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Pacs faz aumentar procura nos núcleos

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 7 min

Consciente de que prevenir doenças é melhor do que curá-las, população assistida pelos agentes comunitários está recorrendo muito mais aos exames preventivos e ao acompanhamento

Além da satisfação demonstrada pelos assistidos dos programas-piloto de agentes comunitários, outros importantes medidores de resultados são os núcleos de saúde que atendem à população-alvo. As unidades do Parque Jaraguá e Jardim Godoy nunca tiveram tanta procura como depois que os agentes passaram a fazer as visitas domiciliares. Os números não são precisos, mas os chefes dos núcleos falam que o movimento triplicou.

A unidade do Jaraguá, por exemplo, costumava receber uma média diária de 350 pessoas, mas, a partir da ação dos agentes, os atendimentos diários saltaram para a casa dos 1.000. Anair dos Santos Freitas, chefe do núcleo e supervisora dos agentes (no caso do Jaraguá, são todas mulheres), afirma que a resposta da população chegou a espantar. A demanda cresceu tanto que a dilatação no horário de atendimento foi imprescindível. Hoje, praticamente todas as gestantes do bairro fazem acompanhamento conosco e quase não há mais desnutridos. Antes, tínhamos 60 casos de desnutrição, mas agora só são cinco e, vale dizer, em fase de total recuperação. Isso é muito estimulante, comemora.

O Departamento de Planejamento, Avaliação e Controle da Secretaria Municipal de Saúde, responsável pela coordenação do programa dos agentes, confirma os resultados positivos. Em um ano, conseguimos, por exemplo, reduzir para zero o índice de nascituros abaixo do peso. Também aumentamos a freqüência das gestantes no pré-natal; hoje, acompanhamos 100% das grávidas do Godoy e 95% das do Jaraguá. Os resultados também são animadores em relação ao índice de desnutrição e ao acompanhamento das pessoas portadores de diabetes e hipertensão, doenças que invariavelmente evoluem para casos mais graves, situou Solange Nardo Marques Cardoso, coordenadora do programa, que também conta com a supervisão direta de Margarete Biondo, diretora da Divisão de Núcleos, e Cecília Sgavioli.

Ações

O aumento da procura pelos núcleos de saúde tem relação direta com a conscientização das pessoas sobre a importância da prevenção. Na medida em que passaram a confiar nos agentes de saúde, a população hipertensa e diabética, por exemplo, parou de negligenciar a necessidade dos exames periódicos. É como se eles recobrassem a vontade de viver, e de viver bem, com qualidade, resume Paulo Roberto Abiuzzi, enfermeiro-chefe do núcleo de saúde do Jardim Godoy.

Foi o trabalho dos agentes comunitários, por sinal, que possibilitou ações efetivas de combate a um dos maiores problemas do bairro: a solidão das pessoas de idade. Segundo Abiuzzi, ninguém sabia que o Godoy abrigava um número tão grande de pessoas idosas e, não raramente, solitárias. Segundo nossos agentes, essas pessoas se queixavam de tristeza, da vida monótona. Foi aí que resolvemos agir, promovendo oficinas de artes plásticas. Semanalmente, são ministradas aulas de pintura em tela e tecido, tapeçaria e tricô. Conseguimos o apoio da Igreja Católica do bairro, que se integrou ao projeto cedendo o salão de festas para as atividades. Desde então, sentimos que a saúde emocional e psicológica dos moradores melhorou muito, testemunhou.

Outra importante conquista do programa foi a redução do depósito de lixo em terrenos baldios, um problema que acarretava o aparecimento de moscas e insetos peçonhentos, comprometendo diretamente a saúde dos moradores. Tivemos vários casos de gente picada por escorpiões e de pacientes com miíase (berne), mas isso hoje já não acontece. Tudo graças à equipe dos agentes comunitários, que elaborou um teatro para ser apresentado nas Emeis e creches do bairro. A educação das crianças foi fundamental para a mudança de comportamento dos pais em relação ao lixo, pontuou o enfermeiro-chefe.

