Geral

De classe média alta, jornalista e com experiências internacionais, Marcelo Netto Rodrigues, 27 anos, deixou sua carreira e se juntou ao movimento.

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 7 min

Jornalista de 27 anos larga tudo, se define como um cristão revolucionário e encontra no MST seu ideal de vida.

Jovem culto de 27 anos de idade, filho da classe média alta, jornalista poliglota e com experiências internacionais. Seria apenas mais um perfil de um bom profissional graduado, com formação suficiente para ganhar um salário confortante. A diferença, no entanto, está no ideal de vida. No dia 1 de abril do ano passado, Marcelo Netto Rodrigues decidiu largar para trás as mentiras produzidas pelo mundo para abraçar as verdades geradas por uma causa: a do MST.

Numa decisão tomada de lampejo, o jornalista abandonou a redação de um grande jornal de São Paulo, se dirigiu para o terminal rodoviário da Barra Funda e embarcou num ônibus para Iaras, região de Avaré. Destino final: o assentamento do MST. Ele estava decidido a dar uma guinada radical na sua vida.

Abandonado pelo ônibus à beira da estrada, já na região de Iaras, Netto iniciou a busca pelo acampamento do MST. Andei 20 quilômetros a pé. Não tinha água, comida, não tinha fósforo, não tinha nada. E não passava nenhum carro. Era um sábado. Comecei a entrar em desespero porque eu andava e não via nada do assentamento, conta.

Cansado de uma viagem noturna e de uma caminhada de 20 quilômetros, ele finalmente avista os barracos. Cheguei e ninguém me conhecia, embora tivesse avisado uma pessoa da secretaria estadual do movimento. Fiquei dois dias - sábado e domingo - na casa de uma senhora. Olhei, vi as contradições e decidi que voltaria. Voltei em definitivo, após um mês. Cheguei e perguntei a eles: onde eu faço meu barraco? Eles não acreditaram. Certamente devem ter pensado que eu era mais um burguesinho em busca de aventuras.

Filho de padre

O jornalista nasceu em Santos. Sou filho de um pai padre e de uma mãe quase freira. Meu pai foi padre durante 19 anos na região de Santos. Acabou conhecendo minha mãe no pensionato em que ela morava, relata. Caçula, Netto começou cedo suas andanças pelo mundo.

Aos 17 anos, participou de um intercâmbio cultural reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) e foi morar em Washington, nos Estados Unidos. Esse intercâmbio surgiu na 1.ª Guerra Mundial como um grupo de voluntários de motoristas de ambulâncias que socorriam feridos. Participaram também da 2.ª Guerra e quando ela acaba resolvem implantar o intercâmbio.

Na Capital norte-americana, ele morou com uma família judia. Fui para os Estados Unidos com a consciência crítica. Sabia do mal que esse país já fazia à América Latina. Estudei numa escola que tinha 70 nacionalidades representadas. Lá, tive contato com representantes desses 70 países, desde o Zaire até a República Tcheca.

No país que é reconhecido mundialmente pela qualidade de vida oferecida a seus cidadãos, Netto diz que viu a pobreza de perto. Dei comida para mendigos a duas quadras da Casa Branca com a bandeira norte-americana tremulando, lembra.

A experiência nos Estados Unidos reforçou a consciência crítica do santista. De volta ao Brasil, em 1992, decide fazer jornalismo na Unisantos. Mas continuei dando orientação para estrangeiros que chegassem ao Brasil, através do intercâmbio. Também orientei brasileiros com destino ao exterior para que eles pudessem explicar a nossa realidade lá fora.

Eldorado dos Carajás

A primeira relação do jornalista com o MST ocorreu de maneira indireta. Assim como o País inteiro, ele ficou chocado com o massacre de Eldorado dos Carajás, quando dezenas de militantes do movimento morreram, após confronto com a Polícia Militar do Pará.

Foi minha primeira posição, na prática, em defesa do MST. Organizei uma mobilização estudantil em Santos. Nada político. Pedimos a reforma agrária e a punição as pessoas envolvidas no ato. Cerca de 350 pessoas participaram da mobilização.

Depois de formado, ele começa a escrever para um jornal esloveno e inicia sua carreira profissional, interrompida por um padre espanhol, que precisa viajar a Espanha e levar, a tiracolo, um motorista, já que não era motorista. Isso era 1997. Fui a Espanha. Passei por Portugal, França e Itália. O padre voltou para o Brasil e eu decidi ficar na Europa para conhecer as famílias que eu havia ajudado no Brasil no trabalho com crianças de rua.

