O Programa de Saúde da Família, que leva médicos generalistas até os domicílios, já tem sementes plantadas em Bauru. Município deverá adotar um sistema misto para minimizar possíveis resistências ao tão propalado modelo.
Apesar dos resultados satisfatórios obtidos com os projetos-piloto do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (Pacs), Bauru ainda engatinha frente ao projeto de Saúde da Família desencadeado em 1998 pelo Ministério da Saúde. Em março do ano passado, a Secretaria Municipal de Saúde anunciou que a implantação do projeto ocorreria ainda em 2000, mas ele só deve se concretizar no próximo ano, e de forma bem tímida - o orçamento prevê recursos para o custeio de apenas uma equipe, que deverá atender o bairro Pousada da Esperança e adjacências. O ministro José Serra, quando de uma seqüência de visitas à cidade no ano passado, dissera que a região de Bauru era a que menos havia desenvolvido o programa no Estado. Dos 41 municípios abrangidos pela DIR-X, apenas cinco o tinham adotado até então.
O Programa de Saúde da Família (PSF), que leva até os domicílios equipes formadas por médicos generalistas, enfermeiros e auxiliares de enfermagem, tem sementes já plantadas em Bauru com o trabalho que há mais de um ano vem sendo realizado pelos agentes comunitários de Saúde. O PSF não pode ser desenvolvido sem os agentes, mas estes têm condições de pôr em prática os princípios do programa, cuja meta é a medicina preventiva e humanizada, considerando os pacientes em seu contexto de vida. Por questões financeiras, os setores de saúde da cidade decidiram investir em dois programas de agentes ao invés de aplicar o - parco - recurso disponível num único PSF. Para o ano que vem, no entanto, o município deverá inaugurar o programa em sua plenitude.
De acordo com a secretária municipal da Saúde, Eliane Fetter Telles Nunes, as barreiras que têm atrasado o PSF vão além de razões de ordem financeira. A primeira delas repousa em questões técnicas, já que as equipes do PSF devem trabalhar independentes dos núcleos de saúde. Como adotamos só os programas dos agentes comunitários, optamos por utilizar os núcleos de saúde do Jaraguá e Godoy como referências, mas a recomendação do Ministério é para que as atividades das unidades básicas não sejam misturadas com as dos profissionais do PSF, argumentou.
Outro ponto que pesa na implementação do projeto de saúde é o impacto que o Programa de Saúde da Família terá diante do modelo atual, já culturalmente absorvido pela população. Desde crianças, as pessoas estão acostumadas a irem até os médicos quando sentem necessidade, mas o programa propõe justamente o contrário. São os profissionais que vão até as casas das pessoas, independentemente delas estarem precisando ou não de assistência médica naquele momento. Trata-se de um modelo preventivo para o qual ninguém está preparado. De repente, o PSF pode não ser a resposta que esperamos, pois seu sucesso depende de uma série de fatores. Pode acontecer, por exemplo, de uma determinada comunidade não se entrosar com o médico que irá atendê-la, citou a secretária.
Com uma, duas ou dezenas de equipes atuando no Programa Saúde da Família, o certo é que Bauru não deve abandonar o modelo atual. A titular da Saúde no município disse que o que se busca é uma forma mista, com o PSF destinado prioritariamente às regiões mais pobres da cidade. Radicalizar o sistema aqui, ou seja, romper com o método atual em função exclusiva da saúde da família, é inviável. Seria uma insanidade fechar nossos 17 núcleos para passar atender toda a população em casa. Algumas cidades fizeram isso, mas os resultado só foi positivo em pequenos municípios. O PSF, por sinal, tem colhido méritos em cidades pequenas, principalmente no Nordeste, e municípios ribeirinhos, onde não existe assistência nenhuma. Em Bauru, por maior que seja a demanda reprimida, a realidade é bem diferente, ponderou.