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De Patrícia Abravanel a WTC

(*) Kleber Boelter
| Tempo de leitura: 2 min

Muito já se falou, se escreveu e se mostrou nas telas das TVs sobre o caso Patrícia Abravanel e seu famoso pai. Na verdade, esse episódio foi espremido ao ponto da exaustão, como de resto é praxe numa mídia que sobrevive cada vez mais do sensacionalismo. A exploração desse seqüestro, em detrimento de tantos outros que estavam acontecendo no mesmo momento, foi centrada no fato de que envolvia uma das figuras mais poderosas e carismáticas da mídia nacional, Sílvio Santos, e elevada a uma potência inacreditável pela audácia de Fernando Pinto, o ex-crente da seita evangélica Assembléia de Deus envolvido no crime.

Mas foi exatamente o lance cinematográfico do retorno do seqüestrador à cena do crime, tomando como refém, ao invés da filha Patrícia, o próprio Sílvio Santos, que acabou ofuscando uma faceta desse episódio que não pode ser ignorada. Estou me referindo à vitimização do criminoso. Uma onda perversa de inversão dos padrões morais de nossa sociedade vem sistematicamente relativizando a aplicação da lei.

A defesa enfática feita por Patrícia Abravanel de seus seqüestradores invocando a pobreza e outras mazelas sociais, a ponto de colocar o próprio pai no papel de responsável pelo crime, não caracteriza sintomas da Síndrome de Estocolmo. Ela é, isso sim, uma espécie de reflexo condicionado de uma nova e distorcida escala de valores que foi entronizada em grande parcela do mundo ocidental.

Por esse critério de justiça, o crime cometido em favor de uma determinada causa ou classe de excluídos, é justificável, mesmo que seja seqüestro ou morte. Já o crime praticado contra é execrado de forma escandalosa e alardeado não como uma infração de um indivíduo, mas como um câncer comum a todo um grupo, a classe dos contra. Em prol da causa, enaltecem-se os motivos do bandido e ignora-se covardemente o sofrimento da vítima. É nessa esteira que seqüestros de aviões por fundamentalistas islâmicos, fuzilamento de adversários políticos para salvar la revolución, invasões de propriedades, incêndio em pesquisas científicas, saque de lojas e supermercados e depredação de lanchonetes, além de não serem punidos pela aplicação da lei vigente, ainda transformam seu autor numa espécie de herói popular.

Há um claro alerta nesse comportamento que busca soluções para os problemas mundiais destruindo o arcabouço legal, pilar de sustentação dos Estados democráticos. As revoluções são parte da história da humanidade e, feitas contra regimes ditatoriais, muitas resultaram em novos governos democráticos. Mas, feitas num sistema de liberdade que, em última análise, as viabiliza, a primeira vítima a tombar é a própria liberdade. E o custo em sangue de inocentes é sempre maior do que as conquistas.

Pois eu estava com o mouse apontado para o ícone enviar para remeter este artigo quando o primeiro Boeing chocou-se contra uma das torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. A estupefação e incredulidade me fazem concluir que as coisas estão muito piores do que eu imaginava até um parágrafo atrás.

(*) O autor, Kleber Boelter, é graduado em engenharia.

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