Netto rodou a Europa Ocidental. Só deixou de conhecer dois países: a Finlândia e a Islândia. Fiquei na Europa dois anos. A experiência serviu para me aperfeiçoar em línguas. Reforçei o inglês, aprendi mais um pouco de alemão, espanhol, italiano e um conhecimento básico de sueco, dinamarquês e norueguês.

Mas, na verdade, ele estava mesmo curioso em conhecer a realidade européia. Discerni os pontos positivos da Europa em relação aos Estados Unidos. Se colocarmos na balança, a Europa é muito melhor do que os Estados Unidos em questão social. A minha idéia de ir para a Europa era comprovar isso para que eu pudesse lutar com mais força no Brasil.

Sou um cristão revolucionário

Eu sou um cristão revolucionário nos pensamentos brasileiros. Não é mal nenhum você querer o bem do seu próprio país. O jornalista Marcelo Netto Rodrigues tem uma convicção: o Brasil só vai mudar em direção ao padrão de vida do primeiro mundo quando a sociedade entender o significado do MST no País.

Para ele, o movimento quer o bem do Brasil e até mesmo seus inimigos têm consciência de sua importância. Até o Fernando Henrique (presidente), há duas semanas, agradeceu o MST, embora tenha dito que a reforma agrária já foi feita, o que é uma ironia. Temos 5 milhões de famílias sem terra no País contra 400 mil assentadas.

Netto incorpora um físico que lembra muito o líder revolucionário Che Guevara. Seus traços fisionômicos, reforçados pelos cabelos compridos e barba, incrementam ainda mais a imaginação de quem conversa com ele. Mas a boina, adereço inseparável do argentino, não se faz presente no cotidiano do jornalista.

Quando chegou no acampamento de Iaras, o cristão revolucionário propôs ao comando a formação de uma classe de adultos analfabetos para o aprendizado de inglês. Era o que eu tinha mais facilidade. Eu não me achava capacitado para alfabetizar uma pessoa em português.

Ele diz que o inglês não é propriedade de ninguém e que os analfabetos também têm o direito de aprender a língua. Dei aula de inglês por três meses para dez alunos. Depois, vi a necessidade da alfabetização. Comecei através do método Paulo Freire. Foram quatro meses de aulas para 20 alunos.

Atualmente, o jornalista desenvolve um outro tipo de trabalho no MST. Netto chegou a morar por três meses em Bauru, no núcleo Fortunato Rocha Lima. Ainda temos pessoas do movimento no Fortunato desenvolvendo trabalho. Agora eu estou em Avaré com mais dois companheiros.

Seu trabalho é de base. Ele percorre os bairros da periferia da cidade à procura de pessoas interessadas em ingressar no MST e conquistar seu pedaço de terra. Vamos de bairro em bairro, de casa em casa, conversar com a dona Maria e com o seu José, geralmente analfabetos, mas que conhecem muito mais de terra do que qualquer fazendeiro que nunca pôs sua mão numa teta de vaca, nunca cuidou de um porco.

O jornalista defende que o MST seja aceito pela sociedade para aliviar as tensões urbanas. Se a sociedade não abaixar a guarda de toda o estereótipo negativo que a mídia coloca contra o movimento, essa sociedade brasileira nunca vai atingir o patamar de humanidade e dignidade que existe, por exemplo, na Europa, nas devidas proporções.

Embasado na informação de que o Brasil é o quinto maior produtor de alimentos do mundo (o primeiro em frutas), Netto sonha com um País sem fome. O Brasil tem 850 milhões de hectares, dos quais 500 milhões são agricultáveis, mas só se produz em 36 milhões.

Devidamente adaptado ao estilo do MST, sem arrependimento da decisão que tomou em abril do ano passado e sem passar apertos com a falta de conforto, ele afirma, com convicção, que não vai abandonar o ideal de vida que optou.

Eu sou do movimento. Se for necessário, vou para o Rio Grande do Sul, para Alagoas, para o Maranhão, para onde me mandarem. Se eu voltei para o Brasil, voltei pensando num Brasil diferente, com uma sociedade muito mais justa e igualitária. No Brasil, hoje, para mim não existe outro lugar para morar, para conviver com outras pessoas.

Comentários

Comentários