Geral

Moradia estudantil é desafio para Unesp

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 11 min

Novo presidente do GAC, José Brás Barreto de Oliveira, disse que moradia e restaurante universitário são prioridades

O professor José Brás Barreto de Oliveira, que desde o último dia 20 é diretor da Faculdade de Ciências da Unesp (FC) e presidente do Grupo Administrativo do Câmpus (GAC), tem à sua frente um desafio que não é dos mais simples: administrar uma das maiores unidades da Unesp que ainda sofre com a sua infra-estrutura básica e com a falta de professores. A melhora da biblioteca e a construção de um novo bloco de salas de aulas são alguns dos projetos que devem ser colocados em prática na sua administração, mas o item que encabeça a sua lista de prioridades no GAC é a construção daquela que talvez seja a maior reivindicação dos estudantes da Unesp de Bauru, a moradia estudantil, acompanhada ainda do restaurante universitário. Segundo Oliveira, há uma grande chance das obras começarem já em 2002. Em entrevista ao JC, ele falou sobre educação, vestibular e das perspectivas de melhoras do câmpus local.

JC - Qual a sua opinião sobre a interiorização da Reitoria da Unesp e as chances de Bauru ser a sua sede?Oliveira - Eu penso que o processo de discussão da Reitoria foi feito de forma invertida. A primeira decisão que devia ter sido tomada é se vai interiorizar ou não, para depois se pensar onde vai ser essa Reitoria. Eu acho que a idéia da interiorização é interessante mas nós não temos estudos dentro da Unesp que justifiquem a interiorização. Só podemos fazer isso a partir de uma análise técnica. Pessoalmente, acho interessante porque a Unesp é uma universidade espalhada pelo Interior do Estado, mas isso é pouco para se tomar essa decisão. Além disso, a interiorização deve estar atrelada a uma forma de organizar a administração da Unesp. Não adianta a Reitoria estar em Bauru ou Botucatu se ela mantiver tudo centralizado, mais importante do que a interiorização é a descentralização da administração, é dar mais autonomia para as unidades universitárias, não importando se a sede é na Capital ou no Interior, diminuindo o tamanho da administração central, isso é mais adequado administrativamente. Nós poderíamos, por exemplo, administrar os recursos humanos que hoje são centralizados. Eu penso que antes de tudo a Unesp tem que definir qual o seu modelo de administração, de gestão administrativa e aí, a interiorização é um dos aspectos que eu acho interessante mas, que não adianta ser discutido desse modo, muito menos para que cidade essa Reitoria iria.

JC - Bauru tem condições de sediar a Reitoria da Unesp?Oliveira - Bauru tem todas as chances. Eu acho que é a cidade mais preparada para receber a Reitoria se ele vier para o Interior porque tem um dos maiores campi da Unesp, as três faculdades têm crescido muito quantitativamente e qualitativamente muito rápido e apresentam uma melhora acadêmica o que eu acho um dado bastante positivo. Eu acho que nesse aspecto o câmpus de Bauru está preparado para receber a Reitoria da Unesp. Além disso, a cidade tem a infra-estrutura necessária, tem facilidade de acesso rodoviário e aéreo, uma boa rede hoteleira. Eu penso que a cidade tem grandes chances mas a comunidade da Unesp tem que tomar a decisão de: primeiro, qual o seu modelo de gestão; por que o Interior e não a Capital e, por último, qual a cidade para qual a Reitoria iria. Essa eu acho que é a ordem mais adequada para se decidir essa questão.

JC - Existe uma comissão que estuda essa questão?Oliveira - Existe uma comissão que trabalha nesse assunto e que apresentou um relatório ao Conselho Universitário (CO) e o conselho achou que o relatório precisava de mais dados sobre aspectos mais criteriosos, inclusive que incluíssem São Paulo como uma das cidade candidatas a sediar a Reitoria - no caso, continuar sediando. Essa comissão ficou de ampliar os estudos e quando eles estiverem prontos vai ser marcada uma reunião extraordinária do CO para discutir esse assunto.

JC - Bauru tem algum representante nessa comissão?Oliveira - Não, não possui nenhum.

