O leitor me liga para reclamar do pessimismo que invadiu a imprensa e contamina o povo. Só dá notícia ruim. Até o Millôr Fernandes, nosso filósofo-maior, perdeu a paciência durante a tormenta: Quem economizou durante anos esperando dias piores, pode começar a gastar que eles já chegaram.
Se a incerteza acomete o mundo desenvolvido diante da ameaça de guerra dos Estados Unidos contra não sei quem, imagine aqui no Brasil onde vamos ter uma CPI contra a CPI das construções inacabadas.
É um equívoco avaliar a História pelo tempo que se tem de vida e com o foco em fatos recentes. Mas é sempre uma tentação fazê-lo. No seu famoso livro de 1992, O fim da história e o último homem, Francis Fukuyama começou por dizer que o século XX nos havia tornado todos profundos pessimistas históricos. O mundo se acostumou de tal maneira a produzir más notícias que ficou difícil reconhecer os fatos positivos. Esquecemos depressa do fim da guerra fria e, com ela, o fim das ideologias. A globalização com sua diversidade cultural, integração econômica e social em rede - um mundo sem fronteiras - tinha tudo para dar certo. Faltou um pouco mais de solidariedade; de distribuir melhor as benesses trazidas no bojo das novas tecnologias. Incluir mais gente no consumo seria até muito bom para este neo-capitalismo. O que se viu, no entanto, foi o aumento da exclusão, o ressurgimento da xenofobia e o aparecimento do fundamentalismo religioso como uma nova ideologia com pretensões a transformar a sociedade.
Mas tem razão o meu amigo leitor. Também não está tudo tão ruim assim. Precisamos de um choque de otimismo antes que a Lei de Murphy prevaleça: se trabalharmos com a hipótese de que as coisas não vão dar certo elas não vão dar certo, mesmo.
Os Estados Unidos, que mais sofreram com os eventos de 11 de setembro, querem a desforra mas ao mesmo tempo suas autoridades clamam ao povo para que volte à normalidade do dia-a-dia. Bush apela para que seus cidadãos saiam às compras e que viagem de avião, visitem a Disney. As taxas de juros foram reduzidas. Mas a imprensa responde com a notícia da autorização dada por Bush a dois generais para que derrubem os aviões sob seqüestro em vôo sobre regiões habitadas. A imprensa explora o detalhe, o excepcional.
Doses de otimismo são sempre necessárias em momentos de crise e elas revigoram as energias da nação. Mas, a julgar pela entrevista do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, aqui o governo não está fazendo a sua parte no sentido de infundir algum ânimo aos brasileiros. Ninguém quer que o sr. Armínio Fraga venda ilusões e fantasias; apenas que demonstre alguma firmeza e convicção nos fundamentos da nossa economia. Sua entrevista foi um festival de incertezas: Espero que, é provável que, julgo possível que e assim por diante até o fim da entrevista na TV. Um inconcluso.
Quem não fica atrás é o pessoal da Fiesp. A guerra nem começou e um conselheiro vai à televisão para afirmar que os brasileiros vão ter um Natal bem mais pobre. Vivemos a sinistrose do catastrofismo. Eu que não me chamo Raimundo, nem sou solução para coisa alguma, pelo menos arrisco dizer que esse mundo, mundo, vasto mundo, vai melhorar. No campo das finanças, os investidores vão se tornar mais conservadores. Isso vai obrigar o acirramento da competição pela atração de capitais. Ao mesmo tempo passarão a ganhar peso fatores que antes nem eram propriamente valorizados, como a propensão dos países a viver em paz, livres de conflitos, sem disputas étnicas ou religiosas violentas, sem fundamentalismos e afastados do epicentro de potenciais conflitos internacionais.
Hollywood dispensou todos os roteiristas de filmes-catástrofes. Grandes anunciantes negam-se a fazer inserções na mídia enquanto durar esse clima terrificante. As arquiteturas econômicas, de marketing, social e política atualmente existentes vão ter que mudar. Só um louco pode querer restrições aos fluxos econômicos, exacerbação do nacionalismo e piora na qualidade de vida. Falta só aprender que globalização passa pela inclusão. Quanto mais gente gozando dos benefícios, melhor para todos. Simples.