Trabalho de biólogos da USP revela processo de eutrofização (águas verdes) na região de Bariri e Barra Bonita
A ação humana que destrói há décadas o rio Tietê na Capital e Grande São Paulo já atinge o Interior. Um trabalho realizado por uma equipe de biólogos da Universidade de São Paulo (USP), do câmpus de São Carlos, revela um processo denominado eutrofização, resultado que pode explicar o excesso do verde nas águas do rio, acompanhado de um forte odor. Trabalhadores de portos de areia do Tietê têm observado o fenômeno (ver box).
O processo é resultado da alta concentração de nitrogênio e de fósforo, provocada pelo despejo de esgotos domésticos, resíduos industriais e pela destruição de matas ciliares às margens do Tietê e de seus afluentes, ao longo das bacias hidrográficas.
De acordo com a bióloga Maria do Carmo Calijuri, que coordena os trabalhos realizado nos reservatórios do médio Tietê, o verde e o odor são micro-organismos que, se ingeridos pelo homem ou animais, pode provocar riscos à saúde e até a morte. O trabalho de Calijuri visa estudar a proliferação das cianobactérias, ou algas, potencialmente tóxicas, em reservatórios do Estado de São Paulo.
As algas, quando produzem toxinas, são responsáveis pelas grandes quantidades de peixes mortos, já que elas absorvem o oxigênio dos rios. É por isso que, hoje, uma legislação federal exige análises rigorosas das águas dos reservatórios que abastecem as cidades, diz Maria do Carmo.
A eutrofização cultural, provocada pela atividade humana, também conhecida como antrópica, pode ser substituída pela eutrofização natural. Só que a natural ocorre em tempo geológico, a cada cem anos, no mínimo, segundo a pesquisadora, que há uma década estuda os reservatórios.
A equipe coordenada por Calijuri, que atua nos reservatórios de Bariri e de Barra Bonita, envolve quinze pesquisadores, alunos de mestrado e de doutorado da USP de São Carlos, do curso de Hidráulica e Saneamento.
Os estudos são bancados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e abrangem outros reservatórios do médio Tietê, de Ibitinga, Promissão, Avanhandava e Três Irmãos.
Os problemas são menores à medida em que o rio avança em direção ao rio Paraná, segundo Maria do Carmo, que estuda, também, o reservatório de Salto Grande, em Americana, na Bacia do Piracicaba, formada pelo rio Atibaia.
Além de comandar a equipe no médio Tietê, a livre-docente e professora Maria do Carmo Calijuri coordena, também, o Progama de pós-gradução em Hidráulica e Saneamento da Escola de Engenharia da USP de São Carlos.
Novo visual
O fenômeno das águas verdes pode ser observado por quem não passa desatento sobre a nova ponte da rodovia SP-255, que liga Pederneiras a Bauru. Além do colorido, o forte odor é exalado especialmente por trabalhadores de portos de areia. De acordo com um trabalhador, que há quase 30 anos atua num porto próximo à ponte, no município de Pederneiras, o mau cheiro, às vezes, fica insuportável. Principalmente com o calor da tarde, disse o areeiro. Temendo represálias e alegando nada entender sobre o fato, ele preferiu não se identificar à reportagem. Nunca tinha visto algo igual, resumiu.
Segundo Maria do Carmo Calijuri, além do verde e do odor, o Tietê também ganha sabor com a proliferação das algas. Pode ser até que trabalhadores rurais estejam consumindo a água e peixes do rio, admite a pesquisadora, embora seus estudos não visem detectar esses detalhes. Ela afirma que os reservatórios que abastecem Araraquara e São Carlos não estão contaminados.
(*)Mauro Nery, especial para o JC