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Ossos de obelisco intrigam Macatuba

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 7 min

Os fragmentos devem ser mandados para análise. Procedência ainda é desconhecida da coordenadoria da Cultura.

Macatuba - Um dos itens mais intrigantes encontrado dentro do obelisco de Macatuba, em 7 de setembro último, não foram os documentos históricos mas sim alguns ossos, que ainda não se sabe a que tipo de animal pertencem. Segundo a coordenadora da Cultura Marina Aparecida Ronque, os fragmentos devem ser encaminhados para análise em algum local especializado em Arqueologia. Ela acredita que esse suposto animal tenha provocado inclusive a deterioração dos demais objetos e documentos que poderiam estar dentro do baú, guardado no interior do obelisco desde 1922.

Acatando pedido feito pelas famílias dos fundadores de Macatuba, o prefeito José Gino Pereira Neto (PDT), o Zezo, decidiu abrir o obelisco no último 7 de setembro. Os parentes dos fundadores sustentavam que seus antepassados haviam colocado um baú dentro do obelisco, e que dentro desse baú estavam alguns objetos pessoais e documentos históricos da cidade e da época.

Até então, acreditávamos, aqui na cidade, que o obelisco havia sido construído em comemoração ao centenário da Independência, em 1922, disse Marina. Eu só tomei conhecimento de que tinha documentos guardados lá dentro, no início deste ano, quando parentes dos fundadores do município começaram um movimento pedindo ao prefeito para que o monumento fosse aberto e que os documentos fossem retirados, continuou a coordenadora da Cultura.

Segundo ela, o pedido de abertura do obelisco foi feito por meio de ofício ao prefeito Zezo. Marina conta ainda que procurou a Delegacia Regional da Cultura, em Bauru, em busca de apoio.

De acordo com a coordenadora da Cultura de Macatuba, as famílias dos fundadores queriam que o obelisco fosse aberto no centenário do município, comemorado ano passado. Não sei o motivo, mas o desejo não foi atendido. As famílias continuaram insistindo e o prefeito atual assumiu o compromisso em fazer a abertura, disse.

Marina relata que quando o obelisco foi aberto acharam muita formiga e cupim lá dentro. Com isso, nós ficamos um pouco apreensivos; pensamos que não íamos encontrar mais nada. Segundo o relato da família, tudo estaria guardado dentro de um baú. Mas tudo estava muito deteriorado, contou. Não tinha baú nenhum, mas acreditamos que ele existia, porque encontramos muita madeira e dobradiças de metal. Com o tempo e com a ação dos cupins, o baú pode ter sido destruído, acredita ela.

Depois da frustração inicial, a esperança em encontrar pelo menos algum documento histórico ficou restrita à abertura de um tubo de metal, que foi encontrado no interior do obelisco e cuja tampa estava soldada. O tubo só foi aberto uma semana depois, em um local mais apropriado, longe do sol e do vento. Foi uma grande surpresa, relata Marina.

Dentro do tubo de metal estava, entre outras coisas, a ata da inauguração do obelisco. Foi por isso que nós não encontramos nenhum documento oficial da criação do monumento. O documento oficial, que era a ata, estava dentro do tubo. A ata é do dia 7 de setembro de 1922 e nela consta o antigo nome da cidade que, na época, era distrito de Bocaiuva.

Junto com a ata, dentro do tubo, estavam dois jornais. Um deles é o Correio de Botucatu e o outro é o Jornal do Comércio, edição de São Paulo. Havia também um convite. Nele as autoridades locais informavam a inauguração do obelisco, em homenagem ao centenário da Independência, e convidava as autoridades da região para participar da solenidade.

Outro obelisco

Agora que o obelisco já foi aberto, a Prefeitura está pensando em reformá-lo e colocar em seu interior objetos e documentos atuais. Para tanto, Marina já imagina mobilizar os moradores da cidade para que eles decidam o que deve ser deixado para a posteridade. Nós vamos criar um concurso no município, em que a população vai sugerir o que pode ser colocado dentro do obelisco. Eu acho que a população toda precisa ser consultada. Macatuba não é uma cidade grande, então dá para fazer esse processo, adiantou.

