Quando eu era criança, na escola a professora dizia que preto tem a alma branca igual a nossa. Era uma forma de discriminar com falsa piedade. Como se a afirmar: a diferença existe, mas depois da morte o céu será igualzinho para todos. Grande consolo... A discussão parava por aí. Ninguém explicava porque na classe daquela escola paga não havia negros. Muito menos porque não pintavam anjos negros na capela repleta de querubins loirinhos, alvos como a neve.
De repente, no Brasil, ganha-se coragem para discutir a cor da pele dos seus habitantes em razão da Conferência das Nações Unidas sobre Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância, realizada em Durban, na África do Sul. A tese da delegação brasileira foi sobre a abertura de cotas de vagas para negros nas universidades, anunciada pelo ministro da Educação, Paulo Renato de Souza. A reunião redundou em fracasso com a retirada dos norte-americanos, depois que começou a ganhar corpo a idéia do pagamento de reparações ao povo negro escravizado durante séculos.
Pelo menos no Brasil, oficialmente, pela primeira vez, reconhece-se a marginalização dos descendentes dos negros escravos e a violação aos direitos humanos que isso representa. A nossa tentativa de indenização é que se me afigura pífia. Pela proposta, o governo compromete-se com a criação de políticas públicas para garantir esse acesso às escolas de nível superior. Como sempre, no Brasil, qualquer problema pode ser resolvido por decreto. Depois, o governo vai contar com a boa vontade das empresas privadas para maior acesso de representantes de minorias raciais às vagas no mercado de trabalho. Presume-se que os índios também estejam incluídos, mas nada foi dito sobre os pobres de qualquer cor que sequer têm ainda acesso à escola primária.
Recorde-se que existem leis ainda não cumpridas como as do direito do portador de deficiência física de ter acesso a uma cota de 5%, se não me engano, dos postos de trabalho. Sequer as empresas públicas cumprem essas disposições.
Se não conseguimos ainda resolver o problema menos complexo - pelo menor número de envolvidos - é de se duvidar que sejamos capazes de uma solução macro. Primeiramente, vamos ter que decidir quem é preto. Antigamente, o formulário do censo do IBGE trazia respostas alternativas para o recenseado decidir se era branco, preto ou pardo. Em sua última intervenção, o Instituto resolveu ser politicamente mais correto: perguntou aos brasileiros como percebiam a cor da própria pele. Surgiram mais de 300 definições diferentes, que variavam do marrom-canela ao branco-azedo, passando por combinações curiosas como morenão café-com-leite, russo, sarará, roxinho, vermelho ou misturado. Somos mesmo um caldinho de raças tão dissolvidas que já nem deveria mais haver entre nós qualquer tipo de preconceito ou discriminação na cor da pele, dos olhos e dos cabelos. Mas há.
Escondido atrás de muitas máscaras, o racismo impera em todo lugar. Basta consultar os indicadores sociais. Embora o próprio presidente se declare com um pé na cozinha, não há negros no ministério. Os governadores, todos eles são brancos, se a memória não me falha. Parlamentares negros, temos alguns. Garçons, pouquíssimos. O único índio que conquistou um lugar no Parlamento já aposentou seu gravador. Usava-o de maneira explícita. Nada oculto como os políticos fazem hoje para estrepar o colega. Para ele, as autoridades brancas mentiam muito, o que sempre foi verdade. Acreditava o deputado xavante, ingenuamente encantado com as maravilhas da tecnologia, que se pelo menos capturasse as palavras e promessas, elas seriam cumpridas graças à prova provada da magnetização da voz. Foi tachado de louco, índio-mordedor e outros adjetivos que o levaram à execração e ao esquecimento, depois de esgotada a exploração da sua imagem exótica pela mídia.