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Filantropia não deve manter a exclusão, afirma Mindlin

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Muitos empresários podem não gostar do título desta matéria. Entretanto, na avaliação do diretor-presidente da Fundação Telefonica, Sérgio Mindlin, a manutenção da exclusão pelas empresas que praticam a filantropia assistencialista é um erro, acima de ser um desafio social. Ele defende que, mais do que uma empresa continuar investindo na manutenção dos grupos excluídos da sociedade, há a necessidade de que essas ações sejam transformadoras do status quo. Ou seja, Sérgio Mindlin defendeu, em entrevista ao JC, que o desafio é que as empresas que investem no atendimento de deficientes, idosos e miseráveis, além de outros, possam constituir programas que os tirem da estatística de exclusão social. Leia os principais trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - Responsabilidade corporativa é uma tendência nova e uma ação ainda distante das empresas brasileiras?Sérgio Mindlin - Há uma tendência de expansão desse tipo de prática. As empresas estão percebendo, e tem pesquisas nesse sentido, que, cada vez mais, o consumidor dá preferência a produtos de uma empresa que pratica a responsabilidade empresarial. Esses consumidores também punem uma empresa que faz propaganda enganosa, provoca danos ao meio ambiente, emprega trabalho infantil. Existem indicações claras de mercado de que é importante para a sociedade, o consumidor, fazer essa distinção. Claro que é importante para o consumidor um bom produto a preço competitivo. Mas, existem indicadores de pesquisa de que uma empresa com responsabilidade social, que pratica um bem para a comunidade, na gestão, no seu dia-a-dia, ela encontra melhor resposta dos consumidores. Isso faz diferença. Essa é uma tendência do mundo inteiro que no Brasil está se instalando cada vez mais, nos últimos cinco anos.

JC - Essa prática social da empresa independe de seu tamanho?Mindlin - Pode ser uma micro-empresa, uma média ou uma grande corporação com várias subsidiárias. A questão da prática do negócio, da ética, da forma de fazer uso dos negócios tem muita relação com a responsabilidade social, a ação da empresa junto aos consumidores. É óbvio que pequenas empresas têm menor disponibilidade para atuar junto à sociedade, mas os resultados existem se isso for feito. Uma loja pequena, com poucos funcionários, pode oferecer uma oportunidade de aprendizado do serviço para jovens. Uma grande dificuldade do jovem é que ele já está formado na escola com 14 anos, mas não pode trabalhar até os 16 anos. Essa oportunidade de apreender a trabalhar é um exemplo, no esquema de aprendizado. Essa pequena empresa está participando da formação dos jovens para o mercado.

JC - A filantropia assistencialista de algumas empresas não conflita com o conceito de responsabilidade social?Mindlin - A filantropia assistencialista é um traço histórico da forma como as empresas começaram a agir em relação a investir na comunidade. Há algum tempo, a empresa considerava que pagar seus impostos, cumprir a lei, era ser socialmente responsável. Mas, pagar impostos não significa que o governo vai resolver sozinho os problemas da sociedade. As empresas foram percebendo que isso não era suficiente. A manutenção de pessoas sem renda, de grupos excluídos pela sociedade, de doação, é um traço muito mais antigo da benemerência que já existia no mundo. E em si, não é uma ação errada, que deve acabar. A questão é que essa ação não resolve. As empresas percebem que o investimento social é aquele que leva a pessoa excluída a poder, por si só, encontrar sua oportunidade, gerar sua renda. Mas, em geral, as ações sociais mantém a realidade, não resolvem o problema, sejam para idosos, deficientes ou carentes. A distinção é essa. Doar recursos para manter o programa, ou investir para que esse grupo possa mudar sua realidade.

JC - A filantropia assistencialista mantém o extrato social então?Mindlin - Ela não muda a situação. É eternamente necessária. Ela pode se transformar em um instrumento de manutenção do status quo, onde os grupos carentes permanecem assistidos mas não deixam de ser carentes. Enquanto que, ao fazer m investimento social, as empresas passam a dar oportunidade que esse grupo deixe a exclusão, deixando de ser dependente da ajuda. Este é um trabalho mais demorado, em geral, até, de maior custo no momento. Mas é aquele que gera espaços de trabalho, renda e de modificação da realidade. E isso para as empresas é altamente benéfico. E esse tipo de programa, de ação, é muito mais percebido pelos consumidores e eles ficam mais leais àquela marca, àquela empresa e tendem a ser consumidores mais fiéis. Os trabalhadores têm uma relação diferente com esta empresa, sentem orgulho de estar participando do processo na empresa e não em uma empresa que simplesmente trabalha para manter a realidade dos excluídos, ainda que tenha uma substancial contribuição junto a um desses grupos com quem colabora. Eu não quero dizer com isso que as aplicações das empresas na filantropia assistencialista não são necessárias. São, até porque a sociedade sabe que o governo não resolve os problemas. Mas, eu defendo que os investimentos sejam feitos para transformar o status quo e não simplesmente mantê-lo. Manter uma entidade por si só não faz com que seus dependentes se incluam na sociedade, eles podem continuar sendo dependentes.

JC - As empresas manteriam investimentos em programas sociais, culturais, se não houvesse o abatimento no Imposto de Renda?Mindlin - As empresas que investem nos programas sociais, financiam eventos culturais, não estão fazendo apropriação indébita só porque descontam do Imposto de Renda, pagam menos imposto. O que ocorre é que há uma gerência privada de uma parte dos recursos que seriam públicos. O importante é que esses recursos sejam usados para o fim a que se destinam. Não há contradição nesses investimentos. O Estado não resolve todas as questões e esses programas minimizam. Mas, eu acho que, na área cultural, por exemplo, nem todas as empresas realmente continuariam financiando eventos, espetáculos, se não houvesse a dedução devida de impostos.

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