O escritor Paulo Sandrini faz hoje, às 20 horas, o lançamento do livro de contos Vai Ter que Engolir!, no Centro Cultural Carlos Fernandes de Paiva. Editado em Curitiba (PR) - cidade onde o escritor reside atualmente - a obra é fruto de uma seleção de trabalhos produzidos entre 1995 e 1998.
Aos 30 anos, natural de Vera Cruz, Paulo Sandrini finaliza seu primeiro trabalho como contista. Foi uma seleção difícil, pois achava a que não conseguiria uma compilação homogênea. Contudo, depois de decidir pelos seis contos que integram a obra, consegui ver nela uma temática comum, que é a de que o ser humano é mesmo ambivalente. De vítima, ele passa facilmente a carrasco, ou dos outros ou de si mesmo, define o escritor.
O resultado do livro, que pode ser considerado pesado por muitos, é avaliado como irônico e engraçado pelo autor. Sem abrir mão de neologismos e do sentimentalismo (às vezes sarcástico), Paulo Sandrini busca um maior contato com o leitor.
A idéia do livro surgiu em 1997, quando o conto que dá título ao livro foi o segundo colocado em um concurso universitário disputado entre os países do Mercosul. O conto integra uma coletânea do concurso publicada em 1999.
O pensamento na publicação de um trabalho solo ganhou peso. Vale dizer que a prosa não foi o início de Paulo Sandrini como escritor. As primeiras experiências vieram com a música. Escreveu letras e melodias, o que despertou-lhe o interesse pela linguagem escrita.
Ainda em Bauru, escreveu seus primeiros poemas, seguindo uma linha pós-concretista. O fato de na época estudar design gráfico, levou o escritor a alinhar o trabalho poético às questões visuais.
Entre os inspiradores, destaca-se o poeta bauruense Luiz Vitor Martinello. Uma pessoa que sempre apoiou esse lado criativo de seus alunos, elogia Paulo Sandrini. Suas tendências levaram o escritor a produzir trabalhos em vídeo-poesia, explorando bastante as imagens.
Paralelamente, freqüentava cursos e aulas de cinema, o que refletiu profundamente em sua prosa. Um exemplo marcante é o conto O Dia do Pagamento, que integra o livro e é praticamente uma roteirização para um filme de ação.
No entanto, os contos não se limitam à linguagem cinematográfica. Escrito em terceira pessoa, o livro passa uma idéia de distanciamento do sentimentalismo, ao mesmo tempo em que coloca os leitores na posição de observadores (mesmo quando estes acompanham os personagens durante o enredo) como se estivessem sentados em uma poltrona de sala ou no cinema.
A linguagem possui cortes rápidos, ausência de pontuação e aglutinação de palavras. São exemplos marcantes os contos Todos Dizem Amém e Street Fighter.
Tudo isso compõe o ambiente nervoso e ansioso em que a obra está inserida. Se fosse mesmo bem diferenciado o campo da ficção do campo do que chamamos realidade, poderíamos chegar a dizer que vivemos num mundo ficcional, já que desde o discurso cotidiano e até mesmo científico, em contadas vezes, bem distantes ficamos do que é a realidade, pelo menos a realidade dos outros. É por isso que meu maior prazer em fazer a travessia de Vai ter que engolir! está, justamente, em que nela emerge essa tão tênue e delicada linha que separa a ficção da realidade, tão delicada que ultrapassá-la é muito mais humano do que se supõe, escreve o diretor teatral e professor universitário paranaense Hugo Mengarelli, que prefaciou o livro.
O autor
Formado em Design Gráfico pela UFPR (cursando metade na Unesp-Bauru), Paulo Sandrini atua hoje como designer e redator publicitário. Para o futuro, o escritor prepara um novo livro de contos. Com o título provisório de Alta Cruz, o projeto deve ser trabalhado nos próximos dois anos.
Serviço
Lançamento do livro Vai Ter que Engolir!, de Paulo Sandrini, hoje, 20h, no Centro Cultural. Grátis. Realização: Secretaria Municipal de Cultura. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: 235-1072.