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Eu Estive lá: Uma viagem pela fabulosa história do Império Inca

(*) Sílvio Serrano e outros
| Tempo de leitura: 7 min

Saindo de Koricancha, seguimos para a Catedral de Cuzco, fundada em 1536.

Nas laterais da nave, dezenas de quadros com motivos incas e ilustrações de como ocorrera a colonização na visão dos colonizados. Mas o que impressiona nessa igreja é a quantidade de ouro e prata em seu interior, parte do tesouro inca derretido pelos espanhóis e transformado em peças religiosas. De lá seguimos para Saqsaywaman, uma fortaleza, obra prima da arquitetura militar inca.

Acredita-se que sua construção tenha sido iniciada por Pachacutec e que tenha demorado mais de sete décadas para ficar pronta. Trabalharam na obra cerca de 20 mil pessoas.

Com blocos de pedra que chegam a 9 metros de altura, 5 de largura e 4 de espessura, destaca-se uma série de muralhas em forma de ziguezague, com diversos recintos entre muros, torres, portas e canais.

Na praça principal, no dia 24 de junho de cada ano, realiza-se o Inti Raymi para rememorar a festa do sol que os incas celebravam no dia do solstício de inverno. Centenas de pessoas com roupas típicas revivem os antigos rituais incas em louvor ao sol, num impressionante espetáculo de música e dança andina, de grande beleza cênica.

Teminamos o city tour e já era noite. Quando chegamos ao hotel, Susan, a garota da agência que fechamos todos os pacotes, estava a nossa espera.

Meio sem graça, disse que o passeio pelo vale sagrado não poderia ser feito com um guia como tínhamos combinados, porque todos estavam na trilha inca e o único que tinha localizado pediu um preço exorbitante.

Resultado, não tínhamos quem nos acompanhasse pelo roteiro, o que seria frustante, pois sem guia era impossível entender a maioria dos sítios arqueológicos. Depois de muito discutir, Susan prometeu dos dar uma solução para o impasse. No dia seguinte, um veículo veio nos pegar, era um táxi, e nele uma outra funcionária da agência se apresentou, trazendo alguns livros sobre o vale sagrado para consulta.

Ficamos meio putos com a solução que ela nos deu, pois tínhamos pago bem caro pelo passeio, incluindo um guia.

Desistimos de discutir e embarcamos no táxi, rumo ao vale sagrado. No fim das contas, acabamos nos divertindo muito. O motorista do táxi chamava-se Ricardo, uma figura superdivertida, conhecia tudo sobre as ruínas e nos acompanhou o tempo todo contando curiosidades e histórias incríveis. Visitamos as ruínas de koriwayrachina (ouro ao vento, ou trigo ao vento) uma área com terraças para plantação e locais para separação dos grãos, armazenamento e residência dos colonos.

Mais acima fica Hintiwatana, um observatório que registrava os movimentos do sol, um lugar belíssimo de onde se tinha uma das melhores vistas do vale. O problema era chegar lá, o caminho era tortuoso e íngreme e por causa da altitude ficávamos constantemente sem fôlego. Terminamos o passeio perto da hora do almoço.Ricardo nos levou então até a cidade de Urubamba para almoçarmos em um lugar que ele conhecia. Pelo caminho foi nos ensinando várias expressões em quíchua, demos muitas risadas com ele.

Chegamos ao Chepita um lugar simples, mas muito acolhedor, onde nos serviram um farto e delicioso almoço, totalmente aprovado pela galera. Seguimos em frente em direção a Ollantaytambo, que fica a 90 kilômetros a Noroeste de Cuzco.

Construída sobre duas montanhas em um lugar estratégico que domina todo o vale sagrado, constituiu um complexo militar, religioso, administrativo e agrícola.

Segundo a lenda, essa fortaleza pertenceu a um grande senhor, Ollantay, que se apaixonou pela princesa Cusi Coillor, filha de Pachacutec, que não estava de acordo com a união. Como o pretendente não tinha sangue real, Pachacutec decidiu enviar a princesa para uma casa de virgens escolhidas. Ollantay, insistiu e foi procurar a amada, foi surpreendido, mas conseguiu fugir.