JC - Existe a intenção de se criar uma Prefeitura do câmpus para, no futuro, substituir o GAC? Oliveira - Sim, essa é uma proposta que eu estou colocando em pauta porque entendo que uma prefeitura no câmpus é uma forma de organizar e administrar, qualitativamente superior. Hoje temos um rodízio que funciona razoavelmente bem, mas há um acumulo de funções entre a diretoria da faculdade e a administração do câmpus porque o GAC e a FC têm problemas diferentes. A direção da faculdade tem um forte caráter acadêmico e no GAC ou numa prefeitura a preocupação é com aspectos comuns a todo o câmpus, a biblioteca, a vigilância, a jardinagem. Eu entendo que uma prefeitura seria mais apropriada para administrar o câmpus. Em Bauru temos, aproximadamente, 5 mil pessoas, entre os servidores administrativos, professores e alunos, é uma minicidade, que a meu ver deve ser administrada por um prefeito. Nós pretendemos instalar a prefeitura do câmpus em conjunto com Botucatu. Já falei com três dos quatro diretores de lá sobre isso, aliás, já existe uma proposta preliminar e a nossa idéia é retomar essa proposta.

JC - Como seria a escolha desse prefeito?Oliveira - Ele seria eleito diretamente pela comunidade do câmpus, que poderia escolher qualquer pessoa de qualquer faculdade, independente de ser o diretor ou não. Uma escolha assim daria a pessoa o respaldo das três faculdades e não só de uma delas. Hoje também temos funcionários que participam da administração geral mas que não participam da escolha do presidente do GAC, então existe todo um contingente de pessoas que não escolhe o presidente do GAC. Uma eleição geral para prefeito do câmpus seria ampliar a democracia no processo de escolha, além de acabar com o acumulo de funções e aperfeiçoar a administração.

JC - A construção de uma ciclovia é outro projeto que o GAC vai levar adiante. Por que ela é tão importante?Oliveira - Temos um problema muito sério aqui no câmpus que é avenida Eng. Luiz Edmundo Coube, que liga a avenida Nações Unidas à universidade. Ela não é duplicada e forma um gargalo entre o novo trevo da rodovia do nosso outro lado e a Nações. Ela não tem acostamento e tem mão-dupla e nela trafegam carroças, carros, motos, bicicletas e pedestres. Com o condomínio na nossa frente o tráfego aumentou muito e ele vai aumentar ainda mais quando o hospital regional ficar pronto. Além disso, muitas pessoas moram no Geisel por causa da Unesp e vêm para cá a pé. Por isso a questão da ciclovia e de um calçamento para pedestres não é um luxo é uma necessidade porque estamos colocando em risco a vida de ciclistas e pedestres. Queremos contar com o apoio da Prefeitura Municipal para duplicar, construir o calçamento e a ciclovia. O poder público municipal tem que dar uma resposta e, se for necessário irmos ao poder público estadual, vamos ir, mas em primeira instância cabe à Prefeitura. É uma questão de segurança, não é luxo nem estética.

JC - O câmpus de Bauru é um dos maiores da Unesp, mas não é um dos que tem a melhor infra-estrutura. Inclusive, há um longo histórico de reivindicações por moradias estudantis e um refeitório. Quando a Unesp de Bauru vai ter esses benefícios para os seus estudantes?Oliveira - Eu penso que a moradia estudantil e o restaurante universitário são estruturas importantes para nós. Nós temos um contingente grande de estudantes e alguns têm dificuldade de se manter na cidade tendo que pagar pelas suas refeições e seu aluguel. A questão do restaurante não envolve só o fato de fornecer alimentação subsidiada, mas também a questão da facilidade, não só para os estudantes mas para o servidor, o pessoal do administrativo, os docentes, o funcionário da Unesp em geral, que não teria que sair do câmpus para se alimentar. É importante vivenciar a vida universitária e nisso um restaurante facilitaria muito. Eu apóio a idéia da moradia e do restaurante, sempre apoiei as reivindicações para isso e hoje nas prioridades do GAC, ou seja, daquilo que é comum no câmpus, o restaurante e a moradia estudantil estão em primeiro lugar, são nossas prioridades de construção. Isso já foi aprovado pelas três faculdades do câmpus de Bauru.

JC - Existe uma previsão para que isso se materialize?Oliveira - Na semana de 7 de Setembro, o reitor da Unesp (José Carlos de Souza Trindade) esteve aqui para tratar desse assunto. O que vai se tentar é incluir a moradia no plano de construções do próximo ano, temos o apoio do professor Trindade, nosso reitor, para isso. Também há uma grande possibilidade de reforma da área da cantina para a construção do restaurante. Estamos na fase de elaboração do projeto com apoio da Reitoria.

