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A sociedade aberta na mira do terrorista

(*) Mário Soares
| Tempo de leitura: 3 min

Ainda é cedo para se enxergar todas as conseqüências da incrível tragédia ocorrida nos Estados Unidos, no dia 11 deste mês. As imagens são horríveis e não saem de nossa memória. Escreveu-se, com razão, que tudo mudará nos Estados Unidos e no mundo depois dos terríveis ataques suicidas que custaram a vida de milhares de vítimas indefesas e golpearam pontos nevrálgicos e simbólicos do poder norte-americano: o financeiro, o militar e o político. É importante destacar que a União Européia manifestou sua solidariedade com os Estados Unidos, como se ela própria tivesse recebido os ataques. E pode-se dizer que assim foi, já que se tratou de uma ofensiva contra os valores das sociedades abertas ocidentais que acertou o ponto mais doloroso, precisamente na América do Norte, considerada invulnerável dentro de suas fronteiras.

Vivemos em um mundo desregrado, onde o crime organizado conta com enormes recursos monetários e tem a capacidade de inserir seu dinheiro sujo nos circuitos financeiros internacionais. Com tantos meios à sua disposição, procura conseguir sua influência sobre os meios de comunicação e as esferas políticas.

Nas sociedades abertas, o que mais importa é a opinião pública. Não existe um pilar mais eficaz para sustentar a ação dos governos. Agora, começa a ser esboçada uma opinião pública global que precisa ser ouvida. Como demonstra a tragédia que acabamos de viver, trata-se de um fenômeno novo que está emergindo na primeira linha de segurança das sociedades livres. O conflito entre israelenses e palestinos, que terminou por deslizar para formas de violência de enorme crueldade, pode ter alimentado alguns dos ódios que hoje vemos desencadeados. Não é possível pensar que os terroristas escolheram por casualidade como objetivo Nova York, a metrópole onde a comunidade judia é mais forte.

Cabe perguntar se os Estados Unidos e a União Européia terão feito tudo o que estava ao seu alcance para pôr fim ao conflito no Oriente Médio, fortalecendo os partidários da paz que se encontram nos dois lados. A violência dos falcões é contagiosa, mas está provado que não leva a nenhuma parte. Com isto, quero dizer que nas sociedades abertas ninguém está suficientemente protegido contra a violência. Não há sistemas de segurança nem Estados superpoliciais que nos coloquem a salvo. A violência deve ser atacada em suas origens - que é preciso identificar - e não apenas em seus efeitos perversos. A repressão pura e simples, sobretudo se aplicada cegamente, apenas servirá para tornar mais dramática a situação. É o que acontecerá se forem adotadas medidas de segurança sem o devido critério.

É de se esperar que os Estados Unidos e a União Européia, com autonomia estratégica, mas coordenadamente, saibam encontrar e consolidar os caminhos da paz através de um maior respeito pelos direitos humanos e uma maior vigência dos princípios democráticos. A liberdade nasce na consciência das pessoas e não favorece um endurecido sistema de segurança ou barreiras policiais mais altas. O mesmo pode-se dizer da confiança no futuro, tão importante para uma nação que, como os Estados Unidos, encontra-se hoje em dia à beira da recessão.

(*) O autor, Mário Soares, foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996.

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