Em nome da conveniência ou oportunidade de uma eleição fácil, partidos antes minoritários incham, outros encolhem.
A proximidade do dia 5 de outubro põe em curso uma verdadeira revolução política em todo País. Motivados pelo prazo previsto por lei, de filiação para as eleições de 2002, políticos de todas as legendas colocam ideologias e convicções à parte e protagonizam uma ruidosa dança de cadeiras em todos os Estados.
Levantamento mostra que, até sexta-feira, cerca de um terço (151) dos 513 deputados federais eleitos já haviam trocado pelo menos uma vez de partido, desde janeiro de 1999. Quase metade das mudanças ocorreu neste ano. No Senado, mais de 15% dos 81 senadores já mudou de sigla.
Entre os Estados, o campeão é Rondônia, onde metade dos 24 deputados estaduais abandonou a sigla pela qual foram eleitos. Em Alagoas, apenas 8 dos 27 parlamentares não mudaram de partido. No Paraná, Acre, Amapá e Maranhão, em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Pernambuco, além da Paraíba, mais de um terço dos deputados estaduais adotaram a prática. Em São Paulo, 30% dos 94 deputados estaduais já trocaram de legenda. Alguns por três vezes, em dois anos.
As mudanças ganharão ritmo acelerado nesta semana, com a promessa de lances rumorosos. O principal passa pelas negociações envolvendo o PTB e o governador de Santa Catarina, Espiridião Amin, e sua mulher, Ângela, prefeita de Florianópolis. Ambos negam a intenção de sair do PPB, mas demonstram publicamente insatisfação com as constantes acusações de corrupção contra o ex-prefeito Paulo Maluf.
Como conseqüência do racha, depois das eleições do Senado, o PMDB gaúcho deve sofrer baixas significativas. Ironicamente, há ainda expectativa sobre o destino do senador Sérgio Machado, que deixa o PSDB provavelmente a caminho do PMDB, onde deverá disputar o governo do Ceará.
Machado, como relator da Comissão Especial da Reforma Político-Partidária no Senado, tratou da reforma política que prevê, entre outras coisas, a fidelidade partidária. Não me sinto desconfortável em mudar de partido. Me sinto mal é com a situação dos partidos no Brasil, transformados em ficção.
Recorde
O recordista nacional, deputado federal João Caldas (AL), mudou de partido sete vezes. Em pouco mais de dois anos, passou pelo PMN, PL (três vezes), PST e PTB, até fixar-se no PL. Seu homônimo carioca, João Mendes, também se destacou na atual legislatura. Um dia depois de tomar posse, saiu pela manhã do PMDB, partido pelo qual se elegera, e foi para o PPB. À tarde, sem explicações, voltou ao PMDB.
De tão freqüente, o troca-troca partidário já pode ser considerado como praxe na política nacional. As mudanças de legenda por um terço dos parlamentares mantêm-se desde a Constituição de 1988.
Em nome da conveniência ou da oportunidade de uma eleição mais fácil, partidos antes minoritários incham, outros encolhem. No Rio, com a ida do governador Anthony Garotinho (que iniciou a vida política no PDT) para o PSB, os socialistas experimentaram o maior crescimento de sua história. De três deputados estaduais eleitos, o partido tem hoje a segunda maior bancada da Assembléia, com 17 integrantes. Em Minas, o PMDB, que em 1998 contava com nove deputados, tem 15.
Ilegitimidade
O cientista político do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Jairo Nicolau, um dos maiores especialistas em partidos no Brasil, observa que o principal problema das mudanças é a alteração completa do quadro de forças das siglas definidas pelas eleições. As trocas produzem a ilegitimidade do processo eleitoral, afirma.
Segundo Nicolau, o Brasil é o único país no mundo que apresenta tal oscilação partidária, sem eleição. O problema é que as pesquisas mostram, e os políticos sabem, que o eleitor não se importa com isso. A reforma política está em discussão no Congresso desde 1995.
Infiéis
Os campeões em trocas de partido são a favor da fidelidade partidária. Pelo menos no discurso. Se não a exercem, é por problemas que vão da incompreensão dos eventuais aliados à perseguição por seus ideais. O argumento mais usado, porém, é de que foram eleitos para representar o povo, não siglas.
Sou totalmente a favor da fidelidade, afirma Francisco Rossi, provável candidato do PL ao governo de São Paulo, que passou pelo PCN, PTB, PDT e PPB. A troca é um instrumento para viabilizar minha candidatura, diz. Com base em sua quase eleição como governador, ele considera todas as trocas muito positivas. Pelo visto, o eleitor gostou.