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Quem estiver sem culpa...

Jorge Boaventura
| Tempo de leitura: 3 min

Passadas as primeiras horas depois do atentado desumano e bárbaro que surpreendeu os EUA e o mundo, surgem e vão aumentando em número, as vozes que se contrapõem ao discurso, inicialmente truculento, em que altas autoridades estadunidenses chegaram ao ponto de falar, em sua ânsia de retaliação, de punir, não apenas pessoas e organizações que lhes dessem apoio na prática do terrorismo insano, como de fazer desaparecer Estados que os abriguem ou protejam. É que, supomos, tal nível de truculência, visivelmente passa a equiparar-se ao dos fanáticos cujos atos desumanos o mundo repudia. Ocorre, porém, que, à medida em que vai passando o tempo, torna-se possível entender com clareza que a paz e a concórdia não têm como instrumentos válidos o ódio cego e o desejo de vingança que o orgulho ferido inspira e alimenta. Isto por um lado; por outro, vai-se impondo a noção de que o desatino e a crueldade praticados, levaram, deliberadamente, à morte, também os seus autores os quais, portanto, estavam desesperados. E esse desespero seria gratuito? A sê-lo, seria necessário que os referidos autores fossem loucos, no sentido clínico da expressão, hipótese incompatível com a tremenda sofisticação técnica levada a cabo nos atos que praticaram.

De outra parte, embora o noticiário veiculado por meia-dúzia de agências internacionais, que nada têm de imparciais, mantenha o assunto em discretíssimo silêncio, é comprovadamente verdadeiro que, dentro dos EUA, integrados por cidadãos americanos, existem numerosas organizações paramilitares intensamente contrárias ao establishment, do que foi amostra o atentado praticado contra a sede do FBI em Ocklahoma, em que morreram quase duzentas pessoas, e cujo autor não era muçulmano, mas o ex-sargento do Exército americano, Timothy McVeigh, condecorado por ato de bravura na guerra do Golfo. O referido autor, preso e condenado à morte, proibiu o seu advogado de impetrar pedido de clemência em seu favor, caminhando para a execução com passo firme e olhando nos olhos as pessoas presentes à cena. E o que ainda menos se difunde, é que o atentado que praticara, fora praticado no dia do aniversário do episódio ocorrido dois anos antes, em que forças do FBI bombardearam e massacraram o que, à época, foi descrito como um grupo de fanáticos religiosos, que possuía um grande arsenal bélico, e resistiu aos agentes que pretendiam penetrar em sua igreja. Obviamente fica pouco clara a razão pela qual um grupo de religiosos americanos, por mais fanáticos que fossem, precisariam ter um arsenal bélico. Também não é de desprezar-se a observação de que, salvo boatos e suposições sobre um outro avião que caiu, depois de ter sido seqüestrado, o fato concreto é que os atentados foram praticados contra o símbolo maior do establishment e do poder militar respectivo e que, através da globalização, vem pisoteando soberanias e escorchando nações pelos quadrantes da Terra, ao mesmo tempo que estimulando costumes fáceis, vícios e corrupção, paralisadores de resistências contra os seus interesses. Os símbolos da nação americana, com os nobres e generosos propósitos, que lhe alicerçaram a grandeza, o Congresso e a Casa Branca, estes não foram atacados.

Na História recente, também o governo, dos EUA, dócil aos interesses do establishment, praticou violências em nosso continente e na Europa. Em passado não tão recentes lançou contra duas cidades abertas japonesas as bombas atômicas que foram ainda mais desumanas do que as barbaridades que o povo americano agora sofreu. Quanto ao irmão siamês britânico, este no séc. XIX, diante do desinteresse chinês pelos manufaturados que pretendia vender-lhes, passou a vender-lhes ópio. E quando o governo de Pequim proibiu o uso da droga pelos seus cidadãos, a Inglaterra declarou-lhe guerra em nome, pasmem, do livre-comércio. Isto em 1839, e o fato é histórico. Haverá algo mais abjeto do que isso? Do que forçar, pelas armas, o uso de drogas por um povo inteiro? Daí, o título destas Reflexões - Quem estiver sem culpa....

No caso presente, o que nos parece merecer atenção é a hipótese de uma colaboração de desesperados extremistas americanos e árabes, geradora de violência que só terminará com a prática da compreensão que conduza à justiça indispensável.

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