Regressou para sua fortaleza e declarou - se contra o Inca. Após dura resistência, a fortaleza foi dominada e Ollantay preso. Finalmente Pachacutec demonstrou sua generosidade e perdoou a vida de Ollantay. Um lugar místico de grande beleza arquitetônica.

Depois de um longo dia de caminhadas e histórias incríveis do povo inca retornamos ao hotel para descansar e nos preparar para o dia seguinte, quando finalmente iniciaríamos o caminho inca até Machu Picchu.

Finalmente chegou o grande dia, acordamos as 6 horas da manhã e rumamos para a praça das armas para reunirmos ao nosso grupo.

Depois de algum tempo de espera, surge o ônibus que nos levaria ao Km 82, início da trilha. O nosso grupo era formado por 25 pessoas de todas as partes do mundo, austríacos, alemães, peruanos, americanos, autralianos e nos brasileiros. Depois de uma longa espera, tomamos o caminho da estrada. Chegamos ao nosso destino perto do meio dia, ansiosos e impacientes. Assim que o ônibus estacionou percebemos que alguma coisa estava errada. Um tumulto, vários grupos parados e um aglomerado de pessoas discutindo sem parar.

Só então viemos a saber que os carregadores tinham entrado em greve e proibiam qualquer pessoa de iniciar a trilha. Desânimo geral de todos. Não podíamos acreditar no que estava acontecendo, chegar até lá e ser proibido de entrar no caminho inca.

Passamos algumas horas na maior expectativa. Procuramos, então, saber o porque da greve. Ficamos sabendo que os carregadores, gente simples e muito humilde, estavam revoltados com as condições de trabalho. Eles ganham em torno de US$ 10 para fazer todo o trajeto de quatro dias, carregando 28 a 30 kilos nas costas. Suas mochilas ou melhor sacos amarrados em cordas são totalmente desconfortáveis. Neles carregam tudo o que puder imaginar: botijões de gás, fogões, mesas, cadeiras, barracas, alimentos, enfim, tudo para tornar o mais confortável possível nosso trekking. Ainda por cima eles são obrigados a pagar para entrar na área do parque nacional, dormem ao relento, pois não há barracas para eles. Se chover, não tem como se proteger e para completar não podem entrar na cidade sagrada de Machu Picchu. Ficamos horrorizados com o relato de nossa guia Nelly e acabamos nos solidarizando com eles.

Filmamos todo o protesto e conversamos com alguns deles.É incrível como o poder econômico se aproveita da índole servil de um povo para subjulgá-lo como fez com os descendentes dos incas. Após inúmeras discussões, chegou-se a um acordo e às duas horas da tarde e finalmente entramos no caminho inca.

O visual era inacreditável. À nossa frente toda a cadeia de montanhas dos Andes, em nossas costas o monte verônica que nos acompanharia por todos os quatro dias de caminhada.

Caminharíamos em torno de 5 horas até o primeiro acampamento Wayllabamba somente com uma parada para o almoço. Íamos progredindo muito bem energizados pelo visual de cair o queixo. Conforme avançávamos, eramos ultrapassados pelos carregadores em seu passo curto e rápido, nos deixando com uma tremenda inveja. Aos poucos o caminho começou a ficar íngreme e o fôlego começou a faltar. Sob orientação de Nelly começamos a mascar as folhas de coca que tínhamos comprado.

O gosto amargo vai desaparecendo a medida que a boca vai ficando amortecida, após algum tempo o resultado começa a surgir, o fôlego melhora e a disposição também.

Após umas duas horas de caminhada, chegamos ao primeiro ponto de parada para o almoço. Um lugar lindo, gramado verde, o vale lá embaixo iluminado por uma luz incrível. Largamos as mochilas e nos esticamos na grama. Imediatamente um dos carregadores nos traz o prato, sopa de aspargos. Olhamos um para a cara do outro sem acreditar, estava uma delícia. Logo que terminamos lá vem eles de novo com um prato de macarrão com molho e queijo.Tudo muito bem feito e delicioso. Incrível fazer tudo aquilo no meio do nada.

Depois de algum tempo de descanso, nos colocamos na estrada novamente, agora teríamos que andar sem parar o mais rápido que pudéssemos, pois como entramos atrazados na trilha iríamos chegar ao ponto do acampamento já anoitecendo.

(*)Sílvio Serrano, Roberto Lima, Marcos Lima e Walter Folkis

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