Verminose e Gravidez precoce

No Parque Jaraguá, os casos de gravidez precoce e verminose infantil são os problemas mais graves identificados pelas agentes comunitárias (são todas mulheres). A primeira é a mais preocupante, pois atinge meninas que mal entraram na adolescência, ou seja, sem estrutura emocional, física e financeira para a maternidade. No caso da verminose, o problema é decorrente da falta de higiene dentro das residências e da própria ausência das mães, que são obrigadas a trabalhar fora para reforçar o orçamento.

Há mais de um ano se relacionando com os problemas, as agentes perceberam que o diálogo não basta por si só; é preciso chocar. E é isso que elas vêm fazendo nos últimos meses em busca de resultados. Às mães, por exemplo, elas mostram os efeitos dos vermes no organismo, que podem ser letais quando não tratados adequadamente e com seriedade. Para o combate à sexualidade precoce, as agentes têm promovido dramatizações e palestras nas escolas, nas quais o principal enfoque vem sendo as doenças sexualmente transmissíveis e os efeitos dos abortos provocados. Na semana que se passou, as orientações foram dadas aos alunos da escola Ayrton Busch.

Apenas 5,9% da população é atendida

Embora exaustivamente divulgado - e prometido - durante a última campanha eleitoral municipal como a solução para os problemas da saúde, o Programa de Saúde da Família (PSF) está longe de contemplar Bauru. A cidade conta, sim, com dois pilotos de um programa que é um braço do PSF, chamado de Programa de Agentes Comunitários de Saúde (Pacs), atendendo à população residente no Parque Jaraguá e no Jardim Godoy.

Nos dois bairros, 18.568 pessoas foram cadastradas, somando 5,9% da população bauruense. Um índice pequeno que pode crescer um pouco a partir do ano que vem, quando a Secretaria Municipal de Saúde pretende implementar o programa na Pousada da Esperança. Lá, no entanto, o projeto deve ser adotado em sua plenitude, ou seja, com equipes de saúde da família também.

Voltados à saúde preventiva e especialmente direcionados à camada mais pobre, os programas atenderiam às necessidades de uma vasta gama de bairros bauruenses localizados na periferia e que enfrentam problemas estruturais graves. A escolha do Jaraguá e Jardim Godoy não obedeceu critérios de prioridade, ou seja, qualquer outra localidade poderia estar usufruindo dos benefícios que começam a despontar com a iniciativa. Quando fizemos a escolha, sabíamos que na região do Jaraguá havia uma demanda muito grande no setor de saúde, particularmente porque aquela região cresceu desproporcionalmente à oferta de aparelhos. Queríamos também trabalhar com uma área que abrigasse favelados. Já o Godoy foi escolhido por apresentar uma situação diferente. Nossa intenção era trabalhar duas realidades distintas: uma sem estrutura e outra mais estruturada. O Godoy tinha esse perfil e, como iríamos atuar em parceria com o Núcleo de Saúde, optamos por um que tivesse uma unidade exemplar. O núcleo do Godoy já tinha experiências comunitárias positivas. Não houve, porém, nenhum critério mais rígido para a escolha, disse a titular da Saúde em Bauru, Eliane Fetter Telles Nunes.

Em média, cada um dos 22 agentes comunitários que atuam hoje - mais quatro estão em fase de contratação para trabalhar no Parque Jaraguá - atende mais de 840 pessoas, sendo fixado o mínimo de 150 famílias para cada um. Para que a cidade inteira fosse atendida, seriam necessários pelo menos mais 350 agentes e, conseqüentemente, uma quantidade de recursos muito maior do que a disponibilizada atualmente. Hoje, ambos os programas consomem R$ 16 mil mensais, dos quais 75% são bancados pela municipalidade - o restante vem do Governo Federal.

Mas como já antecipou a secretária na edição do JC nos Bairros da semana passada, não é intenção do poder público municipal implantar o Pacs ou o PSF em toda a cidade. As chances de êxito da iniciativa são maiores nos bairros mais carentes, onde a demanda reprimida é alta e a assistência de saúde, deficitária. A população melhor servida talvez não seja o público ideal de programas dessa natureza, até porque é mais conscientizada quanto à importância da prevenção. O que se procura para Bauru é um modelo misto, que alcance a harmonia entre o sistema já existente e a proposta da saúde da família, que, ao contrário do tratamento convencional, sai em busca dos pacientes.

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