Mesmo antes de saber exatamente o que deve ser colocado no obelisco, Marina garante a presença de pelo menos um documento. Provavelmente, uma cópia da ata seja colocada. Mas desta vez, ela disse que não irá colocar a original como foi feito em 1922, mas uma cópia da ata, assinada pelo prefeito. Aliás, essa idéia tem provocado emoções no prefeito. Só de saber que daqui a 100 anos uma nova geração estará lendo os documentos assinados por ele, deixa-o exultante. Saber que as pessoas vão abrir novamente o obelisco e o meu nome vai estar lá no documento, é uma emoção!, comemora Zezo.

Desta vez, o revestimento da caixa com os documentos e objetos receberá uma atenção toda especial. Marina, formada em História, adianta que a caixa vai ser feita de fórmica, revestida de isopor e uma tinta impermeabilizante. Em seu interior, ela vai ter uma chapa de aço inox. Todo os objetos serão embalados a vácuo, antes de ser guardado dentro da caixa.

Relíquias do obelisco

1 moeda de 100 réis

1 negativo (chapa) deteriorado de fotografia

1 lâmpada e vários pedaços de outras lâmpadas

2 dobradiças de metal

Ossos, provavelmente de animais

1 estilingue

1 tubo de metal com a tampa soldada

Rolhas de cortiça

Tampinhas de garrafa

1 lata (vazia), de vaselina

Segundo o prefeito, museu sai em 4 anos

Macatuba - O prefeito José Gino Pereira Neto (PDT), o Zezo, garantiu que antes do fim de seu atual mandato irá construir um museu em Macatuba. Segundo ele, existe até mesmo um local já pré-definido, mas essa informação estaria sendo mantida em segredo para evitar o que o prefeito classificou de uma certa polêmica.

Na verdade, a gente quer fazer um museu. Eu até tenho um prédio, no centro da cidade, que seria o local ideal. Mas estou mantendo isso em segredo, porque acredito que vai gerar uma certa polêmica. Eu tenho certeza que até o fim do meu mandato o museu será construído.

Zezo acredita que a partir do momento que a cidade contar com um local adequado para guardar documentos e objetos históricos, muitas pessoas vão procurar o museu para entregar as relíquias guardadas em casa. Marina revela também que parentes dos fundadores já teriam manifestado interesse em entregar arquivos pessoais de seus antepassados. Mas antes disso, eles querem ter garantia de que o material será preservado.

Preservar memória não é costume

Para João Francisco Tidei de Lima, 62 anos, coordenador do Centro de Memória Regional da Unesp e da Rede Ferroviária Federal, a preservação de documentos e objetos históricos não é um costume generalizado entre brasileiros. Seria bom se fosse, porque é um recurso a mais para preservar nossa memória

Em sua opinião, iniciativas como a de Jaú e de Macatuba, que guardaram alguns documentos e objetos em obeliscos, são muito importantes. Além dos jornais da época, pode-se colocar moedas, selos, até panfletos e propaganda. Ou seja, tudo aquilo que dê conta do dia-a-dia de um povo, de uma comunidade, sugeriu. No entanto, ele lembra que o Brasil não é um país conhecido pela preservação de sua memória.

No entanto, João Francisco lembra que Jaú e região vive uma realidade diferente daquela vivida na região de Bauru. Jaú é uma cidade histórica, que preservou sua arquitetura. É uma outra realidade, diferente de Bauru. As cidades do lado de lá do rio Tietê (região de Jaú) teve um povoamento diferente das cidades do lado de cá (região de Bauru). É uma outra formação histórica. Jaú é conhecida pelo seu tradicionalismo, é uma cidade extremamente conservadora, que durante muito tempo foi governada por uma espécie de aristocracia do café. Isso a gente não tem deste lado, teorizou João Francisco, que é professor de História.

Eu acredito que esse recurso de construir um monumento e, por meio dele, guardar os testemunhos de um momento na vida de uma comunidade é muito importante, disse o professor, referindo-se às recentes descobertas em obeliscos de Jaú e Macatuba.

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