Um dos equívocos mais comuns nas sociedades ditas emergentes é a difusão da idéia que a globalização criou um mundo novo, no qual o papel do Estado deve ser extremamente limitado. Neste mundo imaginado por muitos intérpretes da modernidade, os governos devem se abster de intervir na economia, deixando que os mercados indiquem o melhor rumo a seguir. Alguns mais radicais pretendem que os Estados devem restringir suas funções ao papel de polícia e à administração da justiça. É interessante notar que freqüentemente se procura demonstrar que essas transformações são dominantes nas sociedades mais desenvolvidas, o que é absolutamente falso.
O que estamos assistindo nos Estados Unidos nos dias de hoje, diante da tragédia produzida pelo terrorismo, é a demonstração cabal da falácia contida naquele pensamento. Pode-se argumentar que se trata de um estado de emergência, mas ficou evidente desde o primeiro momento que o governo não hesita por um instante sequer em intervir na esfera privada da economia, quando se apresenta a necessidade de dar suporte aos setores empresariais. Foi assim com o socorro articulado imediatamente para evitar o pânico nos mercados financeiros e com a rápida intervenção para salvar do desastre as companhias de aviação e as seguradoras.
Este é um fato cercado por circunstâncias dramáticas, mas a história americana mostra que o extraordinário crescimento de sua economia jamais prescindiu de um forte e ágil respaldo ao setor privado, seja na defesa de seu mercado interno, seja no suporte às suas exportações. Em outras ocasiões, tenho procurado mostrar que o poder americano se organizou, desde o nascimento da Nação, em torno do objetivo de garantir a segurança alimentar e a segurança militar. É disso que se trata. Com ou sem ameaças à segurança nacional, não há o menor sentido em se imaginar que o estado possa abandonar as suas tarefas de dar garantia à propriedade privada, de dar segurança aos contratos e que deva abrir mãos dos instrumentos para corrigir desvios do mercado. Sem isso a economia capitalista não funciona. Não se trata de defender o gigantismo estatal, mas sim de ceder à evidência que os mercados não são capazes de funcionar bem sem que estejam respaldados por governos rigorosamente fortes, garantidores do cumprimento das leis.
É o exemplo americano que devemos usar para convencer os formuladores de nossa política econômica a abandonarem o viés anticrescimento. É falsa a idéia que o desenvolvimento prescinde da intervenção estatal nos setores produtivos privados. Esse equívoco fez o governo manter-se indiferente, por seis anos, à destruição do setor exportador, à descapitalização do setor agropecuário e absolutamente avesso à necessidade de uma política industrial de substituição de importações. Até porque essa doutrina de não-intervenção parece muito localizada, se considerarmos o intervencionismo brutal que representou para nossa economia a antiga política cambial sustentada nas mais absurdas taxas de juros.
(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USPE-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br