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Rodrigues de Abreu é homenageado

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 3 min

Poeta que viveu e morreu em Bauru tem poesia em sua homenagem exposta na biblioteca que leva seu nome; Centro Cultural abre hoje Semana Rodrigues de Abreu

Considerado um poeta romântico da segunda geração, quando imperava o chamado mal-do-século, Rodrigues de Abreu também flertou com os parnasianistas, simbolistas e, por último, modernistas, fase esta percebida em seus últimos versos. O dia 27 de setembro é lembrado pelo nascimento do poeta, ocorrido no ano de 1897, em Capivari (SP).

Rendendo homenagens a Rodrigues de Abreu, que viveu em Bauru de 1923 a 1927 (ele em 24 de novembro daquele ano), o professor bauruense Joaquim Simões escreveu Vida em Versos, lembrando o centenário de nascimento do poeta (leia na página 30).

Na semana passada, o poema ganhou molduras e foi doado à Secretaria Municipal de Cultura, que o deixará exposto na Biblioteca Municipal do Centro Cultural, a qual leva o nome de Rodrigues de Abreu.

Um de seus poemas que carregam fortes traços modernistas é Bauru (leia nesta página), o qual descreve os contrastes encontrados por aqui já no início do século passado, ou em suas palavras: Entrada do Brasil novo ou ainda Cidade de Espantos!.

A partir de hoje, a secretaria de Cultura promove a Semana Rodrigues de Abreu, com exposição fotográfica, biografia, poesias e livros do poeta, descrito por Menotti Del Picchia como Cristo da nova geração.

Bauru

Moro na entrada do Brasil novo.Bauru, nome-frisson que acorda na alma da genteressonância de passos em marcha batidapara a conquista soturna do Desconhecido!

Acendi meu cigarro no toco de lenha deixado na estrada,no meio da cinza ainda mornado último bivaque dos Bandeirantes...

Cidade de espantos!Carros de bois geram desastres com máquinas Ford.Rolls-Royces encalham beijando a areia.

Casas de tábua mudáveis nas costas;bungalows comodistas roubados da noite para o dia,às avenidas paulistas...Cidade de espantos!

Eu canto a estesia suave dos teus bairros chics,as chispas e os ruídos do bairro industrial,a febre do lucro que move os teus homens nas ruas do centro,e a pecaminosa alegria dos teus bairros baixos...Recebe o meu canto, cidade moderna.

Onde é que estão, brasileiros ingênuos,as úlceras feias de Bauru?

Vi homens fecundos que fazem reclamo da Raça!E eu sei que há mulheres fidalgas que ateiam incêndiosna mata inflamável dos nossos desejos!Mulheres fidalgas que já transplantaramo Rio de Janeiro para este areal...

A alegria busina e atropela os trustes nas ruas.A cidade se fez a toques de sinos festivos,a marchas vermelhas de música, ao riso estridente,de Colombinas e de Arlequins.

Por isso, cidade moderna, a minha tristeza de tuberculoso,contaminada da doença da tua alegriamorreu enforcada nos galhos sem folhasdas tuas raras árvores solitárias...Eu já tomei cocaína em teus bairros baixos,onde há Milonguistas de pálpebras murchase de olhos brilhantes.

Rua Batista de Carvalho!O sol da manhã incendeia ferozmentea gasolina que existe na alma dos homens.Febre... Negócios... Cartórios. Fazendas... Café...Mil forasteiros chegaram com os trens da manhã,e vão, de passagem, tocados da pressa,para o El-Dorado real da zona noroeste!

... Acendi meu cigarro no toco de lenha deixado ainda acesona estrada, no meio da cinzado último bivaque dos Bandeirantes...

E enquanto o fumo espirala, cerrando os meus olhos,fatigado do assombro das tuas visões,eu fico sonhando com o teu atordoante futuro,Cidade de Espantos!

Rodrigues de Abreu

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