Geral

Nós, os galés

(*) Jorge Boaventura
| Tempo de leitura: 3 min

Os leitores que nos honram com a sua leitura, certamente já notaram que, segundo pensamos e oferecemos à consideração das suas inteligências e das suas consciências, somos todos partícipes de um momento muito especial da História. Um momento que marca ponto de inflexão de dramática gravidade, diante do qual se coloca a necessidade de fazermos, cada um de nós, opção cuja gravidade e cuja profundidade não se confundem com as que, em nosso cotidiano, somos levados a realizar. Não; a opção que agora se nos impõe, corresponde à inscrição que figurava no dintel do pórtico do templo de Delphos: Homem, conhece-te a ti mesmo! De fato, devemos meditar sobre se somos, tão só e exclusivamente, matéria, e matéria concebida na conformidade do que podia inferir-se dos dados da Física clássica; ou se, na conformidade dos alicerces culturais do qual brotou a civilização, já agora, segundo pensamos, em estado pré-agônico, alicerces fundados na Revelação, segundo a qual, somos todos criaturas de Deus, constituídas por corpo e espírito. A valer a primeira hipótese, toda a nossa realidade limita-se ao período, fugacíssimo, de tempo, que transcorre entre o nascimento e a morte; na segunda hipótese, somos criaturas eternas, eternidade de que participamos desde a nossa concepção, e durante a qual seremos responsáveis pelo uso que tivermos feito do livre-arbítrio que nos foi concedido, cujo uso deve ser orientado pelos ensinamentos registrados nas Sagradas Escrituras.

Bem sabemos que ponderações do tipo e da natureza das que acabamos de fazer, haverão de parecer a muitos um tanto fantásticas ou desligadas da realidade. É que, no turbilhão frenético da vida que somos levados a viver, acabamos por situar-nos como os galés das trirremes romanas, os quais agrilhoados aos bancos de onde empunhavam os remos propulsores da embarcação, não tinham a visão do mundo exterior, e eram obrigados a remar ao ritmo de um bombo que lhes ficava à retaguarda, por detrás do qual situava-se o timoneiro que imprimia o rumo da galera. Remavam, assim, aqueles galés, por rumo que ignoravam e para destino que desconheciam. Pois hoje, nós todos, como aqueles galés, agimos ao ritmo dos que o imprimem na vida que somos compelidos a viver, ignorando o rumo a que tudo isso pode levar-nos e o destino final de todo o esforço que nos vem sendo imposto. Imposto pelos que, utilizando a metáfora, tocam o bombo que nos marca o ritmo e manobram o leme que marca a rota - além dos quais existem, certamente, os que fizeram o traçado da referida rota.

Afinal, será objetivo, ou sensato, ou prático, vivermos siderados pela ânsia de um consumismo indefinido, quando é evidente que, no homem, a capacidade de desejar é ilimitada, mas a de possuir, ao contrário, é inapelavelmente restrita? Será inteligente que o homem, sujeito da atividade econômica, sem a qual não existiria o mercado, viva agora como que subordinado a este, como se tivesse ele existência autônoma? E será prova de descortínio não enxergar os trágicos frutos, que, por toda a parte, se oferecem aos nossos olhos? Não estão aí as guerras localizadas, a distância crescente da qualidade de vida entre povos e pessoas? Não estarão presentes todas as licenciosidades que marcaram, sempre e invariavelmente, os períodos de declínio de todas as civilizações que nos precederam? A usura internacional não está com as suas insaciáveis ventosas, sugando quaisquer possibilidades de progresso real de um sem número de nações, escravizadas pelos mamulengos que apenas formalmente as dirigem, para endividá-las e escravizá-las cada vez mais? Será sensato supor que tudo isso pode prosseguir indefinidamente?

De nossa parte, diremos ao leitor, para que seja analisado pela sua inteligência e pela sua sensibilidade: acreditamos na existência de dois planos da História. Daí a dramaticidade da fase em que vivemos: é que nos parece já iminente a operação do 2.º plano, diante de indícios claros de sua presença.

Voltaremos ao assunto, se Deus quiser.

(*)Home-page: www.jorgeboaventura.jor.br / E-mail: boaventura@jorgeboaventura.jor.br

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