Proposta de arquiteta, em exposição na Assenag, transforma galpões da NOB em áreas de atividades de lazer e cultura.
Choperias, salas de cinema, teatro, bares e restaurantes, além de opções para a prática de atividades esportivas. Essa é a proposta da arquiteta e urbanista Ludmilla Sandim Tidei de Lima para a revitalização do pátio ferroviário de Bauru. Ela quer injetar vida nos galpões das oficinas da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), inaugurados em 1921 e, hoje, parcialmente abandonados, resultado dos efeitos da privatização da ferrovia, que foi à leilão em março de 1996.
Formada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), o projeto de Ludmilla é resultado de seu trabalho de graduação, apresentado no último ano de faculdade, em 1998. A proposta encontra-se em exposição na sede da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag), até o próximo Domingo. Antes de elaborar o projeto, Ludmilla fez pesquisas de campo e visitou algumas cidades do País, que aplicaram a revitalização em pátios ferroviários com sucesso.
A estações ferroviárias Júlio Prestes, em São Paulo cuja gare (área caberta usada para embarque) foi transformada num grande palco para apresentação de sinfônicas, e a de Curitiba (PR), ocupada por um shopping, foram passagens obrigatórias. Minha preocupação fundamental é conciliar a preservação da ferrovia e da estação ferroviária com a proposta de ocupação dos espaços e edifícios ociosos, explana.
Localizada no berço da Vila Falcão, as oficinas da NOB foram inauguradas em 1921 e se transformaram, por décadas seguidas, no maior centro logístico do Interior do Estado. Os enormes galpões chegaram a abrigar, no auge da ferrovia, cerca de 3 mil trabalhadores, uma massa braçal representada por brasileiros e imigrantes de várias nacionalidades. Por falta de manutenção adequada, resquício da escassez financeira e da ação do tempo, parte de suas paredes estão escoradas, uma ameaça iminente de desabamento.
No seu trabalho, Ludmilla destaca que fez questão de preservar as linhas férreas que cortam o pátio ferroviário e a estação, um monumento de 150 metros de comprimento por cerca de 20 de largura, plantado no Centro da cidade. Quem sabe se, no futuro, a ferrovia não possa ter uma atividade como tem nos países europeus. Arquiteta esclarece que seu projeto distancia-se de qualquer tipo de restauração dos prédios da NOB.
Restauração e revitalização são coisas diferentes. Restauração você recupera as características do edifício. Já a revitalização é um pouco diferente. Você dá um reuso para o edifício. É lógico que se se pretende implantar cinemas vamos ter que fazer um trabalho de acústica e outros complementos técnicos. Preservando os prédios através do processo de revitalização, estaremos colaborando com manutenção da história de Bauru.
Discussão
Na avaliação da arquiteta, as cidades brasileiras, de um modo geral, têm pouquíssima tradição da prática de discussões e debates à respeito dos seus planejamentos, sejam eles urbanos, econômicos e sociais, bem como da utilização de espaços e da preservação de edificações históricas que, por circunstâncias históricas, se apresentam sub ou inutilizadas.
Na minha opinião, o conjunto de edificações da Noroeste do Brasil são dignos da atenção da comunidade através de um processo de ampla discussão e debate. Eles são de expressiva contribuição arquitetônica para a sua época, onde se misturam barracões de oficinas com estilo inglês e a concepção arquitetônica de prédios públicos da era Vargas, inspirada no totalitarismo do período Mussolini, na Itália.
O trabalho de graduação de Ludmilla envolve, em suas 88 páginas, o levantamento das origens de Bauru e região, inclusive dados sócio-econômicos, conhecimento necessário para uma análise profunda sobre a motivação da implantação, a partir do Município, da ferrovia . Para esse evento patrocinado pela Assenag, eu resumi as 88 páginas em cinco pranchas. A primeira e a segunda são um condensado da apresentação e das análises, ficando as propostas, propriamente ditas, expostas na terceira, quarta e quinta pranchas.
O exemplo de Curitiba
Curitiba é conhecida, entre outras qualidades, pelo sucesso de suas experiências urbanas. Detentora de uma ferrovia que é marco da engenharia ferroviária brasileira a Curitiba-Paranaguá -, a cidade também sofreu com a privatização desse meio de transporte. A exemplo de Bauru, a formosa estação da antiga Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá também ficou abandonada, sofrendo a ação do tempo e do vandalismo.
Mas lá, a iniciativa privada tratou de dar um jeito no prédio que ainda hoje retrata, com a graça de suas linhas arquitetônicas, o progresso que chegou de trem, subindo a Serra da Graciosa. No sentido inverso, a produção cafeeira descia até o Porto de Paranaguá para ganhar os galpões dos navios mercantes. Hoje, a estação ferroviária de Curitiba é um grande shopping, responsável pela revitalização da área central da capital paranaense.