JC - Qual a porcentagem de professores titulados nas três faculdades?Oliveira - Na Faculdade de Ciências temos 77% de professores que são doutores, quando a média geral de toda Unesp é de 76,5. A Faculdade de Engenharia (FE) tem 65% dos seus professores titulados e a Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac), 45%. Essas diferenças têm que levar em conta o fato de que as áreas têm especificidades, então em alguns setores, como artes, existe alguma dificuldade porque existem poucos cursos de pós-graduação, por exemplo. Mas o câmpus como um todo tem melhorado nesse sentido, de modo que a gente acha que é hora de ter um retorno. Na verdade, um pouco da dificuldade de produção decorre disso, se você pode afastar os docentes para cursar pós-graduação, você tem o retorno e a titulação mais rápida, se você tem dificuldade para afastá-los isso demora mais.

JC - Existe um déficit muito grande de professores nas três faculdades?Oliveira - Sim, porque a gente vem tendo dificuldade para repor vagas. A Faac em especial tem sofrido um pouco com isso e tem um número razoável de professores-conferencistas. Nós temos procurado reinvindicar as contratações, pelo menos para reposições, porque essa falta prejudica bastante os cursos. Agora a Reitoria está abrindo um processo de contratações emergenciais até o final do ano, recentemente foi solicitada uma lista de prioridade para as faculdades, nós enviamos e estamos aguardando um retorno. Só a FC precisa em torno de 15 docentes, que é um, número razoável.

JC - A contratação de professores-conferencistas prejudica muito o curso?Oliveira - É uma saída de emergência, paliativa, que não pode virar uma regra. Não podemos suprir para sempre a falta de docentes com conferencistas. Eles têm contribuido bastante atualmente, mas precisamos de professores contratados para regime integral, docência e pesquisa. Queremos que ele fique 40 horas no câmpus, que trabalhe no ensino de graduação, na pesquisa, na extensão e isso só é possível no regime integral. Os professores-conferencistas têm contribuido, mas são uma medida paliativa, mesmo porque eles são contratados apenas por 89 dias por questões legais. Obviamente isso não é interessante para o funcionamento dos cursos.

JC - A qualidade do ensino público têm evoluído pouco nos últimos anos se comparado à rede particular. Essa diferença de formação faz com que os alunos das escolas particulares, com melhor formação, consigam ingressar mais facilmente nas faculdades e universidades, em especial as públicas. Isso é um sinal de que a universidade pública tende a ficar cada vez mais elitizada? Oliveira - Isso é um problema social, não é só uma responsabilidade da universidade. A universidade não tem outros meios de fazer uma seleção se não for em cima da formação do estudante e é um dado conhecido que a rede pública estadual do ensino médio não tem preparado o aluno tão bem quanto parte da rede particular. Com isso, os cursos mais concorridos acabam tendo um maior número de alunos que vêm da rede particular. Na Unesp, cerca de 50% dos alunos vêm da escola pública. No nosso câmpus é assim, temos muitos alunos, principalmente nos nossos cursos noturnos, que vêm da escola pública. Aliás, a procura por nossos cursos noturnos é muito grande e isso é muito importante porque se atende a porcentagem de estudantes que trabalham durante o dia. Nós estamos dentro da exigência da Constituição Estadual que diz que 1/3 das vagas devem ser oferecidas à noite. Isso nos faz voltar à questão da administração. Uma faculdade que trabalha em dois períodos é mais facilmente administrada do que uma que tem que funcionar de dia e de noite também, em três períodos. Toda a estrutura do câmpus tem que funcionar o dia todo nesse caso e isso requer mais funcionários, mais material, agora, mas energia elétrica e as unidades de Bauru, as três faculdades, são as que recebem menos verbas de custeio da Unesp, é um problema histórico que estamos tentando reverter. Estamos sempre no limite, temos dificuldades para nos manter com o material de custeio e isso afeta bastante o funcionamento.

JC - Por que esse histórico? Oliveira - São os chamados índices históricos, os percentuais de distribuição entre as faculdades que já existiam quando a Unesp encampou Bauru, foi destinado um montante para a Unesp, há dois anos houve um acréscimo, mas ele ainda é restrito. Cada faculdade recebe R$ 280 mil por ano, o que dá, aproximadamente R$ 23 mil por mês. Com esse dinheiro é preciso administrar tudo: combustível, material para laboratório, material de escritório... É um valor reduzido, fica difícil qualquer tipo de investimento.

Comentários

Comentários