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Adolescentes são 34% das gestantes

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Pesquisa aponta que 98% das adolescentes não planejam a gravidez e que aproximadamente 30% delas tentam o aborto.

O último relatório trimestral da Secretaria Municipal de Saúde de Bauru (SMS) aponta que 33,7% das gestantes matriculadas no Programa de Pré-Natal da cidade são adolescentes. Isso significa que um terço das mulheres grávidas registradas pela saúde pública tem menos de 20 anos de idade. Estima-se que 25% da população do Estado de São Paulo seja de adolescentes. Para o médico ginecologista Antonio Monteiro Fernandes Júnior, são índices alarmantes, que devem ser encarados como um problema de saúde pública.

Em alguns setores, chega a ser até uma endemia, salientou o médico. Endemia é o nome que se dá ao registro de um mesmo problema numa grande parcela da população de uma região específica. Por exemplo, quando um percentual elevado da população de uma cidade inteira é atingida pela dengue, fala-se em epidemia. Se a doença, porém, atinge várias pessoas em um único bairro, fala-se em endemia.

De acordo com o relatório da SMS, em algumas unidades de saúde de Bauru, o número de gestantes adolescentes chega a ultrapassar o percentual de gestantes adultas (confira no boxe). Fernandes Jr. atribui o problema à nossa cultura depravada e incompetente. Na opinião do médico, a reversão deste quadro depende de uma ação conjunta da família, dos professores e dos profissionais de saúde.

Eu defendo a necessidade de se oferecer orientação para pais e responsáveis sobre o tema. Apregôo que seja matéria obrigatória nas escolas. E que sejam criados programas cada vez mais intensivos na medicina preventiva para que se evite a gravidez não desejada, com enfermeiros e médicos empenhados em passar orientações sobre métodos anticoncepcionais e planejamento familiar, destacou o médico.

Conseqüências

Questionado a respeito das conseqüências da gravidez precoce, Fernandes Jr. apontou diversos problemas - físicos, emocionais e sociais. O médico explicou que a idade ideal para a reprodução, na mulher, vai entre os 18 e 25 anos. Antes disso, o organismo pode estar imaturo, predispondo a adolescente a complicações gestacionais, como a prematuridade e a eclâmpsia (quadro em que a gestante apresenta aumento da pressão arterial, que pode resultar em convulsões, coma e morte).

O grande problema é que, por desinformação ou por esconder a gravidez, a menina acaba procurando o pré-natal tardiamente e, num grande número de casos, ela chega ao consultório com patologias já instaladas, ressaltou.

Outro problema apontado pelo médico é que a maioria das adolescentes grávidas pertence a classes sociais de baixo poder aquisitivo. São meninas que têm alimentação desbalanceada, que apresentam quadro anêmico e, muitas vezes, que vêm com vícios paralelos, como o uso de drogas, o tabagismo ou o consumo de bebidas alcoólicas. Tudo isso resulta em bebês nascidos prematuramente e com baixo peso, disse.

Fernandes Jr. contou que a gestante mais jovem que atendeu tinha 11 anos de idade quando engravidou. Ela não sabia nem o que estava acontecendo. Ela iniciou o pré-natal no sexto mês da gravidez. Vinha toda suja, não se alimentava direito, não tomava as vitaminas, relutou em fazer os exames, entrou em depressão. Ela tinha 12 anos quando a criança nasceu. O parto foi prematuro, o bebê nasceu com baixo peso e ficou um mês internado na maternidade, lembrou.

Do ponto de vista social, o médico salientou que 99% das adolescentes grávidas são dependentes economicamente das famílias. O bebê acaba sendo cuidado pelas avós e a grande maioria das adolescentes abandona os estudos. Cerca de 95% das jovens são abandonadas pelo pai do bebê até dois anos depois do nascimento. E, o que é pior, o ciclo vai se repetir com os filhos destas adolescentes por total desinformação familiar, completou.

Aborto

Em levantamentos recentes, Fernandes Jr. observou que 98% das gestantes adolescentes não planejam a gravidez e que aproximadamente 30% delas tentam abortar. O procedimento acaba se complicando e eleva os índices de mortalidade. Na maioria das vezes, quando não morre, a jovem perde o útero por processos infecciosos, afirmou.

De acordo com um estudo apresentado no 5.º Congresso Brasileiro e Paulista de Saúde Coletiva, realizado em 1997, quase 20% das mulheres que tiveram complicações com aborto clandestino e foram internadas em hospitais públicos da cidade de São Paulo tinham 19 anos ou menos. Em 1994, entre as oito mulheres que morreram por complicações de aborto na Capital paulista, três tinham 17 anos ou menos e cursavam a 7.ª série. Todas eram católicas, moravam na periferia e suas famílias não sabiam que estavam grávidas.

Estudos indicam que o número de abortos praticados corresponderia a cerca de 20% do total de nascimentos. Considerando-se a média anual de nascimentos, conclui-se que cerca de 400 mil abortos seriam provocados anualmente só na cidade de São Paulo (Jornal da Cidade, 31/08/97).

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