda pela frente. Essa noção só vai se materializar mais tarde, quando, já na casa dos trinta anos, a pessoa perceber que a barriga está aumentando, os primeiros cabelos brancos estão aparecendo, as rugas também e a memória, embora ainda esteja em dia, está mais seletiva e já não é mais a mesma. É nessa hora que o fantasma da velhice surge. Foi nessa época, depois dos 30 que comecei a me preocupar mais comigo, em termos de saúde e também de aparência, conta o relações públicas Rubens Vianna Jr., de 39 anos. No seu caso, o despertar para o fato de que o relógio do tempo estava correndo trouxe uma melhora na sua qualidade de vida. Parei de exagerar em vários aspectos para preservar a minha integridade física e senti que isso melhorou a minha pele, o meu corpo, de uma forma geral, diz.

Antes dos trinta, Vianna confessa que nunca pensou sobre os efeitos do tempo na sua vida. Com 15, 20 anos, você não percebe as diferenças do tempo, explica. Na opinião da psicóloga Gláucia Regina dos Santos, os jovens possuem menos compromissos e responsabilidades, por isso não se dão conta de que o tempo está passando e que estão ficando cada dia mais velhos. É comum vermos jovens deixando as coisas para depois por acharem que têm tempo para tudo na vida, diz. Para a psicóloga, a medida em que as responsabilidades e compromissos aumentam - o que ocorre, geralmente, após os 20 anos - as pessoas passam a se preocupar mais com as suas realizações e com os efeitos que o tempo têm sobre elas. Elas começam a ficar com medo de não conseguir sua realização profissional, familiar, pessoal, enfim, de fazer tudo o que acham que têm que fazer, diz. Depois que casei e tive meu filho, minha preocupação com o tempo aumentou porque preciso cuidar dele, diz o engenheiro Luis Alberto Strazzi, que completa, quanto mais tempo demorar para envelhecer, melhor.

As mudanças físicas ajudam a acentuar o efeito tempo e aí começa a corrida até as academias e aos médicos, o que pode não passar de uma maneira de se iludir, segundo a psicóloga Luciana Biem Neuber. A maneira como a pessoa vai chegar até a terceira idade tem a ver com como ela viveu a vida toda. Se preocupar em chegar na velhice com a pele boa, na realidade, pode não ter muito valor se internamente a pessoa não estiver bem com suas emoções. A pessoa tem que se preocupar em fazer, ainda na juventude, tudo para que consiga ter um futuro saudável em todos os aspectos, afirma.

Cabeça determina a idade

Quem trabalha o pensamento e está sempre querendo fazer as coisas, em qualquer idade estará de bem com a vida e, conseqüentemente, parecendo sempre jovem. A opinião é da psicóloga Maria Aparecida Bien, em matéria já publicada no Caderno Ser. Segundo ela, são os pensamentos que levam alguém a sentir-se jovem ou não. Quem trabalha o pensamento, vislumbrando novas possibilidades, lida melhor com o envelhecimento, afirmou. Para Bien, em torno dos 40 anos de idade, o ser humano costuma reavaliar seus valores. Já temos maturidade para uma reflexão, para ponderar o que foi feito até aquele momento. Quem nessa etapa pensa de forma funcional, visualizando possibilidades otimistas, mantém mais facilmente a harmonia, afirmou.

Manter a mente sempre focada em um objetivo e se manter ativa é o segredo para retardar o envelhecimento, de acordo com a psicóloga. A pessoa que, por exemplo, se aposenta, pode desenvolver novas perspectivas, resgatando antigos projetos, partindo para outras profissões, etc. Pensamentos funcionais levam à emoções funcionais e comportamentos funcionais, disse.

A professora aposentada Mercedes J.S., de 80 anos, não se deixou levar pela idade ou pela aposentadoria. Dona do que classifica como espírito jovem, ela diz que adora viajar, dançar e até se arrisca nos esportes radicais: Há três anos fiz rapel em Brotas, diz animadamente. Sem uma receita específica para como consegue encarar o tempo tão bem, ela diz que nunca teve uma preocupação excessiva com a aparência, nem com a morte. A postura otimista em relação ao fim da vida é compartilhada pela também aposentada Bertilha Ticianelli, de 68 anos. Nunca me preocupei com o futuro, nem nunca tive medo de morrer. Se não olhar no espelho, esqueço que tenho essa idade, revela.

Medo da morte

Para a psicóloga Gláucia dos Santos, a preocupação com a morte está implícita no quase desespero das pessoas acima de 35 em se realizar na vida. Mesmo que elas não percebam, muitas vezes o medo de morrer é que faz com que elas achem que não vão ter tempo de se realizar, diz. O que não leva a lugar algum, já que quanto mais perde tempo pensando nisso, menos vive a vida, completa.

Para Luciana Biem Neuber, embora tenha a morte como única coisa certa desde o seu nascimento, o ser humano ainda não se acostumou com o fato de que sua vida vai acabar um dia. E a velhice está ligada à morte porque é o último estágio da vida. Fugir da velhice, no fundo é uma fuga para não encarar o fato de que a morte está próxima, afirma.

A terceira idade também é vista com certo preconceito por uma questão cultural, lembra a psicóloga. Até alguns anos atrás, ser velho era sinônimo de pessoa inválida, que não servia mais para nada, explica, por isso também ninguém quer ser chamado de velho e foi criado o termo terceira idade. Outro medo que envolve a velhice é a invalidez, já que ninguém se sente bem em pensar que, um dia, vai depender de outra pessoa para executar as atividades mais simples do dia-a-dia.

Uma fase como outra qualquer

De acordo com a psicóloga, a velhice ou terceira idade é uma fase da vida como qualquer outra e deve ser encarada com naturalidade, mesmo que seja, por fatores biológicos, a última etapa da existência. Hoje em dia, já se preocupam mais em chegar à terceira idade com saúde e isso é importante. É preciso saber valorizar mais a sabedoria que os idosos possuem porque isso é o que fica para sempre... Em termos físicos, nossas células estão constantemente parando de trabalhar, ou seja, morremos um pouquinho a cada dia, afirma Luciana Biem Neuber.

Para saber mais (*)

Como e por que Envelhecemos, de L. Hayflick (Campus)

Viva Mais de 100 Anos Como Alcançar 100 Anos de Idade em Plena Saúde, de W.M. Bortz II (Nova Era/Record)

Medicina Espiritual: o Poder Essencial da Cura, de H. Benson e M. Stark (Campus)

Equilíbrio Mente-Corpo Como Usar Sua Mente Para uma Saúde Melhor, de Daniel Goleman e J. Gurin (Campus)

A Linguagem da Saúde Entenda os Aspectos Físicos, Emocionais e Espirituais que Afetam sua Vida, de L.A Py e H.Jacques (Campus)

Crenças: Caminhos para a Saúde e o Bem-estar, de R.B. Dilts, T. Hallbom e S. Smith (Summus)

A Cura e a Mente, de B. Moyers (Rocco)

Cuidando do Corpo e Curando a Mente, de J.Borysenko (Record)

Idade Verdadeira - Como Ficar Emocional e Fisicamente mais Jovem, de M.S. Roizen (Campus).

(*) COlaborou Agência Estado

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