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A política do ódio

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Muitos filmes foram feitos sobre a destruição de Manhattan por monstros antediluvianos, por ondas gigantescas e por naves marcianas, mas nada que se assemelhasse com o que se tem visto nos telejornais. Os engenheiros de efeitos especiais de Hollywood vão ter muito trabalho para reproduzir essas cenas ainda para a próxima festa do Oscar. Os antigos acreditavam que os sonhos profetizavam os acontecimentos. A partir da invenção do cinema essa tarefa ficou para os roteiristas que se esmeram na criação de superinimigos fantásticos e catástrofes criticadas como inverossímeis. Talvez seja a hora de reconhecer que os produtores de filmes estavam melhor sintonizados com as possibilidades do presente do que a crítica especializada. Nos finais convencionais das películas, os malvados encontram seu castigo e as catástrofes cedem lugar a edificantes manhãs de fraternidade. Mocinho e mocinha se beijam selando o felizes para sempre para que os espectadores possam dormir em paz.

Há alguns anos, Enzensberger escreveu em Perspectivas de guerra civil que os conflitos bélicos acontecem cada vez menos entre Estados e mais entre tribos ou grupos dentro do Megaestado global no qual vivemos. O Estado Global descarta a proteção social e o direito de todos participarem das benesses das conquistas tecnológicas. Privilegia a especulação financeira e a maximização dos lucros. Os heróis dessa sociedade em rede são os executivos da General Electric, da Toyota ou da IBM que tiveram a coragem de colocar na rua milhares de chefes de família para melhorar as performances das suas empresas.

Essa ofensiva terrorista de tamanho e características até agora desconhecidos, não pode ser imputada a somente um grupo reduzido de fanáticos. Por trás disso existe o dinheiro e o apoio de uma importante infra-estrutura. Mas, para que existam pilotos suicidas e criminosos lunáticos capazes de cometer uma agressão tão selvagem sem se importar com a própria vida, é preciso a existência de causas para dar origem a tanto ódio. As imagens difundidas pela televisão de um punhado de crianças palestinas aplaudindo e festejando a derrubada das Torres Gêmeas de Nova York são conseqüência de uma política baseada no enfrentamento entre povos e o desprezo aos direitos humanos não só no Oriente Médio como em muitas latitudes do Planeta. É sobre esse triunfo do ódio, ancorado muitas vezes no fundamentalismo religioso e ideológico que os deserdados da terra encontram o melhor campo de ação. Para os que nada têm a perder porque já perderam tudo, só resta consolidar a violência como a única atitude possível nas relações entre os homens.

O século XX foi inaugurado com a última guerra romântica da história, aquela em que os homens defendiam sua pátria a ponta de baionetas e no corpo a corpo das trincheiras na Europa. O século XXI abre-se sob o signo contraditório de um vocábulo tão manuseado e pouco sutil como o da globalização. A falta de diálogo racional entre os líderes dos países desenvolvidos e o egoísmo cego dos que detêm o poder econômico só fizeram por aumentar o abismo entre as nações ricas e as nações pobres. O pensador francês Edgar Morin recentemente pôs o dedo na ferida ao assinalar que, em realidade, a globalização alcança a todos os habitantes do Planeta, ainda que a alguns como vítimas e a outros como verdugos. Em termos mais práticos adverte que, se os ricos quiserem desfrutar o conforto, a boa comida e o luxo que o dinheiro pode proporcionar, terão primeiro que alavancar os mais pobres. Cercas eletrificadas, cães de guarda ou mísseis teleguiados serão impotentes para segurar 3 bilhões de pessoas que passam fome no mundo.

O presidente norte-americano, George Bush, poderá passar à história como estadista ou simplesmente como um Tartufo, aquele personagem demagogo de Molière. Vingança pode ser a palavra do momento para um povo humilhado diante de tanta infâmia. Mas o povo americano precisa ser liderado a dar uma demonstração de humanismo capaz de ajudar na retomada do caminho da cooperação e da solidariedade entre as nações. Este o único antídoto possível contra o ódio. Para que nunca mais vejamos crianças ou adultos celebrando o assassinato de milhares de inocentes.

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